Blog do Negão

18/02/2013

VASECADO

Eu sou meio que desapegado das coisas, minha lista de ciúmes é bem pequena. Minha Eliana, meus filhos, minha Ninja linda, acho que são as paixões que mais me despertam esse sentimento impuro, coisa digna dos 'cães infiéis' na visão da galera da Al Qaeda.

Mas tem uma coisa - aliás, duas - que sempre me tiram do sério quando ameaçadas: em que pese eu não ser galinha, morro de ciúmes dos meus ovos. Pela fragilidade e delicadeza (quem tem sabe o quando dói uma pancadinha, por menor que seja), acho que a natureza errou feio ao não equipar os machos de uma couraça protetora ali, naquele ponto equidistante entre o Atlântico e o Pacífico.

A vida, porém, às vezes nos leva a fazer concessões. Eliana precisa fazer um tratamento meio doido de pele que, por um motivo ainda mais doido e por mim não compreendido, não pode rolar gravidez no período. Aí, entramos num acordo: já que não pretendemos mais ter filhos e uma esterilização para ela seria algo extremamente invasivo e com pós-operatório complicado, procurei meu urologista de estimação e marquei uma vasectomia.

Cheguei no consultório do Dr. Sérgio cismadão, porque alguém tinha me falado que o procedimento utiliza anestesia local. Se uma bolada já é uma coisa terrível, uma agulha seria algo bem próximo do inferno. A princípio a cirurgia seria custeada pelo meu plano de saúde, então tive que preencher alguns formulários em que afirmo que o procedimento será feito por minha livre e espontânea vontade, blá blá blá. Alguns dias depois fui informado pelo médico que o procedimento só poderia ser feito na modalidade 'particular'. Logo imaginei que o plano de saúde estava pagando uma merreca. Liguei lá e perguntei quanto pagavam pela vasectomia. O carinha que me atendeu perguntou "unilateral ou bilateral?" e eu fiquei atônito. Será que alguém faz meia vasectomia ou ele achou que eu era monobola? Aí fui informado que o plano pagava R$ 100,00 per capita (ou em bom latim, per bulla). Pensa: o cara estuda durante sei lá quantos anos para se formar médico, depois faz residência, especializações, e na hora de ser remunerado por um procedimento cirúrgico - que, como toda cirurgia, inclui riscos -, é oferecido o equivalente a uma despesa de rodízio com a família, 10% incluídos. Topei pagar os R$ 1.600,00 cobrados.

Por se tratar de uma cirurgia simples, o procedimento seria feito em ambulatório. No dia marcado cheguei com a antecedência pedida, fiz os chequinhos (um para o médico e outro para o anestesista) e logo fui chamado. Dr. Sérgio me apresentou o anestesista, fizemos algumas piadas, ele explicou que me botaria para dormir antes das agulhadas fatais, vesti aquele camisolão ridículo, que deixa a bunda de fora (alguém pode me explicar o porquê daquilo?) e me deitei com as vítimas para cima na maca cirúrgica.

O anestesista me aplicou uma intravenosa e em poucos segundos eu estava nos braços de morfeu. Acordei com a cirurgia ainda rolando, o ambiente estava tomado por uma risaiada desenfreada. O anestesista é um sacana inveterado, e estava oferecendo meu bilau para a enfermeira. Eu ainda estava grogue, mas notei uma pessoa estranha àquela turma que estava comigo até eu apagar. Vestido de médico, mais parecia um totem. Olhei para a figura, depois perguntei ao anestesista: o que foi que você me aplicou? Quem é esse ciclope de dois olhos?

O cara riu e me disse que era neurologista. Estava ali porque precisava da ajuda do Dr. Sérgio assim que ele terminasse o procedimento, e foi convidado a entrar e acompanhar a cirurgia. Disse também que mede 2,02m, mas não joga basquete. Boa praça, apesar de corinthiano.

