Blog do Negão

27/04/2014

DE MALA E CUIA

Comecei a escrever aqui neste puxadinho em julho de 2008, e devo reconhecer que foi divertido.

Mas tinha aquela coisa de casa alugada, o que me incomodava um pouco, o espaço era pequeno porque às vezes tinha uns móveis grandes que eu queria colocar na sala e não cabia nem um penico.

Daí resolvi fazer minha inscrição:


Logomarca do programa Minha Casa Minha Vida, do "governo que aí está"

 

Uma vez sorteado e pagas todas as taxas, providenciei a mudança das tralhas para a casa nova.


Na foto, um caminhão da Lusitana (O mundo gira e a Lusitana roda)

Aí fiquei sabendo que teria que comprar toda a mobília, porque não tinha como transportar meus móveis velhos pra casa nova. Paciência. O jeito vai ser deixar esta casinha fechada sem trancar. Vai que eu precise buscar uma panela, né?

A partir de hoje, então, meu novo endereço é www.blogdonegao.com.br .

Entre sem bater.





Escrito por Rogério Veloso às 10h14
[] [envie esta mensagem] []


16/06/2013

ORA, POIS!

Juca Chaves costumava dizer que, sempre que ia a Portugal, aproveitava e dava um pulinho na Europa. Talvez os tempos é que sejam outros, mas vi Portugal inserida no continente europeu tal qual França, Espanha, Itália ou Bélgica, inclusive no tocante ao atolamento na merda econômica em que se encontra a maioria dos países do continente.

Resolvemos conhecer Portugal e suas belezas, e definimos 31 de maio como data do embarque. A molecada iria perder algumas aulas e teria que fazer as últimas provas do bimestre em segunda chamada, mas nos lembramos do Pessoa e de nossa alma que nunca foi pequena. Ademais, se fôssemos esperar as férias em julho, iríamos sofrer adoidado com o calor que assola a Europa nesse período. Como de hábito nós, o já tradicional grupo dos sete, tínhamos um planejamento feito com boa antecedência. A única alteração ocorreu a cerca de um mês do embarque, quando decidimos que a cidade do Porto seria nosso primeiro destino, em lugar de Lisboa.

Já estávamos pagando as prestações da passagem para Lisboa, então eu me encarreguei de ver as alternativas, e a melhor delas seria a viagem Lisboa-Porto de trem. Comprei as passagens pela Internet e as recebi em casa, pelo correio, cerca de 10 dias depois. E ainda tem gente que não gosta de tecnologia. A idéia era permanecer no Porto por alguns poucos dias e depois alugar dois carros - não cabem sete num carro só, e achamos arriscado alugar uma van - para descer o mapa até a capital. Na falta de coisa melhor alugamos dois Fiat Punto. Para os passageiros, tudo bem: num carro Gustavo foi de motorista, levando Simone, Mariáh e Diogo; no outro eu dirigi em companhia de Eliana e do Luquinha. O problema eram as malas, e ainda não acredito que conseguimos fazer caber tudo. Passaríamos por Fátima, Coimbra, Óbidos e o que mais rolasse até Lisboa. De lá, escolheríamos outros itinerários. Não podíamos nos dar ao luxo de permanecer muito tempo nas visitas, porque nosso prazo era de apenas 10 dias.

*****************************
A classe econômica de qualquer avião é um atentado à dignidade humana, principalmente quando o voo é transcontinental, que dura em torno de 10 horas. Já na entrada, a primeira porrada: a gente tem que obrigatoriamente passar antes pela classe executiva, pra ficar com raiva de ser pobre. Após uma cortina é que vem a visão do inferno, um misto de cortiço com navio negreiro. O primeiro impulso que vem é uma vontade danada de fazer uma saudação do tipo "aê, comunidade!".

Desta vez nem o Lucas dormiu direito, Eliana e eu sequer cochilamos. Chegamos em Lisboa às seis da manhã, horário local, pegamos um táxi e fomos até a estação Santa Apolónia, para a viagem de trem. Aliás, lá não tem trem, tem comboio. Procuramos o guichê da empresa Comboios de Portugal, fizemos o check-in e corremos para a plataforma porque já estava em cima da hora.

Confesso que sinto muita inveja dos europeus quando o assunto é transporte. As rodovias são impecáveis e as viagens de trem são sempre prazerosas e confortáveis. Dá para percorrer toda a Europa de trem, a um custo muito inferior ao aéreo, ainda que este, pela concorrência das alternativas por terra, seja mais barato que qualquer promoção brasileira. O que, convenhamos, não exige tanto esforço assim.

