Blog do Negão

29/11/2012

ORGULHO DA CRIA

As duas últimas semanas foram especialmente pesadas para o Lucas, principalmente semana passada. Prova todo dia pelo quarto bimestre, exame de faixas do karatê e participação no festival de futebol de que falei aqui, no post anterior. Tudo junto e misturado.

Lucas já obteve aprovação no colégio desde o terceiro bimestre, mas não para nem pode parar até que o ano letivo termine. O problema foi conciliar as outras atividades, cujos calendários em determinados pontos colidiram. Então, decidimos: o karatê era prioritário porque não admitia reserva. Isto redundou na ausência dele na partida do sub-9 contra o Goiás. Tudo bem.

Apesar dos brucutus do lado de lá, o sub-9A conseguiu o feito histórico de ir à final, ocorrida no sábado, dia 24. Na véspera houve o exame do karatê:

 
O filme mostra Lucas e seus colegas de academia realizando os movimentos exigidos pela prova

A prova prática consiste na realização de uma sequência de movimentos denominados katá (disseram que é assim que se escreve), numa simulação de luta combinando ataque e defesa. As aulas incluem a filosofia do karatê, que traz em si o paradoxo da não-violência. Eu acho o karatê muito legal, e faço votos que meu filho siga adiante.


Na foto, Lucas ao centro com o diploma conferido, a faixa vermelha, o pai babão de um lado e a mãe babona de outro.

O futebol no sábado foi o fechamento de um ciclo e, admito, fiquei aliviado quando acabou. O que eu temia acabou acontecendo, quando o time do Lucas entrou na quadra para disputar a final: o técnico adversário mais uma vez pisou no tomate e escalou garotos mais velhos, para garantir o troféu. Meu sangue outrora infectado subiu à cabeça e abusei da contundência ao protestar. De imediato o adepto da lei de Gerson recolheu o trem de pouso, colocou o time correto na quadra, o jogo terminou empatado e a decisão foi para os pênaltis. Lucas e eu sabíamos da possibilidade de haver pênaltis e no dia anterior treinamos à exaustão na quadra de casa. Quem me vê treinando o moleque acha que eu não gosto dele, mas ele reclama quando eu só chuto bola colocada. O cara é foda.

Bão, rolou pênalti e eu não filmei tudo, acabei me atrapalhando e perdi as duas primeiras cobranças. Mas dou o resumo: um gol pra cada lado. O resto vocês veem aí:

 
O filme mostra o Lucas fazendo duas defesas e garantindo o título. O Galvão Bueno gritando "Ah, moleque" e fazendo comentários cretinos sou eu.

Logo no primeiro dia de jogos Eliana e eu resolvemos que Lucas não mais participaria de torneios naqueles termos, sem controles, sem comprovação de idade, além de eu duvidar muito que a arbitragem seja federada. No dia do jogo tive a certeza de que seria a melhor decisão, depois que uma mãe me abordou - com educação, mas demonstrando estar ofendida - dizendo que tamanho não era documento, que meu protesto tinha forçado a exclusão de seu filho da partida e que me mostraria a certidão de nascimento dele. Duvidei que ele fosse de fato sub-9 e que a mãe me traria algum documento comprovando isso (se estava de fato dentro do regulamento, por que o técnico o sacaria do time?), mas me chateou viver momentos de uma quase animosidade com uma pessoa que sequer conhecia.


Escrito por Rogério Veloso às 11h11
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21/11/2012

VALORES

Acho que, além da educação que tive a felicidade de receber de meus pais, o tempo e minha profissão serviram para aguçar essa fonte de sofrimento que sempre me acomete: não suporto desonestidade. Isto vale em qualquer campo, até em jogo de palitinho, daí o sofrimento. É claro que tem também seus bons momentos, e o melhor deles está ocorrendo agora, com a orgásmica dosimetria a cargo do STF.

Acabo de chegar em casa. Tiririca. Como ocorre pelo menos uma vez por ano, meu filho Lucas participa de um festival de futebol, que divide as crianças em categorias por faixa etária. Lucas é goleiro e está na sub-9. Por solicitação do treinador, aceitou atuar também na sub-11, como reserva, o que me deixou meio assustado mas não quis interferir.

