Blog do Negão

29/08/2009

RESPEITO, POR FAVOR

26/08/2009 - 21h30

Prédio da Câmara de Teresina (PI) que custou R$ 6 mi não cumpre lei de acessibilidade

 

JOSÉ EDUARDO RONDON
da Agência Folha

Uma vistoria do Ministério Público do Piauí no novo prédio da Câmara Municipal de Teresina apontou que o Legislativo não cumpriu a lei federal de acessibilidade para a construção da obra. Orçada em R$ 6 milhões e prevista para ser inaugurada na segunda-feira (31), a futura sede pode ser embargada caso não sejam feitas as mudanças exigidas pela Promotoria.

Em vigor desde 2000, a lei 10.098 dita normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade de deficientes físicos ou pessoas com mobilidade reduzida.

Entre os critérios que foram desrespeitados na construção do prédio público estão a ausência de rampas de acesso nos padrões da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas), a falta de barras para abertura de portas, o uso de balcões de atendimento com altura acima do permitido e a inexistência de rebaixamento nas calçadas em frente ao imóvel.

A promotora Marlúcia Almeida diz que, da maneira como foram feitas as rampas --com um ângulo de inclinação maior do que o estabelecido-- não há segurança para os deficientes que forem usá-las. Ela conta ter encontrado uma rampa com uma inclinação de 14%, enquanto o ideal é até 8%.

"Se você faz fora dos padrões, você não dá autonomia, não dá segurança. O presidente da Câmara [que não é cadeirante] foi fazer um teste na rampa e subiu com uma cadeira de rodas. A cadeira quase virou com ele."

Os chamados homens públicos brasileiros mais uma vez deram uma aula do mal. Soa irônica a notícia de que o Legislativo não cumpriu a lei federal de acessibilidade para a construção de sua sede, e de novo temos a demonstração de que esses indivíduos não são totalmente inúteis, pelo menos servem de mau exemplo. Como maus exemplos temos a rodo em todas as esferas do Executivo, Legislativo e Judiciário - é um tal de órgãos do judiciário acharem normal a aceitação de patrocínio em eventos por parte de réus frequentes, políticos roubando e ficando por isso mesmo, outros utilizando bens e verbas públicas para uso privado e ficando tudo por isso mesmo -, que a consequência mais sensível no dia-a-dia é um povo amoral, que segue os exemplos "de cima" e considera que quem anda na linha é otário.

Talvez esses maus exemplos sejam a origem daquela prática horrorosa de tomar iogurte dentro do supermercado e deixar a embalagem na prateleira mais próxima, furar o sinal porque ninguém está vendo, achar normal molhar a mão do guarda (e o guarda também inventar factóides para ter a mão molhada), e isso tudo redunda num fenômeno sócio-comportamental que se traduz na palavra desrespeito, subproduto da falta de educação e amor fraterno.

Dia desses fiquei imaginando o que se passa na cabeça de algumas pessoas, que conscientemente resolvem seus problemas pessoais às custas da dificuldade alheia. Será que não bate um mínimo de remorso depois? O fato é que as fotos que mostro abaixo foram tiradas num período máximo de quatro horas:


Note-se que o veículo está estacionado numa vaga exclusiva para deficientes físicos e pessoas com mobilidade reduzida


Isto forçou um cadeirante(veja adesivo no parabrisa) a estacionar do lado, em local bem longe da rampa


Sem preconceito (eu sou motociclista), as motos são campeãs na modalidade esculhambação


Olha aí que coisa linda!


Transcrevendo a mensagem: Deus sem você é Deus; e você sem Deus, é o que? Respondo: alguém que não
respeita os outros e estaciona a moto em vagas exclusivas para deficientes físicos.

Tem mais um monte de fotos, mas bateu uma certa preguiça. Além do que seria mais do mesmo.

Eu rejeito aquela frase feita meio canalha, no sentido de que nós somos todos mal educados. Nós quem, cara pálida? Isso parece papo de quem tem culpa no cartório e tenta generalizar para diminuir a própria pena ou evitar uma acusação específica, coisa de senador. Eu não faço nada disso, e conheço muita gente que também não faz. Aliás, justiça seja feita, no período em que estive fazendo as fotos presenciei pessoas que, ao perceberem que se tratava de vaga exclusiva, engataram a ré e procuraram outro lugar para estacionar. O mundo tem jeito, sim.