*****************************
Cultura geral: Portugal possui 10,6 milhões de habitantes (dados de 2011), distribuidos sobre uma área de 92.345 km2. Ou seja, cabe dentro de Pernambuco. Chega a impressionar, num país tão pequeno para nossos padrões megalomaníacos, a quantidade de pontos históricos, turísticos ou meramente contemplativos que oferece. Assim, para não escrever o diário de Matusalém vou dividir o país e o relato da viagem em algumas partes, e começarei pelo começo: a cidade do Porto. Algumas fotos de aperitivo:


Ponte sobre o rio Douro, que separa as cidades do Porto e de Vila Nova de Gaia


Museu do Vinho do Porto. Na foto, da direita para a esquerda: Lucas, Diogo, Gustavo e eu.


O Rio Douro, que banha a cidade, prestes a desembocar no Atlântico. Belo como os rios Negro e Paraguai no Brasil


Na foto, Eliana, Lucas e eu. Além da curtição, acreditamos que estas viagens vão ajudar na formação do moleque


Toda a orla é margeada por um calçadão, o que garante a acessibilidade e a diversão com segurança

Desde antes do embarque eu já sabia que teríamos algum problema com o idioma, já que falamos brasileiro e os locais falam português. São idiomas bem parecidos, mas a pronúncia é um desafio a se considerar, além de algumas palavras possuirem significados diferentes daqueles que conhecemos.

É um mistério a ser desvendado, mas há alguns anos o Lucas é torcedor do Futebol Clube do Porto, desde a época em que jogavam o Hulk e o colombiano Falcão Garcia. Aí o moleque me encheu a paciência, queria porque queria conhecer o clube, os jogadores e o Estádio do Dragão. Resolvi telefonar para o hotel do Porto para me informar sobre o assunto. Foi meio que um parto a fórceps:

"Fénix Hotel, bom dia, N*%$@#el a vosso dispor!"
"Bom dia, com quem eu falo?"
"
N*%$@#el, senhor"
"Desculpe, não entendi"
N*%$@#el"
"Papai Noel?"
"Não,
N*%$@#el"
"Rapunzel?"
"
N*%$@#el!"
"Pode soletrar?"
"N-A-
%$@#el!"
Acabei indo por dedução: Natanael?

"Mas é o que estou a dizer!"

Gente fina o Natanael, super educado, bem humorado e solícito. Expliquei a ele sobre a questão do F.C. do Porto, e ele informou que a visita ao estádio era bastante comum, mas me mandaria um e-mail sobre a visita ao clube, cuja possibilidade iria averiguar. Após dois ou três dias sou surpreendido com um telefonema do hotel, e um colega do Natanael me disse que o clube mandara informar que suas portas estavam abertas para nós, bastaria agendar. Achei muito gentil, tanto por parte do hotel quanto do clube. Lucas ficou alucinado.

Nossa primeira refeição em terras portuguesas talvez tenha sido a mais divertida. O cardápio parecia escrito em linguagem cifrada, havia pratos com nomes os mais bizarros e ficamos brincando de adivinhação. Bom, Gustavo e Simone já tinham saído do hotel babando por um bacalhau, e lá bacalhau é chamado de bacalhau, então para eles não houve problema. Mas o cardápio é mais ou menos esse aí embaixo:


Esse cardápio é do restaurante ao lado do hotel, mas não é muito diferente dos demais

É claro que tivemos que utilizar os serviços de tradução do garçon. Eu estava curiosíssimo para saber o que seria prego em prato, que imaginei algo rico em ferro, Rojões a piolho ou mesmo alheira. Para minha grata surpresa, prego em prato era tão-somente um filezão em estado hemorrágico, cercado de batata frita por todos os lados. Algo como um paraíso comestível. Deixei os rojões (iscas de porco com alguma gordura, acompanhadas de arroz e batata) e a alheira (uma espécie de chouriço com carne de aves) para uma próxima oportunidade. Bem acompanhado pela boa cerveja local Super Bock (a Sagres também é ótima), matei quem estava me matando.

Nós, o G7 (G8, quando meu sobrinho Danilo participa da farra), viajamos juntos há cerca de 12 anos, talvez um pouco mais. Aprendemos que, para conhecer de fato os locais visitados, é necessário bater perna, explorar cada rua e beco. Às vezes somos brindados com uma paisagem ou detalhe pitoresco que se perderia se estivéssemos dentro de um ônibus ou trem/metrô. Também aproveitamos para experimentar as iguarias e bebidinhas locais (chamar os vinhos portugueses de 'bebidinhas' é sacrilégio, eu sei). Ao fim do dia estamos extenuados mas felizes, principalmente por ter podido registrar imagens como estas:


Diz-se no meio futebolístico que a bola procura os craques. Talvez
isto valha para a literatura, já que Simone achou o Largo Amor de
Perdição pelo faro. A obra é do português Camilo Castelo Branco.


