Blog do Negão

26/10/2009

PEQUENA EPOPÉIA

No início de 2007 fui surpreendido com a constatação de que, além de plaquetas, meu sangue hospedava um elemento estranho chamado HCV. Ou vírus da hepatite C, como queiram. Logicamente era algo novo para mim, busquei informações com profissionais da área médica e apelei para São Google, para saber o que aquilo representava, quais as perspectivas de cura, formas de tratamento, enfim, o que mudaria na minha vida a partir de então.

O quadro, a princípio, era sombrio. O exame denominado PCR quantitativo indicava a existência de 7.200.000 RNA do vírus por ml, uma coisa absurda. Ou o bicho é baixinho, ou de sacanagem entrou zipado para caber aquilo tudo num único ml. E olha que meu sangue tem ml pra dedéu. O gastro que inicialmente me atendeu realizou a biópsia do fígado, para ter a exata noção dos danos hepáticos existentes e, assim, definir a forma mais adequada de tratamento.

A partir daí fui colocado sob a guarda e responsabilidade da Dra. Gleicy-Mar, misto de infectologista e anjinho da guarda. Definiu posologia e prazo de utilização da medicação, além de estabelecer um cronograma de exames laboratoriais de acompanhamento. E tome agulha.

Meu tratamento consistiu na utilização de interferon alfa três vezes por semana pelo período de seis meses, o que me rendeu 72 deliciosas agulhadas na barriga. Como medicamento associado encarei no período 720 drágeas de ribavirina, duas a cada 12 horas, dia sim, dia também. O tal vírus até que era meu amiguinho, não me incomodava, não causava dor nem me enchia o saco. Já os medicamentos...

Eu nunca leio bula antes de tomar um remédio, justamente para meu inconsciente não ficar tentado a assumir os efeitos colaterais. Assim fiz com os maledettos, mas não adiantou não ler. Tanto o interferon quanto a ribavirina trazem bulas cujas letras são mais ou menos do tamanho do vírus. Duas linhas para a indicação, quatro para a posologia, duas páginas para as contra-indicações e 120 para os efeitos colaterais. Sabe o que é sentir dor de cabeça o dia inteiro, a ponto de deixar de notar? Fora as dores nas articulações, sensação febril, irritabilidade, fadiga, dificuldade de concentração. Para arrematar, os remédios me causam anemia e queda imunológica. Legal, né?

A cada 25 dias eu tenho encontro marcado com o laboratório para tirar um tantico de meu sanguinho premiado, e verificar a quantas andam as plaquetas, leucócitos, hematócitos, e aquela sopa de letrinhas TGO/TGP. A galera já me conhece pelo nome, nem preciso mais pegar senha.

Em meados de março deste ano completei os seis meses de tratamento, e o passo seguinte era novo exame de sangue. Desta vez o PCR (sigla em inglês para reação em cadeia da polimerase), para ver se valeu todo o sacrifício. Não valeu. Primeiro foi solicitado um PCR qualitativo, que só identifica a presença do vírus, e deu positivo. Em seguida foi feito o quantitativo, que denunciou a presença teimosa de 2.700.000 RNA/ml. Eu ainda era um milionário, portanto.

Dei uma baqueada, é claro, mas a última vez que me lembro de ter entrado em desespero foi quando a imprensa danou a especular sobre a contratação do Luxa para comandar a seleção. Achei melhor consultar quem sabe das coisas e buscar alternativas.

A doutora ficou mais triste do que eu, mas disse que minhas chances no retratamento com interferon peguilado seriam enormes. Mais agulhadas. Nesta nova etapa do tratamento, duas diferenças: o prazo seria de um ano, mas as injeções se resumiriam a apenas uma por semana. No total serão 48 buraquinhos novos na minha outrora imaculada barriga de tanquinho e 1440 cápsulas de ribavirina. E tome dor de cabeça, tronco, membros, alma, aura e ectoplasma.

Dia 19 passado completei a 12ª. semana de retratamento e, conforme a praxe médica, novo PCR. Olha o resultado do danadinho aí embaixo:


Trocando em miúdos: ELE MORREU, ELE MORREU, ELE MORREU!