Aí é que entra o problema: é nítido que alguns componentes dos times adversários (colégio x colégio) estão acima daquele limite estabelecido de idade. Não é admissível a cara de pau dos treinadores, que sustentam que aquele monte de cavalões tem a mesma idade de meu filho, e isto ocorre há pelos menos dois anos. No final de 2011, Luquinha estava no sub-8, o time dele levou uma goleada cujo responsável foi um único jogador adversário. Ou era filho do Schwarzenegger, ou não tinha somente oito anos. Depois do jogo, como havia a final, o garoto estava sentado na arquibancada aguardando. Cheguei como quem não quer nada, chamei-o pelo nome e perguntei quando ele faria 10 anos. Inocente como toda criança, me disse que já havia completado em novembro.

Terminados os jogos, chamei seu treinador para uma conversa. Soube que era o professor de educação física da escola. Perguntei, então, o que esperava de seus alunos no futuro, uma vez que estava fomentando neles uma prática que fere de morte valores como ética e honestidade. Ele se fez de desentendido, e eu tive que lembrá-lo de sua responsabilidade na formação moral de seus alunos, crianças que ainda nem entraram na adolescência. Como agirão na vida, com um professor ensinando que o que vale é a vitória a qualquer custo, mesmo a custa de mentiras? 

Estivemos hoje no ginásio do Goiás Esporte Clube, muito bonito, enorme. As dimensões oficiais da quadra meio que assustaram a molecada que não estava acostumada. Lucas participou do jogo do sub-11, amanhã estréia no sub-9 e já deu para perceber que a história vai se repetir. Lucas acabou jogando uma parte do segundo tempo, provavelmente foi uma tentativa do professor de familiarizá-lo com a quadra. O time dele perdeu de goleada.

Aqui em casa temos um ritual na hora do moleque ir para a cama. Eu o cubro de beijos, dou boa noite, ele reza com a mãe o 'Santo Anjo' e a luz é apagada. Hoje foi um pouco diferente: antes do ritual ele me perguntou se eu estava decepcionado com ele. Disse que estaria se ele tivesse agido com desonestidade ou sem seriedade, e que, na verdade, estava explodindo de orgulho por vê-lo atuar tão bem (e não vai aqui nenhuma corujice de pai, o carinha é bom mesmo). Finalizei dizendo que ganhar e perder fazem parte do jogo, e que o mais importante é que, ao sair de campo ou da quadra, a gente tenha a certeza de que atuou com dignidade. Pelo comportamento dele em casa e na escola, percebemos que estamos no bom caminho na tarefa de educar nosso rebento.


Escrito por Rogério Veloso às 23h14
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12/11/2012

COGITO, ERGO PATIOR

Tá na Época desta semana, edição 756, mais precisamente na página 41 que traz a coluna de Felipe Patury, uma notícia que consegue ser preocupante e repugnante ao mesmo tempo. O título é "Uma bolada na Previdência", e trata da dívida dos clubes de futebol para com o INSS.

Pelo menos nisso meu Botafogo é campeão, seguido de perto por Flamengo e Fluminense, que fecham o pódium. Só o Fogão deve R$ 300 milhões, imaginem o tamanho do rombo até chegar no Ibis.

Mas não há males que sempre durem (no Brasil há malas que sempre duram), e a sugestão de solução partiu dos gabinetes da CBF, em conjunto com uma certa Confederação Brasileira de Clubes - que eu nem imaginava existir, deve ser uma reedição daquele conglomerado de Marcolas, digo, cartolas, que levava a alcunha de Clube dos 13, só que hipertrofiado por representar, segundo a reportagem, 13 mil pequenas entidades. A 'solução' é tão simples que me fez sentir um grande palerma por não ter pensado nisso antes: perdoe-se a dívida. Pronto, simples assim! Em troca - e é lógico que os cartolas, mais uma vez, vão mostrar que são pessoas honradas e cumprirão com sua parte - darão bolsas de formação a atletas.