Na abordagem as pessoas em maioria subiam nas tamancas, "eu só vou ali rapidinho", "não tem ninguém usando a vaga", "você vai me multar?" Expliquei que não era do batalhão de trânsito (que, aliás, está pouco se lixando para vagas exclusivas aqui em Goiânia), mas apenas um cidadão inconformado com a falta de educação delas. Teve um brucutu que achei que iria me dar um peteleco, mas deve ter me achado com cara de autoridade e limitou-se a sair pisando duro.

Para não cometer injustiças tomei alguns cuidados. O veículo pode não conter o adesivo por esquecimento, ou mesmo ser um veículo que naquele momento servia de transporte para um cadeirante, uma grávida ou qualquer outra pessoa que tivesse ou estivesse com dificuldades de locomoção, o que dá direito ao uso da vaga. Os veículos fotografados não se enquadram nessa situação, seus condutores estacionaram ali por pura falta de respeito, mesmo. O interessante nisso tudo é que predominam as madames-peruas, os fazendeirões endinheirados e, claro, os motoboys, como o maior contingente de pessoas que não respeitam as vagas exclusivas, seja por falta de formação moral, educação, consciência social ou por serem simplesmente grandes fdp.

Anotei as placas e fiz uma pesquisa no site do Detran. Foi interessante constatar que um percentual considerável possui multas lançadas por infrações diversas, sendo as mais comuns o estacionamento sobre calçadas, avanço sobre o sinal vermelho, desrespeito à faixa de pedestre e a vias preferenciais. Não creio que seja coincidência, isso tudo denota desrespeito, caráter amoral e falta de compromisso com a segurança.

A pergunta que me vem é: se o mau exemplo vem de cima, como educar e conscientizar esse povo que age por mimese?

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Mudando de assunto: há algum tempo publiquei aqui o post Doidos de Pedra, falando sobre minha estréia nos palcos da vida. Recentemente fui abordado por duas outras doidas, que me fizeram propostas assustadoras que, como bom maluco, topei.
A primeira foi minha amiguinha Silvia, lá dos Isteites, que me convidou para escrever alguns artigos para a
revista da qual é a jornalista responsável. Achei que a experiência seria assaz interessante, principalmente porque o pedido foi no sentido de escrever sobre a hepatite C, e de alguma forma posso ajudar alguém.
A outra tem uma dose de complicação a mais: Simone, minha cunhada-gata-escritora, me convidou para escrevermos um livro a oito mãos, incluindo aí uma amiga e um grande escritor goiano, cujo nome em breve revelarei (falta ele confirmar). A idéia é juntarmos nossos escritos, botarmos num balaio só e mandarmos para a editora. Pode ser conto, novela, ensaio, crônica, o que vier.

A consequência disso é que este blog, cuja periodicidade de atualização já não é uma brastemp, pode vir a ficar meio que para segundo plano, porque conciliar meu trabalho com revista, blog, livro e efeitos colaterais do meu coquetel molotov diário pode ser demais para Tico e Teco.
 


Escrito por Rogério Veloso às 12h11
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19/08/2009

PARA NÃO FICAR MONÓTONO

Atire a primeira pedra o representante quarentão da raça masculina que não treme ante a palavra urologista. Tá, é do tipo valentão? Nem um arrepio? Duvido.

A primeira providência frente ao doctor é meio que instintiva: conferir, com a discrição possível, se há algum sinal de indicador destroncado. Vale a paranóia: e se o cara nas horas vagas é goleiro ou jogador de vôlei? Dedo destroncado costuma inchar, o que fatalmente potencializa o sofrimento até do paciente mais otimista, que não considera assim tão inevitável que a consulta vá terminar nas vias de fato.

Minha visita ao urologista foi motivada por algo mais, digamos, nobre: de repente notei um caroço na capital dos países baixos, também conhecida como corpo cavernoso. Fiquei exultante, depois de tanto tempo sem ter com que me preocupar, finalmente rolou um perrengue. Esse papo de jogar pedra na cruz me parece coisa de amadores.

Falei com o Dr. Sérgio sobre minha descoberta e a consequente preocupação com meu velho parceiro de tantas lutas e glórias. Meio ressabiado assenti em deitar-me na maca para o exame in loco, e o som das luvas de borracha estalando nas mãos do médico me deu calafrios. E o homem pegou, fuçou, apertou como se fosse um bonequinho de borracha, eu já estava quase me levantando e cobrindo o cara de porrada, mas ele foi salvo pelo gongo e disse que eu poderia me vestir.