Na foto, casario muito antigo às margens do Rio Douro


Na foto, placa indicativa de que naquela casa havia nascido o poeta inconfidente Tomás Antonio Gonzaga

Pois é, não esperávamos surpresa tão boa e bem a propósito, já que o romance mais recente publicado por minha cunhada Simone é ambientado na então Vila Rica, e narra a história do personagem Hélio, que era, como o título diz, o aprendiz de Tiradentes. A placa na casa foi a primeira das muitas demonstrações de que o povo português ama e preserva sua cultura e sua história.

Capa do livro de Simone

E tome caminhada e passeios de ônibus pela cidade, muito bonita e cheia de atrativos. Das muitas igrejas, me chamou a atenção a Torre dos Clérigos, com seus 75 metros, cujo aspecto externo engana a quem acha que seu interior é pequeno.


Na foto Simone e Diogo e, ao fundo, a Torre dos Clérigos


Interior da Igreja dos Clérigos

O momento de pegar estrada se avizinhava e ainda não tínhamos feito a vontade da garotada. Já sabíamos que não seria possível a visita à sede do F. C. do Porto (o time estava viajando), mas fomos ao Estádio do Dragão:


O molecão, todo serelepe, num trecho da imensidão que é o estádio




As duas fotos acima foram feitas dentro da loja do F.C. do Porto. Tínhamos que comprar
uma 'camisola' de lembrança, né?

Muito mais havia - e há - para falar e mostrar da cidade do Porto, mas o espaço do blog está no fim. No dia seguinte ao da visita ao estádio pegamos estrada rumo ao sul.

Prometo não enrolar tanto para contar como foi.


Escrito por Rogério Veloso às 00h49
[] [envie esta mensagem] []


13/05/2013

A REFORMA

Nas últimas semanas eu andei mais chato que o Richard Clayderman interpretando Amado Batista. Normalmente o Dorival Caymmi perto de mim seria um cara estressado, mas tive que dar a ele alguns dias de licença prêmio, porque a coisa andou meio punk por aqui.

O problema começou com o mofo nos armários embutidos dos banheiros. O marceneiro confirmou nossa desconfiança de que era caso de perda total, e retirou os armários. Eliana e eu resolvemos radicalizar: ao invés de simplesmente encomendar novos armários, que tal dar uma reforma geral nos banheiros?

Primeiro foi o banheiro social. Já comecei meio mal porque queria substituir a porta convencional e absurdamente estreita (60 cm), por uma de correr, para permitir a entrada de uma cadeira de rodas. Que graça tem eu convidar um amigo cadeirante pra detonar umas ampolas aqui em casa, se na hora do xixo vai ser puro sufoco? Não deu sequer para substituir a porta por uma mais larga, porque a instalação elétrica estava logo ali na beirada, e havia uma coluna de seilaoquê que não me permitiria alargar o nicho da parede. Aquela coisa: o puto do construtor não fez o apartamento para a mãe dele morar.

No total dois banheiros, idênticos na planta mas que possuem uma diferença pequena nas dimensões, coisa de centímetros. Logo no primeiro dia isto aqui se transformou numa réplica reduzida da casa da família Adams, sem as teias de aranha. Um caos, escudado na trilha sonora produzida por uma criação do capeta chamada maquita, que também se encarregou dos efeitos visuais, na forma de um pó fino capaz de fazer o menino maluquinho* querer se mudar pra cá.

Eliana é alérgica; eu não era e fiquei. Depois que a dupla do barulho se mandava eu tentava dar um trato no chão de todo o apartamento antes que a madame chegasse do trabalho (sim, alguém tem que trabalhar nesta casa, ora pois!), porque aquele pozinho excomungado é igual a pernilongo, sempre acha uma brecha. Vedei todas as portas com panos umedecidos, e mesmo assim tinha pó até na cozinha. Além de emporcalhar a casa toda, o sacana também faz curva.

Tem uma coisa que me intrigou: como é possível uma pessoa estudar durante cinco ou seis anos, e cometer erros tão grosseiros na hora de calcular a metragem necessária de pisos e revestimentos? Cada banheiro tem algo parecido com 16 m2, a arquiteta conseguiu errar tudo. Após ser alertado pelo profissional que contratei para fazer o serviço, telefonei para a loja que me cobrou os tubos pelo material, projeto incluso. No início tentaram me convencer de que não houve erro, mas tiveram que reconhecer que faltaram três peças de piso e sete metros lineares de revestimento. "Tudo bem, é só vocês me mandarem o material que falta". Que babaca que eu sou... a resposta do lado de lá foi "tem um probleminha de estoque, precisamos pedir à fábrica, no Rio Grande do Sul. Deve chegar em 20 ou 30 dias". Budabariu nóis tudo!