Lindo, né? Nem o Nuzman seria capaz de uma tungada tão espetacular. Pensa, galera: se só o Botafogo deve $ 300 mi, imagina a soma de todos os clubes devedores, lembrando que todos os clubes são devedores. Nada que uma bolsa de formação de atletas, seja lá o que isso for, não resolva. Engañame, que a mi me gusta. A propósito, a mesma reportagem diz que o rombo representado pela dívida dos clubes de futebol supera os R$ 4 bilhões.

Bom, saiamos um pouco do mundo das idéias e bora viajar para o mundo real. Eu até nem queria voltar para a agência da Previdência Social onde travei verdadeira batalha para conseguir minha aposentadoria, mas será por uma boa causa: só para lembrar que lá constatei que os servidores não dispunham de caneta para trabalhar (compravam na papelaria, arcando com os custos), e que uma servidora teve que comprar a própria cadeira, porque a que usava se quebrou e não havia outra para reposição. Ah, também não podemos esquecer que nem todos os terminais de atendimento podiam permanecer ativos, porque o maquinário de suporte da Previdência Social (no mundo da computação são chamados de servidores) não possui capacidade para atender à demanda. Muito legal isso: existem na agência 15 computadores para atender os pobres diabos que procuram a Previdência Social, mas os 15 não conseguem conexão simultânea porque o servidor não tem capacidade suficiente para suportá-la. Equivale a usar uma bateria de 30 ampères num carro equipado com trio elétrico, sensor de ré, DVD, sirene e um sonzão de 10.000 watts, caixa de graves incluída.

Outro pequeno probleminha: falta gente para trabalhar. No momento em que constatei erros em meus dados cadastrais, agendei para dali a um tempinho a solicitação de conserto, ocasião em que compareci com cópias de todos os documentos exigidos. Na prática, era coisa para duas ou três digitações, mas demorou 13 meses. Má vontade da rapaziada? Não! O problema é que minha demanda era apenas mais uma dentre dezenas de milhares que estavam estocadas, à espera de um milagre.

Durante 36 anos e um mês contribuí com o INSS na qualidade de trabalhador formal. Pelo menos nos últimos 30 anos contribuí pelo teto que, hoje, beira R$ 4 mil, o que permitiria aos incautos, portadores de senso de justiça e demais bobões deduzir que eu me aposentaria recebendo os mesmos R$ 4 mil. Recebo exatos R$ 2.097,00 (tá, não é isso tudo porque o imposto de renda dá uma mordidinha), porque tem um tal Fator Previdenciário que só me permitiria receber integralmente meus proventos se eu aceitasse me aposentar somente quando não tivesse mais forças para respirar sozinho. Isto porque, diz o governo, é preciso combater o "déficit da Previdência".

Considerando todos esse problemas, dá para deduzir algumas coisas:

a) a Previdência Social precisa de dinheiro para investir na contratação e treinamento de pessoal.
b) a Previdência Social precisa de dinheiro para dar condições materiais de trabalho a seu pessoal.

c) a Previdência Social precisa de dinheiro para investir em melhorias, que ontem já eram urgentes, em sistemas computacionais.
d) a Previdência Social precisa de mais receita para que não se fale mais em déficit.

e) 
a Previdência Social historicamente possui gestores de merda, uma parte dada a falcatruas.

Talvez seja o caso de dizer o que não foi dito, quiçá por esquecimento, sei lá: os valores devidos à Previdência Social decorrentes de salários são descontados em folha, ou seja, previamente destacados para posterior recolhimento aos cofres do INSS por meio de guia de recolhimento própria. Isto significa que, se meu empregador descontou a parcela da previdência do meu salário e não fez o recolhimento, cometeu apropriação indébita, também conhecida como roubo. Os cartolas roubaram ao longo do tempo quatro bilhões de reais, e agora querem o perdão da dívida em troca de migalhas que, duvido, serão dadas a atletas.

Esse bando de lazarentos prega o perdão de uma dívida bilionária, nascida do crime.