Novamente frente a frente, longe de suas mãos assassinas, fui informado que o problema tinha todas as características da chamada Doença de Peyronie, mas que era necessário fazer uma ultrassonografia. Imagino que por razões profissionais, solicitou também ultrassonografia dos fins, bexiga e (tchan-tchan-tchan-tchaaaan) próstata. Para arrematar solicitou exames laboratoriais de urina e sangue, PSA incluído, e uma tal fluxometria.

Falando assim, fica parecendo que estive com Bela Lugosi encarnando seu mais famoso personagem. Na verdade, Dr. Sérgio é um cara legal, do tipo que explica tudo ao paciente, não é aquele médico velha guarda que trata seus pacientes como perfeitos idiotas. Não deve ter chegado ainda aos 40 anos, e demonstrou ser observador: perguntou se eu era violonista, logo explicando que tinha notado calos nos meus dedos da mão esquerda. Disse que estava começando a aprender a tocar e descobriu-se um aluno muito entusiasmado e disciplinado. Respondi que tocava, sim, mas os calos provinham do violino, que utiliza cordas de aço, e aí nossa conversa descambou para assuntos que passam longe da medicina. De repente voltamos à consulta, e ele chegou ao cúmulo de me mostrar um pênis de borracha cortado (ui!) transversalmente, para me mostrar o que pode ser o problema e onde se localiza. Saí de lá um pouco mais culto: descobri que meu pipiu velho de guerra possui um troço chamado túnica albugínea.

Os exames de imagem e a fluxometria seriam feitos na própria clínica, e já na saída do consultório marquei para dali a três dias. Como tinha que fazer exame de sangue para controle da hepatite, resolvi na manhã seguinte aproveitar uma única picada e cumprir o determinado nos pedidos da infectologista e do urologista, ocasião em que fui subtraído de meio galão de meu precioso líquido infectado.

Atendendo à recomendação do médico, cheguei na clínica com cerca de meia hora de antecedência, porque precisava tomar um porre de água antes. No que eu achava que não cabia mais, a enfermeira me mandava tomar mais um copinho. Sabe aquele amigo manguaçado que acha que você bebeu pouco e fica te aporrinhando com o insuportável “toma mais um golinho”? Era ela, a enfermeira. Até que chegou uma hora que não deu mais: minha filha, eu já sou quase um poço artesiano!

Minha barriga estava de tal maneira dilatada que provavelmente deitado eu estaria mais alto do que em pé, e nada de ser chamado. Comecei cruzando as pernas, depois fiquei com medo de descruzar, aí desapertei o cinto, depois tirei o cinto, olhei o relógio na parede e tinham passado cinco minutos da hora marcada, uma eternidade, onde vamos parar?  De repente: Rogério Veloso!

Levantei-me puxando um pouquinho da perna – “é o menisco” – e fui encaminhado à sala de ultra-som. Deitei na maca, levantei um pouco a camisa, abaixei a calça, o médico passou aquela meleca e começou a me escanear. O cara não estava nem aí para minha situação de penúria, eu já estava quase urinando pelos ouvidos e ele apertando aquela coisa como se meu baixo ventre fosse uma almofada de carimbo. Quando eu achei que tinha terminado, ele me pediu para ficar de lado e fotografou o rim direito, depois o esquerdo, dedicando-se, por fim, a ele, o imprescindível, o absoluto, o magnífico, meu bilau.  Uma vez encerrada a tortura, lá vou eu para outra sala fazer a fluxometria, até então algo tão misterioso como a longevidade do Sarney. Foi um momento de júbilo absoluto quando a enfermeira me disse que o exame consistia em...urinar! Parece e é esquisito, mas eu simplesmente tinha que urinar num recipiente que embaixo lembra um balde e na parte de cima tem uma espécie de funil, isso tudo conectado a um computador. Uma mijada cibernética.

- Faça um xixizinho como se fosse na sua casa.

- Assim, espalhando tudo do lado de fora?

- Se fizer isso, eu te mato.

Talvez por brincar com as pessoas, mas sem faltar com o respeito, acabo ganhando essas amizades instantâneas. A ameaça da enfermeira foi entremeada de risos, não só dela e meu, mas do próprio médico e da recepcionista que por acaso passava por ali na hora. Ela me deixou só na sala, fechou a porta e me pediu para ser bom de mira. Obedeci e fiquei encantado com o monitor, que mostrava uma linha vermelha e outra azul acompanhando meu extravasamento, e quando ordenada e abscissa se encontraram estava encerrada minha missão.