Terminada a cirurgia, a enfermeira botou um esparadrapo sobre os pontos. Meu saco ficou parecendo uma placa de trânsito indicativa de alfândega. Fui orientado a retornar lá no dia seguinte, para verificação do curativo, voltei pra casa ainda grogue tendo Eliana como motorista, mas acabei não dormindo, como achei que deveria e merecia. Achei que seria mais produtivo terminar de ler um livro da Martha Medeiros que iniciei há um tempão e nunca arranjo tempo (aposentado sofre).

Meu retorno à clínica só serviu para a retirada do esparadrapo e as recomendações de praxe: três dias sem beber, cinco sem andar de moto e quinze sem o direito de reclamar de carência. Se sentisse dor - e doeu bagarái - eu estava liberado para tomar um analgésico. O resto se resolveria com o tempo.

Analisando a área, acabei concluindo que o Dr. Sérgio é um médico de catiguria, cirurgião de responsa, mas desconfio que andou matando algumas aulas de corte e costura.


Escrito por Rogério Veloso às 11h25
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13/02/2013

ZERO-UM PEDIU PRA SAIR!

Não que isto vá afetar minha vida, para o bem ou para o mal, mas essa roída de corda do papa foi muito estranha, e deixa no ar a desconfiança de que tem coisas inconfessáveis nos corredores. Há quem acredite nas versões do cansaço, idade e sei lá o que mais. Tudo bem, respeito.

É claro que vai prevalecer a versão oficial, assim como prevaleceu aquela sobre a estranha e súbita morte de João Paulo I, alguns poucos dias depois que ele, em discurso, criticou a desnecessária riqueza do Vaticano e lembrou aos presentes que o mundo estava passando fome (não permitiram autópsia). Foi também nesse período, 1978, que a Caixa Ecumênica Federal, mais conhecida como Banco do Vaticano, perdeu 250 milhões de dólares em decorrência de ações fraudulentas praticadas pela galera da batina, juntamente com os mafiosos do Banco Ambrosiano. Teorias da conspiração afirmam que o 'Papa Sorriso' estaria disposto a passar aquela história a limpo, o que teria sido sua sentença de morte.

Já o Ratzinger, bora combinar, era de uma incompetência federal e entregou para os islâmicos e protestantes boa parte da clientela, por conta das posições ultra-direitistas adotadas. Condenou e desautorizou o casamento entre pessoas do mesmo sexo, proibiu o batismo de crianças adotadas por casais homossexuais (culpa por osmose, coisas da igreja), manteve e reforçou as premissas do Opus Dei, que sempre considerou a Teologia da Libertação uma grande audácia do Boff, ordenou que as pesquisas científicas com celulas-tronco fossem 'excomungadas'. Os chamados fiéis foram saindo de fininho, até que se notou o rombo na arquibancada.

Comentei recentemente com duas amigas, que pagaria caro para assistir a seu discurso, na África subsaariana, frente a centenas de milhares de infectados pelo vírus HIV, em que reafirmou a posição da igreja católica no sentido de que o uso de preservativos era pecado e, por consequência, proibido. O que mais me impressionou nisso tudo foi o fato de ele ter saído de lá ileso. Não levou nem meio cascudo.

Bem, como disse, a saída daquela nulidade da cara ruim (o olhar dele é igualzinho ao do Gargamel) em nada vai afetar minha vida, nem vai servir para estancar a sangria de fiéis. Quiçá os detalhes do ocorrido tenham alguma relação com um certo Tarcisio Bertone. Mas isto jamais será encontrado sequer no Google.

A merda é que as alternativas à tal sangria atendem por Macedo, Waldomiro, R.R. Soares e outros mercadores da fé, que viraram praga por aqui.

Na dúvida, continuo deísta.