Enquanto isso, os problemas que relatei lá em cima perduram. O caso é grave, porque o perdão da dívida não é somente mais uma idéia de jerico do Sr. José Maria Marin, atual presidente da CBF, de cujo currículo, dentre outras maravilhas, figura um mandato de vice-governador de São Paulo na gestão de um tal de Paulo Maluf. Está em curso uma campanha, meio que debaixo dos panos, para alcançar esse objetivo abjeto, indecente, nojento. Segundo a reportagem, há um grupo coordenado pelo deputado Vicente Cândido (PT-SP), que estuda o custo de cada bolsa e os prazos para que os débitos sejam quitados. Ou seja, pela redação da reportagem, o perdão são favas contadas.

(O título do post é uma brincadeira com René Descartes (1596 - 1650), que cunhou a célebre "Cogito, ergo sum", ou "penso, logo existo". Na pequena adaptação que fiz, a tradução mudou para "penso, logo sofro".)


Escrito por Rogério Veloso às 08h15
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05/11/2012

NO AQUÉM DO ALÉM

Desde a mais tenra idade (vê lá se isso é jeito de começar uma crônica...), eu tinha a fama de ser o menino 'bonzinho', o bem comportado, o exemplo a ser seguido. Boa parte desse título honorífico devo ao meu irmão mais velho, já falecido, que era pra lá de atentado, o retrato mais bem acabado do cão chupando manga. Às vezes até quando era eu quem aprontava ele levava a culpa, já que a folha corrida dele no bairro era coisa de DOI-CODI. E eu, o santo, deixava que o cara se ferrasse, afinal ele já estava acostumado com os castigos que sempre dava um jeito de burlar. Na hora de apanhar, corria; se a pena era ficar sem ver TV, era só ir até a casa do vizinho na hora do Picapau. Minha mãe nunca deu conta de segurá-lo em casa.

A única coisa que eu tinha de realmente decente era a dedicação aos estudos. Ele, não. Então, quando rolavam os boletins, lá vinha a velha ladainha que também me dava nos nervos. Meus pais são de uma geração que não tinha conhecimentos sobre a alma humana, consequentemente não faziam idéia do quanto era prejudicial ao meu irmão (e o quanto me enchia o saco) essa comparação sistemática entre nós dois.

Meu irmão era pouco menos de um ano mais velho do que eu, jogávamos futebol juntos, brigávamos na rua juntos, nadávamos no rio juntos. Só que ele era o encapetado e eu o santo. Tínhamos lá nossas diferenças, eu era mais quietão, na minha, ele sempre atrás de encrenca e algo mais radical. Também me sacaneava adoidado e, na falta de algo mais divertido para fazer, me batia.

Na adolescência continuei com aquele estigma de cabra bom, apesar de aprontar todas e vez por outra tomar um porre. Namorava uma garota pra lá de doida, cujo apelido, derivado de seus cabelos ruivos e da, digamos, disponibilidade para um entrevero de ordem sexual, era foguinho. Foguinho era fogo, e acho que só não era brochante porque não existe nada brochante para um adolescente com o depósito de hormônios em vias de vazar. O problema é que ela inverteu a ordem das coisas e eu achava esquisito. Era comum os amigos chegarem com aquele papo 'adivinhem quem eu tô pegando'. A danada espalhou na vizinhança toda:

- Tô comendo o Rogério.

Acho que foi por isso que durou poucos meses: ela me tirou o que havia de mais precioso na vida adolescente da época, que era a suprema canalhice machista de contar para os amigos as aventuras de alcova, dando até o CPF da presa abatida. Meus amigos todos se divertiam nos contando (e aumentando, claro) suas conquistas, mas a Foguinho cortava meu barato e - pior - contava pra galera toda exatamente como aconteceu, demonstrando total falta de imaginação. Teve uma vez que nos aventuramos no carro do pai dela, na garagem de casa, o velho vendo novela na sala logo ali. Um sufoco dos diabos, se o milico (era sargento do exército) nos flagrasse talvez me desse um tiro. No dia seguinte, quando encontrei a turma para contar a aventura, eis que...