Quer dizer, então, que acabaram as agulhadas, as cápsulas calibre 38 e os efeitos colaterais? Nananina. O tratamento é como um ritual, tem que ser levado até o fim. E não é frescura dos médicos, não, o problema é que esse vírus excomungado tem complexo de Jesus Cristo, vira e mexe entra numas de ressuscitar para a glória eterna. A partir de agora a tática é oposta àquela adotada por time pequeno, que quando está ganhando joga na retranca. Tenho que estar sempre no ataque, chutando cachorro morto. A coisa é tão séria, que até dois anos após a última agulhada vou fazer exames laboratoriais regulares. Somente após isso, e se mantendo o resultado "não detectado", é que serei oficialmente declarado curado.

Ao longo de todo esse período, tenho recebido manifestações de apoio e amizade de um sem-número de pessoas amigas, familiares ou não, e quero deixar registrado meu agradecimento pela solidariedade, pelos telefonemas, e-mails, novenas, comentários deixados aqui neste cafofo. Um agradecimento especialíssimo à minha Eliana, que algumas vezes flagrei chorando, mas seguramente foi a pessoa mais importante que tive ao meu lado, e me deu forças para encarar essa empreitada sem deixar a peteca cair. Apesar de ter conhecido um Rogério estranhamente disciplinado no tocante ao tratamento, levei a coisa na brincadeira, com otimismo e piadas, e isto só foi possível porque eu sabia que não estava só.


Escrito por Rogério Veloso às 11h45
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05/10/2009

TRIBUNAL É BARRA

Desde que resolvi, em 2006, chutar o balde e ingressar na justiça trabalhista contra o que considerei abusos e ilegalidades inaceitáveis praticados contra mim, tornou-se rotina diária acessar os sites dos tribunais regional e superior do trabalho. Precisava acompanhar de perto o andamento do processo. Esta semana o TST me deu ganho de causa, e estou na expectativa de um eventual agravo de instrumento, para despejar minha ainda numerosa artilharia pesada escondida na manga. Acho que o assunto já morreu, mas nunca se sabe.

O processo chegou ao Tribunal Superior do Trabalho em setembro de 2007, tendo tirado um cochilo básico de cerca de dois anos. Durante esse tempo meus acessos serviram para que eu tomasse conhecimento de decisões as mais diversas, algumas contraditórias entre si. Observei que algumas situações exatamente iguais tinham decisões diametralmente opostas, o que me obrigava a tentar adivinhar quais eram os critérios utilizados. Descobri: a cabeça do julgador.

É esquisito isto, mas parece que a redação dos acórdãos subordina-se menos à letra da Lei e mais ao humor do ministro. Há cerca de 20 dias a SDI - Seção de Dissídios Individuais, em processo semelhante ao meu, emitiu decisão que na prática passa uma borracha sobre os artigos 177, 224 e 468 da CLT, além de afrontar tanto a Súmula 102 quanto o Enunciado 109 do próprio TST. O placar foi apertado, parecia decisão por pênaltis (5x4), mas valeu e deixou a impressão de que aqueles senhores togados disseram: danem-se as Leis, o que interessa são meus valores, meu estado de espírito e minha opinião.

Zeus não faria melhor.

Meu julgamento foi marcado para dia 30 de setembro, e rezei para a mulher do ministro julgador não resolver dormir de calça jeans justamente na véspera.

Para se ter uma idéia de como a coisa é complicada, valem os exemplos abaixo:

Notícias do Tribunal Superior do Trabalho

01/10/2009

Limpeza de banheiro público não é atividade insalubre

 

 Notícias do Tribunal Superior do Trabalho

02/10/2009

Arrumação de lixo em condomínio dá direito a adicional de insalubridade


Estas notícias foram extraídas do site do TST, constituem release de decisões do Tribunal e, em resumo, dizem o seguinte: manipular lixo é insalubre; lavar latrina de banheiro de rodoviária e vez por outra pegar na merda é atividade corriqueira, tipo vender alface na feira. Cada um dos processos que deram origem às decisões teve um julgador diferente.

Duas coisas minam o equilíbrio emocional de qualquer um: o tempo que leva até o julgamento e a incerteza se realmente aqueles senhores vão fazer justiça. Deve ser por isso que se costuma dizer, em tom de galhofa, que de cabeça de juiz e bumbum de nenê nunca se sabe o que vai sair.

Eu desconfio que sei.


Escrito por Rogério Veloso às 00h39
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