Escrito por Rogério Veloso às 15h44
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04/02/2013

LEI SECA E MÃO MOLHADA

Não sou formado em Direito, mas meu trabalho me levou a ter alguma intimidade com a matéria, a ponto de ter uma vaga idéia do que seja segurança jurídica. Segundo o Professor Fabrício Andrade, "(...) A segurança jurídica é um direito fundamental do cidadão. Implica normalidade, estabilidade, proteção contra alterações bruscas numa realidade fático-jurídica. Significa a adoção pelo estado de comportamentos coerentes, estáveis, não contraditórios. É também, portanto, respeito a realidades consolidadas. Onde está a previsão constitucional da segurança jurídica? No art. 5º, XXXVI, CF - "a lei não prejudicará o direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada". Matou, né?

Pois bom: estou tocando nesse assunto para falar sobre a tal Lei Seca. Antes que apareça algum xiita rabugento, é bom esclarecer que sou a favor da lei e até gostaria de ver o Aécio sendo algemado. Quando saio com a família para almoçar ou jantar fora, ou mesmo quando vamos a alguma festa e resolvo bebericar um chope, minha Eliana assume as funções de primeiro piloto e voltamos para casa a salvo. A questão é que esse 'a salvo' significa livre de eu ser tratado como bandido, porque cometi a suprema heresia de tomar um chope ou uma taça de vinho. Claro que quem encharca o esqueleto tem mais é que andar de taxi ou passar o volante para alguém que não tenha bebido, mas autuar alguém por ter feito um bochecho com cepacol já é um chute na inteligência de qualquer um.

Como a lei seca tinha pouca eficácia, e passou a ter ainda menos depois que o STJ decretou que só valem como prova de embriaguês o resultado do bafômetro ou exame de sangue, criou-se a versão 2.0, ocasião em que foi aumentado o leque de possibilidades, feito rabo de pavão, para enquadrar os elementos. Aí é que mora o perigo: inverteu-se o ônus da prova e o bafômetro/exame de sangue passaram a ser alternativas para o cabra provar que não está mamado. In dubio, pro PM. Isto porque passaram a ser consideradas provas suficientes o testemunho de terceiros (quem?) e registros do próprio agente policial, que é instruído a observar detalhes quanto ao comportamento do condutor: se demonstrar agressividade, arrogância, exaltação, ironia, dispersão, tá mamado e pronto.

Mas, pera aí: agressivo, arrogante, exaltado, irônico... estão falando do condutor ou do PM da blitz?

Bocas de Matildes dizem que a diminuição do teor alcoólico na nova redação da lei coloca no mesmo balaio quem tomou uma cerveja e quem chupou uma balinha contendo licor. Seria cômico. Seria.

A justificativa é a velha de sempre: a segurança do cidadão. O ABS (Anti-lock Break System) foi desenvolvido na década de 1970, e já nessa época a Ford e a GM (lá nos States, of course) implementaram esse recurso em seus veículos, o mesmo ocorrendo com o bom e velho airbag. Esses itens de segurança são obrigatórios por lei desde 1995 nos EUA e desde 1998 na União Européia. Não é estranho que essas mesmas montadoras estejam em solo tupiniquim há mais tempo do que eu e nunca, jamais, em tempo algum seus veículos nos foram oferecidos contendo esses itens importantíssimos de segurança? Não é ainda mais estranho que, mesmo sem isto os veículos que compramos são de longe os mais caros do mundo? Onde estavam esses caras que hoje querem nos proteger multando? Somente em 2014 haverá a obrigatoriedade de inclusão de airbag e ABS, e é bom destacar o excelente trabalho do Senado brasileiro, hoje presidido pelo grande patriota Renan Canalheiros, que demorou quase 10 anos para aprovar o Projeto de Lei do próprio Senado, que leva o nº 115, e é de 2004.

A preocupação das autoridades com minha segurança nas estradas é algo que me emociona. Tanto é que, da última vez que enfrentamos a estrada entre Goiânia e Anápolis, pedi a Eliana que fotografasse a belíssima paisagem que se desenhava a cada curva, extasiando quem nela trafega (te cuida, Pessoa!). O resultado é esse aí, ó: 


Fiquei apaixonado por esse matagal, que cobria boa parte das placas de sinalização


Essa coisa cheia de rachaduras aí é o que chamam acostamento. Deu pra notar que está brotando grama?


