Blog do Negão

16/06/2013

ORA, POIS!

Juca Chaves costumava dizer que, sempre que ia a Portugal, aproveitava e dava um pulinho na Europa. Talvez os tempos é que sejam outros, mas vi Portugal inserida no continente europeu tal qual França, Espanha, Itália ou Bélgica, inclusive no tocante ao atolamento na merda econômica em que se encontra a maioria dos países do continente.

Resolvemos conhecer Portugal e suas belezas, e definimos 31 de maio como data do embarque. A molecada iria perder algumas aulas e teria que fazer as últimas provas do bimestre em segunda chamada, mas nos lembramos do Pessoa e de nossa alma que nunca foi pequena. Ademais, se fôssemos esperar as férias em julho, iríamos sofrer adoidado com o calor que assola a Europa nesse período. Como de hábito nós, o já tradicional grupo dos sete, tínhamos um planejamento feito com boa antecedência. A única alteração ocorreu a cerca de um mês do embarque, quando decidimos que a cidade do Porto seria nosso primeiro destino, em lugar de Lisboa.

Já estávamos pagando as prestações da passagem para Lisboa, então eu me encarreguei de ver as alternativas, e a melhor delas seria a viagem Lisboa-Porto de trem. Comprei as passagens pela Internet e as recebi em casa, pelo correio, cerca de 10 dias depois. E ainda tem gente que não gosta de tecnologia. A idéia era permanecer no Porto por alguns poucos dias e depois alugar dois carros - não cabem sete num carro só, e achamos arriscado alugar uma van - para descer o mapa até a capital. Na falta de coisa melhor alugamos dois Fiat Punto. Para os passageiros, tudo bem: num carro Gustavo foi de motorista, levando Simone, Mariáh e Diogo; no outro eu dirigi em companhia de Eliana e do Luquinha. O problema eram as malas, e ainda não acredito que conseguimos fazer caber tudo. Passaríamos por Fátima, Coimbra, Óbidos e o que mais rolasse até Lisboa. De lá, escolheríamos outros itinerários. Não podíamos nos dar ao luxo de permanecer muito tempo nas visitas, porque nosso prazo era de apenas 10 dias.

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A classe econômica de qualquer avião é um atentado à dignidade humana, principalmente quando o voo é transcontinental, que dura em torno de 10 horas. Já na entrada, a primeira porrada: a gente tem que obrigatoriamente passar antes pela classe executiva, pra ficar com raiva de ser pobre. Após uma cortina é que vem a visão do inferno, um misto de cortiço com navio negreiro. O primeiro impulso que vem é uma vontade danada de fazer uma saudação do tipo "aê, comunidade!".

Desta vez nem o Lucas dormiu direito, Eliana e eu sequer cochilamos. Chegamos em Lisboa às seis da manhã, horário local, pegamos um táxi e fomos até a estação Santa Apolónia, para a viagem de trem. Aliás, lá não tem trem, tem comboio. Procuramos o guichê da empresa Comboios de Portugal, fizemos o check-in e corremos para a plataforma porque já estava em cima da hora.

Confesso que sinto muita inveja dos europeus quando o assunto é transporte. As rodovias são impecáveis e as viagens de trem são sempre prazerosas e confortáveis. Dá para percorrer toda a Europa de trem, a um custo muito inferior ao aéreo, ainda que este, pela concorrência das alternativas por terra, seja mais barato que qualquer promoção brasileira. O que, convenhamos, não exige tanto esforço assim.

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Cultura geral: Portugal possui 10,6 milhões de habitantes (dados de 2011), distribuidos sobre uma área de 92.345 km2. Ou seja, cabe dentro de Pernambuco. Chega a impressionar, num país tão pequeno para nossos padrões megalomaníacos, a quantidade de pontos históricos, turísticos ou meramente contemplativos que oferece. Assim, para não escrever o diário de Matusalém vou dividir o país e o relato da viagem em algumas partes, e começarei pelo começo: a cidade do Porto. Algumas fotos de aperitivo:


Ponte sobre o rio Douro, que separa as cidades do Porto e de Vila Nova de Gaia


Museu do Vinho do Porto. Na foto, da direita para a esquerda: Lucas, Diogo, Gustavo e eu.


O Rio Douro, que banha a cidade, prestes a desembocar no Atlântico. Belo como os rios Negro e Paraguai no Brasil


Na foto, Eliana, Lucas e eu. Além da curtição, acreditamos que estas viagens vão ajudar na formação do moleque


Toda a orla é margeada por um calçadão, o que garante a acessibilidade e a diversão com segurança

Desde antes do embarque eu já sabia que teríamos algum problema com o idioma, já que falamos brasileiro e os locais falam português. São idiomas bem parecidos, mas a pronúncia é um desafio a se considerar, além de algumas palavras possuirem significados diferentes daqueles que conhecemos.