- Pois é, bicho, a Foguinho já contou pra gente. Transa doida, hein, cara, nas barbas do sarja!

Alguns dias depois estávamos juntos na rua quando começou a chuva, que logo virou temporal. Já estávamos encharcados, mesmo, ficamos brincando nas enxurradas, aquela água misturada com a terra vermelha de Brasília. Rolávamos naquela água suja beijando na boca, parecíamos um quebra-molas ambulante. Essa brincadeira do carinha sangue bom, modelo de comportamento, etc, etc, saiu caro.

Primeiro foi o mal-estar, aquela vontade de não fazer nada, e em seguida veio a febre. Logo de cara já beirou os 40 graus e meu pai me levou até o Hospital de Base de Brasília (também conhecido como 'Te cuida, Tancredo!'). Chegamos à área destinada ao atendimento de consultas, esperamos, esperamos, até que meu pai obteve a informação de que só havia (aliás, haveria, porque ainda não tinha chegado) um médico atendendo. Na minha frente, umas 50 ou 60 pessoas. Olhei para o velho e disse que não queria esperar. A febre não me tirava só a fome e a disposição física; a paciência também tinha subido no telhado.

Era fim de ano e estávamos com viagem de férias marcada para São Paulo, onde passaríamos o Réveillon com meus tios e primos. Resolvemos, então, fazer a consulta em Sampa, já que meu pai trabalhava para o Estado e eu seria atendido no Hospital do Servidor Público. Fomos de fusca, 1000 km de estrada.

Chegamos na paulicéia dia 21 de dezembro e fomos direto para o hospital. Como minha febre estava bastante alta, tomei uma injeção de novalgina, aliás uma delícia, colheram sangue e uma meleca da garganta. Conforme as instruções, retornamos ao hospital dia 27 e por lá mesmo fiquei. Fui encaminhado diretamente para o 15o. andar, área de isolamento especialmente destinada aos sortudos contemplados com doenças infecto-contagiosas. Meu diagnóstico: febre tifóide. O nome é praticamente uma sentença e, de fato, quase mifóide.

Minha rotina diária era ficar à toa, trancada num apartamento de hospital cuja porta tem um visor quadrado de vidro. Eu estava terminantemente proibido de sair dali. Só me lembro do nome da médica porque ela era bonitona: Dra. Heloisa. Muito simpática, também, e me contou tudo sobre a doença e as formas possíveis de contágio. Quando soube da enxurrada, não conseguiu conter o riso. Desde o início eu sabia que tinha contraído uma doença bacteriana causada por um bichinho chamado Salmonella enterica typhi - lindo, né? - e que era grave.

A porta só não foi trancada porque regularmente eu recebia a visita de uma enfermeira munida de uma seringa, para minha alegria. Mas a pior delas era a das cinco da manhã. Pensa num mix de voz, algo como a junção de Maria Alcina com Angela Ro-Rô, que já me acordava com seu andar rápido, resoluto e barulhento (acho que usava salto) e entrava no apartamento sem frear na curva, no embalo que estava no corredor. Para me despertar de vez, falava delicadamente: ROGÉRIO, BOM DIA! Eu sempre me lembrava do sargentão, pai da Foguinho, quando a enfermeira entrava no quarto. É lógico que a injeção dela era a mais dolorida.

Acho que meu tratamento não obteve muito sucesso na primeira semana, porque fui examinado por diversos médicos, em alguns dias mais de uma vez, e ainda me levaram para fazer uma série de exames de imagem. Eu me sentia a cada dia mais fraco. Naquele período, se a Luiza Brunet me dissesse 'vem cá, meu bem', acho que choraria copiosamente.

Havia uma enfermeira que me fornecia jornais, livros e revistas. Costumava chegar logo após o almoço. Naquele dia não consegui almoçar e estava zanzando pelo quarto quando ela chegou. É a última coisa de que me lembro, porque só fui acordar três dias depois. Não sei se cheguei a ser levado para a UTI, mas acordei no mesmo quarto onde estava.