O retorno ocorreu dois dias depois.

Com os resultados dos exames laboratoriais, todos dizendo que sou um cara perfeito, novamente me vejo no consultório do Dr. Sérgio. Para meu alívio ele disse que meu PSA estava ótimo (0,5 – seja lá o que isso signifique), mas minha porção pessimista ainda estava meio cismada, afinal de contas o cara é urologista, com um monte de dedos nas mãos. Rins e bexiga em perfeito estado. Ainda que não tenha sido possível verificar via ultra-som, o diagnóstico para o calombinho foi realmente a Doença de Peyronie. Fiquei surpreso ao saber que não era algo raro, e feliz porque foi descoberto no nascedouro. Trata-se de fibrose no tecido peniano, ocasionada principalmente por viroses (lá vem!), trauma e em alguns poucos casos por hereditariedade. É uma doença progressiva, e se não tratada com tempestividade pode causar deformações e curvaturas penianas, a ponto de transformar qualquer um no Capitão Gancho. Nesses casos, a saída é cirúrgica.

Como o PSA indicou que minha próstata está uma gracinha, o médico focou a conversa para o ataque à calosidade peniana, que consiste em vitamina E e um anti-inflamatório. Eu já estava todo alegrão, quando Dr. Sérgio me lembrou da necessidade de acompanhar anualmente a próstata e, quando achei que estava na hora de ir embora, ele falou: “já que você está aqui...

Gelei.

... eu trouxe meu violão, porque daqui vou direto para a aula. Afina para mim?"


Escrito por Rogério Veloso às 00h17
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15/08/2009

OUTRA DO BROU

É de todo improvável que o Brou conheça minha amiguinha Lak, mas acaba de me mandar um vídeo cujas cenas finais me remeteram àquela criaturinha querida que, como boa hindu, está prestes a vivenciar uma experiência de renascimento.

A autora da montagem de slides e colocação de legendas chama-se Cleide Brito, que produziu uma sucessão assustadora de imagens ao som da música Eu Só Peço a Deus (Solo Le Pido a Diós), de autoria de León Gieco e Raul Elwanger e gravada por Beth Carvalho e Mercedes Sosa, cuja letra é um tapa na cara.

Lembrei da Lakinha porque ao final é inserida uma mensagem de Mahatma Gandhi, bela e profunda como tudo o que aquele ser de luz pensou e realizou.

Desconfio que Gandhi caiu na Terra por engano do maloteiro, mas há quem diga que veio de propósito, para cumprir a missão de mostrar ao mundo que é sempre possível resolver os conflitos sem recorrer à violência.

Qualquer que seja a circunstância, que bom que veio!  


Escrito por Rogério Veloso às 23h50
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10/08/2009

PARA DESOPILAR

Sempre que vejo o Chimbinha num programa de auditório desses aí (já repararam que a guitarra dele nunca tem um cabo conectado?), me bate uma vontade doida de - como se diz aqui pelas bandas do Goiás - dar uma surra de cinto naquele menino.


Se eu tivesse cabelo na frente daria uma oxigenada, para ficar igualzinho.

Quando o assunto é Zezé di Camargo, fica a impressão de que ele confunde execução com assassinato. Canhoto, não inverte as cordas do violão e toca como quem rala um milho para fazer pamonha.

Tá bom, não tenho nenhuma autoridade para falar dos caras. Justo eu, um violonista prático, empírico e meia boca. Há, porém, uma diferença nada sutil: não sou profissional da música, e faço o que eles deveriam fazer: estudo a matéria que diz respeito à minha profissão, e faço disso um hábito ininterrupto.

Sei que no meio fonográfico (ainda existe essa palavra?) as coisas funcionam ao sabor dos interesses das gravadoras, e em breve o que hoje aparece à exaustão na mídia vai sumir do mapa, como se nunca tivesse existido. Já fizeram isso com muita gente. Logo, sucesso, venda de centenas de milhares de cópias, nada disso é sinônimo de qualidade musical, é tudo uma questão de jabaculê. A maioria dos pagodeiros e sertanejos de outrora que o digam.