É um mistério a ser desvendado, mas há alguns anos o Lucas é torcedor do Futebol Clube do Porto, desde a época em que jogavam o Hulk e o colombiano Falcão Garcia. Aí o moleque me encheu a paciência, queria porque queria conhecer o clube, os jogadores e o Estádio do Dragão. Resolvi telefonar para o hotel do Porto para me informar sobre o assunto. Foi meio que um parto a fórceps:

"Fénix Hotel, bom dia, N*%$@#el a vosso dispor!"
"Bom dia, com quem eu falo?"
"
N*%$@#el, senhor"
"Desculpe, não entendi"
N*%$@#el"
"Papai Noel?"
"Não,
N*%$@#el"
"Rapunzel?"
"
N*%$@#el!"
"Pode soletrar?"
"N-A-
%$@#el!"
Acabei indo por dedução: Natanael?

"Mas é o que estou a dizer!"

Gente fina o Natanael, super educado, bem humorado e solícito. Expliquei a ele sobre a questão do F.C. do Porto, e ele informou que a visita ao estádio era bastante comum, mas me mandaria um e-mail sobre a visita ao clube, cuja possibilidade iria averiguar. Após dois ou três dias sou surpreendido com um telefonema do hotel, e um colega do Natanael me disse que o clube mandara informar que suas portas estavam abertas para nós, bastaria agendar. Achei muito gentil, tanto por parte do hotel quanto do clube. Lucas ficou alucinado.

Nossa primeira refeição em terras portuguesas talvez tenha sido a mais divertida. O cardápio parecia escrito em linguagem cifrada, havia pratos com nomes os mais bizarros e ficamos brincando de adivinhação. Bom, Gustavo e Simone já tinham saído do hotel babando por um bacalhau, e lá bacalhau é chamado de bacalhau, então para eles não houve problema. Mas o cardápio é mais ou menos esse aí embaixo:


Esse cardápio é do restaurante ao lado do hotel, mas não é muito diferente dos demais

É claro que tivemos que utilizar os serviços de tradução do garçon. Eu estava curiosíssimo para saber o que seria prego em prato, que imaginei algo rico em ferro, Rojões a piolho ou mesmo alheira. Para minha grata surpresa, prego em prato era tão-somente um filezão em estado hemorrágico, cercado de batata frita por todos os lados. Algo como um paraíso comestível. Deixei os rojões (iscas de porco com alguma gordura, acompanhadas de arroz e batata) e a alheira (uma espécie de chouriço com carne de aves) para uma próxima oportunidade. Bem acompanhado pela boa cerveja local Super Bock (a Sagres também é ótima), matei quem estava me matando.

Nós, o G7 (G8, quando meu sobrinho Danilo participa da farra), viajamos juntos há cerca de 12 anos, talvez um pouco mais. Aprendemos que, para conhecer de fato os locais visitados, é necessário bater perna, explorar cada rua e beco. Às vezes somos brindados com uma paisagem ou detalhe pitoresco que se perderia se estivéssemos dentro de um ônibus ou trem/metrô. Também aproveitamos para experimentar as iguarias e bebidinhas locais (chamar os vinhos portugueses de 'bebidinhas' é sacrilégio, eu sei). Ao fim do dia estamos extenuados mas felizes, principalmente por ter podido registrar imagens como estas:


Diz-se no meio futebolístico que a bola procura os craques. Talvez
isto valha para a literatura, já que Simone achou o Largo Amor de
Perdição pelo faro. A obra é do português Camilo Castelo Branco.


Na foto, casario muito antigo às margens do Rio Douro


Na foto, placa indicativa de que naquela casa havia nascido o poeta inconfidente Tomás Antonio Gonzaga

Pois é, não esperávamos surpresa tão boa e bem a propósito, já que o romance mais recente publicado por minha cunhada Simone é ambientado na então Vila Rica, e narra a história do personagem Hélio, que era, como o título diz, o aprendiz de Tiradentes. A placa na casa foi a primeira das muitas demonstrações de que o povo português ama e preserva sua cultura e sua história.

Capa do livro de Simone

E tome caminhada e passeios de ônibus pela cidade, muito bonita e cheia de atrativos. Das muitas igrejas, me chamou a atenção a Torre dos Clérigos, com seus 75 metros, cujo aspecto externo engana a quem acha que seu interior é pequeno.


Na foto Simone e Diogo e, ao fundo, a Torre dos Clérigos


Interior da Igreja dos Clérigos

O momento de pegar estrada se avizinhava e ainda não tínhamos feito a vontade da garotada. Já sabíamos que não seria possível a visita à sede do F. C. do Porto (o time estava viajando), mas fomos ao Estádio do Dragão:


O molecão, todo serelepe, num trecho da imensidão que é o estádio




As duas fotos acima foram feitas dentro da loja do F.C. do Porto. Tínhamos que comprar
uma 'camisola' de lembrança, né?

Muito mais havia - e há - para falar e mostrar da cidade do Porto, mas o espaço do blog está no fim. No dia seguinte ao da visita ao estádio pegamos estrada rumo ao sul.

Prometo não enrolar tanto para contar como foi.


Escrito por Rogério Veloso às 00h49
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