Nesse período de inatividade corporal a mente continuou ativa mas com um comportamento absolutamente doido. A não ser que alguém aí ache normal bater um papo com a rainha da Inglaterra, rasgando um inglês que nem sabia que dominava. Ela me disse que eu tinha sotaque de irlandês, e eu dando esporro na véia. Vez por outra encontrava um amigo de Brasília, invariavelmente com cara de sono, e colocávamos os assuntos em dia. 

É lógico que perdi qualquer noção temporal e espacial naquele estado. Parecia que o tempo ia longe, e de repente as imagens começaram a perder cor e nitidez, sendo dominadas por um branco que - desconfio - nem o Omo consegue. Tudo branco, silêncio absoluto, sentimento de paz igualmente absoluto, eu me vi deitado na cama com pés e mãos atados à grade, uma visão do ponto de vista do teto. Depois não mais me vi e sentia meio que flutuando. Aos poucos fui readquirindo alguma nitidez naquilo que achava estar enxergando, e percebi paredes e teto, como se estivesse em um túnel. Lá na frente uma luz bem fraquinha.

Talvez caminhar não seja bem o termo, mas me movimentei em direção à luz, movido pela curiosidade. Vez por outra ouvia um ruído, um sussurro, mas não consegui identificar de onde vinha nem compreender o que era sussurrado. Súbito, resolvi que não queria mais seguir adiante e dei meia volta. Minhas recordações param por aí.

Quando acordei estava cercado de gente de branco, Dra. Heloisa com a mão espalmada em minha testa, braços e pernas amarrados nas grades da cama, exatamente como me vi. Perguntei: qual de vocês é São Pedro?

A doutora me falou que fiquei apagadaço durante cerca de 60 horas, e que tiveram que fazer uso de medicamentos fortes para conter minha agitação. Eu tive uma hemorragia interna muito braba e recebi reposição de sangue por via intravenosa. Olha a hepatite C aí, gente!

Durante 16 dias estive hospedado no 15o. andar do Hospital do Servidor Público de São Paulo, de 27 de dezembro de 1979 a 11 de janeiro de 1980. Esculachei o réveillon da família toda. Aliás, mesmo nos dias em que estive fora de sintonia, meus pais me visitaram. Quem conhece São Paulo, sabe a viagem que é o deslocamento entre Guaianazes e o hospital, que fica na Av. Ibirapuera, em Moema.

Devido à experiência esquisita que tive e relatei a algumas pessoas, fui aconselhado a ler artigos ou livros falando sobre NDE, sigla para Near Death Experience, ou experiência de quase morte, quando resolveram, anos depois, publicar algo sobre o assunto em português. Muita coisa bateu com o que vi e senti, mas não vi muito sentido em buscar sentido onde as coisas não fizeram o menor sentido. Honestamente, tô me lixando neste momento se há vida após a morte; me interessa muito que haja vida antes da morte. Depois a gente vê como é que fica.

Durante meu período de transe, ouvia uma música - talvez vinda do clube em frente ou do quarto ao lado - cantada pelo Erasmo Carlos e falando de paz. Ao longo dos anos achei que aquilo tudo fizesse parte do pacote de doideiras que experimentei no período, e que a tal música não existisse de verdade. Por obra do acaso, tive contato com essa música há cerca de três semanas. Sim, ela existe, é de autoria do grande maestro Antonio Adolfo e se chama "Leve como o vento". Um arranjo simples e bonito, uma letra singela e aparentemente despretensiosa, mas que as circunstâncias tornaram para mim uma música muito especial. 

Meu namoro com a Foguinho acabou por extinção não verbalizada. Como não retornei no dia previsto, ela arranjou outro para acompanhá-la nas doideiras dela. Particularmente achei muito bom, porque futuro ali, para nós dois, era algo completamente fora de cogitação.


Escrito por Rogério Veloso às 15h39
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BRASIL, Centro-Oeste, GOIANIA, JARDIM GOIAS, Homem, de 46 a 55 anos, Portuguese, English, Arte e cultura, Música, Motos e Carrões







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