Quem não conhece acha que estamos ao lado de um morro. É apenas mato. Se algum dia resolverem aparar, eu mostro.

Assim que se chega ao perímetro urbano de Goiânia, a rodovia passa a ser ornamentada por simpáticos postes de luz, num trecho que deve ter cerca de 10 quilômetros, talvez mais. Há pelo menos dois anos passo por lá à noite e não há uma única lâmpada funcionando. Estou começando a desconfiar que esse papo de segurança do cidadão é conver$a.

Já que estamos falando de segurança, lembrei-me da última vez em que fui renovar minha carteira de motorista. Como se sabe, o principal é pagar as taxas e só depois é que os idiotas são encaminhados para o que parece ser um consultório, onde atende um senhor que parece ser um médico. Cheguei lá, cumprimentei o cidadão, ele me perguntou se eu estava me sentindo bem, eu respondi que sim, e ele me entregou o que parecia ser um laudo médico, me solicitando que repassasse ao atendente que me entregou a guia de recolhimento da taxa. ELE NÃO TOCOU EM MIM, nem no momento em que nos cumprimentamos, não me examinou, mas no tal laudo constava minha pressão (13 x 8, fiquei puto porque o normal é 12 x 7), meu ritmo cardíaco e a informação de que eu não só estava vivo, mas feliz e lindo.

Já vai fazer um mês que o zelador do meu prédio está de licença médica. Estava de moto, com a esposa na garupa, parado no sinal vermelho. De repente surge uma tresloucada que por algum motivo não parou e seguiu empurrando a moto a 10 km por hora. A esposa do Carlos conseguiu pular da moto, mas ele foi para o chão e a doida do carro só sabia berrar em desespero, parece que foi necessário que outra pessoa entrasse no carro e pisasse no freio. Algumas costelas e clavícula quebradas.

Seria bom se a gente pudesse fazer um acordo com essa gente, tipo "nós vamos continuar pagando impostos, aceitamos todas as imposições dessa lei (filosoficamente necessária, mas idiota na forma), aceitamos os sensores de velocidade a cada quilômetro. Por outro lado, os senhores vão parar de prevaricar e cuidar da manutenção das rodovias, seja na roçagem, iluminação e qualidade do asfalto, não vão mais permitir que buracos façam aniversário nas ruas da cidade, vão cuidar da limpeza urbana e iluminação pública, os Detrans vão entregar CNH só e exclusivamente para quem demonstrar que tem capacidade para dirigir, o que significa senso de direção, deslocamento, conhecimento das leis, sinais e placas de trânsito, com um carinho especial para o quesito 'controle emocional'. Também vão colocar profissionais responsáveis para avaliar a capacidade de continuar dirigindo de quem procura o órgão responsável para renovar sua licença. Ah, e se sobrar um tempinho, vão parar de roubar".

Acho que não estou pedindo demais. O fato é que me incomoda muito esse simplismo que é vendido (e, infelizmente, comprado pelos incautos) no sentido de que, no trânsito, só o que mata é bebedeira e velocidade. Enquanto prevalecer essa verdade artificialmente cristalizada pela repetição, os gestores públicos estarão liberados para tocar alegremente a indústria da multa e, pior, isentos de nos explicar por que nossas estradas contêm tantos buracos, por que algumas não possuem acostamento, por que somente uma minoria é duplicada enquanto construímos estádios, por que negligenciam tanto com a manutenção das rodovias e vias públicas e por que entregam carteira de habilitação para quem não demonstra condições mínimas sequer para cuidar de um jabuti.


Escrito por Rogério Veloso às 13h32
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BRASIL, Centro-Oeste, GOIANIA, JARDIM GOIAS, Homem, de 46 a 55 anos, Portuguese, English, Arte e cultura, Música, Motos e Carrões







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