Não sei se serve de consolo, mas há qualidade musical neste País. Excelentes instrumentistas, geralmente ilustres desconhecidos, pelo pouco que aparecem levam a inevitáveis comparações com os monstros sagrados da hora, figurinhas carimbadas dos Faustões e Gugus da vida, e de certa forma contribuem para que a mediocridade, que é regra mas não absoluta, não tenha vida tão longa.

É o caso de um carinha aqui de Goiânia, que parece ainda não ter completado 20 anos, mas que vem mandando muito bem com seu violão erudito. O nome dele é Vitor Noah, filho de Dona Adriana, minha amiguinha ainda virtual: 

O vídeo é longo, dura quase 10 minutos, porque é composto por três peças. E o moleque é ousado: uma delas é o Estudo No. 8 de Villa-Lobos. Coisa que eu nem me atrevo a tentar, porque tenho só cinco dedos em cada mão.

Espero que o Vitor não se deixe ferir pelo pouquíssimo reconhecimento que se dá a quem faz música de qualidade no Brasil, e nem pense em abandonar seus estudos.

A arte agradece.


Escrito por Rogério Veloso às 23h53
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06/08/2009

SAGARANA

Desde que nos mudamos para o apê novo, em dezembro do ano passado, venho cumprindo um delicioso ritual. Trabalho até ali pelas três da tarde, chego em casa e encontro o Lucas à minha espera para a farra cotidiana.

Geralmente damos um tempo até o sol diminuir um pouco a inclemência, supervisiono a tarefa escolar e em seguida descemos para bater uma bolinha. Ambos devidamente paramentados. Entre sete e sete e meia subimos para o necessário e urgente banho e depois um ranguinho caprichado.

Estão achando estranho meu curto horário de trabalho? Tem explicação: sou bancário, ocupo cargo eminentemente técnico, mas minha empresa cismou de me obrigar a cumprir carga horária de oito horas. Como a CLT estabelece a jornada de seis horas para bancário, meti o pé na porta dos tribunais do trabalho e, por isso, fui rebaixado (e nem torço pelo Fluminense), perdi salário mas mantive meu horário das 9 às 15.
Alguns acham que sou rebelde e encrenqueiro, mas tenho o direito de não concordar. Minha avó materna, que carinhosamente na adolescência apelidei de Madame Min (eu tenho culpa se o cabelo dela era igualzinho?) dizia sempre que quem muito abaixa a cabeça acaba mostrando a bunda. A bem da verdade, considerando minha bunda preta, magra e cabeluda, decidi que não tenho o menor direito de submeter quem quer que seja a essa visão do inferno.

Hoje o dia não foi diferente, mas teve um tempero especial: após o banho, ao acessar a internet dou de cara com o vídeo da briguinha de comadres envolvendo Renan Calheiros e Tasso Jereissati. Para uma novela do SBT até que soaria normal, mas aquilo ocorreu no plenário do Senado Federal! Será que esses caras não ficam com vergonha depois, ou basta encher o rabo de uisque para dormir em paz? 

À parte o desconforto de saber que aquilo era uma cena da vida real, até que foi divertido assistir ao embate. Guimarães Rosa que me perdoe pela grotesca comparação com o que considero sua obra maior, mas é que a palavra cangaceiro foi repetida à exaustão. Ficou também muito engraçada a cara de estupefação feita pelo Sarney.

Meu único desgosto foi ter constatado que, mais uma vez, eu estava no lugar errado no momento errado. Deveria estar ali, no meio da bagunça, para ficar entre os dois, esticar o braço com a mão espalmada e gritar: cospe aqui, feladapuóóóta!


Escrito por Rogério Veloso às 19h53
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05/08/2009

PESOS E MEDIDAS

Sou funcionário concursado de uma grande instituição federal. Pelo cargo que ocupo, não raro sou designado para presidir comissões de inquérito administrativo, cuja mecânica metodológica, baseada no Direito Administrativo, estabelece algumas condições sine qua non: a(s) pessoa(s) indiciada(s) têm direito à ampla defesa e ao contraditório, o que inclui vistas aos autos enquanto o processo estiver ativo, defesas escritas e/ou orais, recursos às diversas instâncias existentes, nomeação de testemunhas, representação legal, apresentação de provas e contraprovas.

Uma condição que diz respeito especificamente à comissão: nenhum de seus membros pode ter qualquer relação de parentesco ou comercial com as pessoas envolvidas, nem ser amigo pessoal ou inimigo notório ou declarado. Caso haja qualquer situação da espécie, nós somos obrigados legal e normativamente a solicitar substituição por suspeição. Simples assim. O objetivo desse cuidado todo é muito claro: evitar vícios ao processo, garantindo a lisura dos procedimentos, a imparcialidade e, por consequência, a segurança jurídica.

Pois bem, saiamos um pouco do mundo da legalidade e vamos ao Olimpo. Segundo notícias recentes da imprensa, o desembargador Dácio Vieira, do Tribunal de Justiça do DF e Territórios, proibiu o jornal O Estado de S. Paulo e o portal Estadão de publicar reportagens que contenham informações da Operação Boi Barrica, e tal proibição decorreu de demanda judicial apresentada por Fernando Sarney, filho daquele senhor de igual sobrenome. A alegação é de que o caso corre sob sigilo de justiça, mas não entendi bem por que, uma vez que é lançada mão da figura do sigilo geralmente quando há possibilidade de prejuízo à obtenção ou consolidação de provas por ação dos investigados e afins. Mas vamos considerar legítimo o tal sigilo, até porque o TJDF é meio esquisitão. Quem não se lembra do filho de um desembargador que ateou fogo no indio Galdino, nunca foi preso, depois prestou concurso para vigilante no TJ, passou mas não foi classificado, aí misteriosamente o número de vagas foi ampliado, ele entrou como vigilante e logo depois virou dentista do tribunal, com um salarinho até mais ou menos? Papaizinho togado, uma vez questionado, disse que tudo era legal. Legal pra caramba, diria eu.

Lembram do que eu falei sobre as condições e, principalmente, as proibições que devem ser observadas nas comissões de inquérito? Pois vejam essa foto aí embaixo, que peguei emprestada do blog do Marcelo Tas:

É meio chato e dolorosamente suspeito dizer isso, mas vamos nos ater aos homens (da direita para a esquerda): Renan Calheiros, Agaciel, Sarney Pai e o desembargador Dácio Vieira.

Segundo consta de matéria publicada no blog do jornalista Rogério Scavone e publicada hoje no Jornal de Itatiba Diário, de Itatiba/SP (clique aqui)
, "O juiz que determinou a proibição, Dácio Vieira é próximo de Sarney e Agaciel Maia, o poderoso ex-diretor do Senado, pivô da crise política atual. Ele foi consultor jurídico do Senado (cargo comissionado) e sua indicação para o TJ contou com o apoio de Agaciel e Sarney."

Não foi a única afirmação que li e ouvi sobre essa conveniente porém ao mesmo tempo incômoda relação de proximidade. Mesmo que não seja verdade, ou que não tenha influenciado na decisão, não teria sido mais prudente o magistrado arguir a própria suspeição e passar o caso para um colega, em nome da moralidade, da publicidade e da impessoalidade? No mínimo evitaria ilações, principalmente porque o pedido foi negado em primeira instância e concedido com uma rapidez impressionante (protocolado no final do expediente da quinta-feira e concedido na manhã seguinte).

Eu adoraria publicar a conversinha indecente que foi publicada pelo Estadão e que bota o velho coroné numa rosca soberba (será que podia capturar e repassar para a torcida do Flamengo?), mas a multa atribuída pelo magistrado é de 200 paus, um pouco menos que o patrimônio que consegui juntar em 33 anos de trabalho. Então, como sobrou um espaçozinho no post, resolvi botar aí embaixo um trecho de uma música prá lá de bacaninha do Walter Franco. Coisa de 10 a 12 segundos.

É evidente que vai haver aqui um hiato, porque o áudio não guarda conformidade com nada do que foi escrito lá em cima. Eu só postei porque achei bem original a interpretação do cara, uma horripilante voz gutural que remete àquela caverna do Platão.

Achei bacaninha, só isso.


Escrito por Rogério Veloso às 23h56
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04/08/2009

NO ESTALEIRO

Estou em débito com os amigos que frequentam este blog e deixam seus recados, mas tenho um álibi perfeito: dia 26 de julho iniciei o retratamento à base de interferon peguilado e ribavirina, e se fez sentir quase que de imediato a lua de mel com os efeitos colaterais, que entraram de sola no melhor estilo Júnior Baiano.

O corpo, dolorido e febril, quase não se move. A cabeça não ajuda.

Assim que entrar em campo minha fênix de estimação, uma espécie de deus ex-machina que descobri fazer parte de minha fisiologia, a normalidade estará restabelecida.

Espero que seja logo.


Escrito por Rogério Veloso às 23h41
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