Não sei se por vergonha ou por milagre, as peças que faltavam chegaram em cinco dias. A esta altura já estava sendo trabalhado o banheiro da suite, já que o que ainda faltava assentar no social seria afixado embaixo da bancada, sem maiores prejuízos além do estético. Até já tinha sido colocado o box de blindex, e o banheiro ficou tão chique e bonito que dava pena mijar nele.

O trabalho na suite me deu uma canseira adicional, porque o armário possui portas de correr. Para vedá-lo e proteger as roupas lá de dentro, tive que improvisar uma cortina de papel kraft fino, presa por fita adesiva. Um trabalho que provavelmente até boliviano da boca do lixo de São Paulo recusaria ganhando bem. A cama e os criados mudos eram protegidos por lençóis, coisa mais linda, parecia caminhão de palestino. E tome poeira e 200 decibéis da tal maquita.

Como não há mal que sempre dure, ao cabo de quase 15 dias (a previsão era seis), os dois banheiros ficaram prontos. O profissional que fez todo o trabalho, Delmir, junto com seu sobrinho-ajudante-aprendiz John Kennedy - aqui em casa não entra qualquer um -, é fera. Cobrou caro, mas estou para ver trabalho tão meticuloso e com resultado final de encher os olhos como o daqui.

Pretendemos, lá por 2014, substituir o piso de todo o apartamento, seguindo a tendência pequeno-burguesa de assentar um porcelanato. Ainda não definimos a época mas, considerando a subestimada capacidade de um reles banheiro de 16 metros quadrados produzir tanto pó, já temos a certeza de que durante as obras estaremos morando provisoriamente em outro lugar.

* Nada a ver com o personagem do Ziraldo


Escrito por Rogério Veloso às 18h06
[] [envie esta mensagem] []


08/04/2013

O IMPOSTO E A RENDA

Sempre achei estranha essa mania que o governo brasileiro tem de achar que salário é o mesmo que renda. Rezam as cartilhas de contabilidade, finanças e economia que renda é o resultado - que pode até ser negativo - de uma aplicação de dinheiro em determinado ativo financeiro. Ações, por exemplo, renda fixa ou até mesmo a popularíssima caderneta de poupança, além de aluguéis e outros investimentos. Salário é pra pagar moradia, escola e supermercado. Mas é bem mais cômodo para o governo pensar assim, porque abocanha na fonte e não tem que correr atrás de sonegadores que, não raro, financiam as campanhas políticas da maioria dos bandidos que habitam as torres gêmeas de Brasília. Não dá pra bater duro na galinha dos ovos de ouro, né não?

Estou aqui às voltas com minha declaração anual, feliz da vida porque a matemática do governo insiste em me cobrar quase três paus de impostos, apesar de eu ter pago um monte todo mês durante o ano passado. O problema é que tenho duas fontes de renda: o INSS, que me contempla com a merreca da aposentadoria, e meu fundo de pensão que complementa meu salário. Mais de uma fonte de renda é sinônimo de castigo aos olhos do leão.

O mais interessante nisso tudo é a forma 'diferenciada' com que o felino fedido trata os contribuintes. Quando na ativa eu recebia todo fim de ano participação nos lucros e resultados, a popular PLR, e logo de cara já deixava de lembrança 27,5% de IRRF para o engrandecimento da pátria. Por outro lado, um empresário - digamos o Antonio Ermírio ou o Eike - recebe os dividendos após o fechamento do balanço. Tecnicamente PLR e dividendos são a mesma coisa, uma gratificação pelos lucros auferidos pela empresa, mas há aí duas diferenças: a) os dividendos são isentos de imposto de renda; b) a PLR era coisa de R$ 5 ou 6 mil, já os tais dividendos contam-se na faixa das centenas de milhares ou até mais. Essa aberração encontra respaldo na lei, mas quem é que faz as leis, mesmo?

Ao apagar das luzes de minha carreira bancária, foi criada uma linha de crédito voltada para pessoas físicas de alta renda, só para a galera da coluna social. De vez em quando um ou outro aparecia na coluna policial, mas isto é outra história, o povo tem memória curta, o cara virava ministro e tudo voltava a ter ares de normalidade. Pois bem: o cabra dizia quanto queria de empréstimo e tinha que dar em garantia imóveis quitados em seu nome, a chamada garantia real, em valor superior a 120% do empréstimo. Uma operação como outra qualquer.

Ocorre que fui designado para auditar contratos da espécie. Por dever de ofício não vou dar nomes aos bois, mas deixo um exemplo dos muitos que vi: o cidadão, empresário, comprovou documentalmente uma retirada mensal a título de pro-labore no valor de R$ 40 paus. Apresentou a escritura de alguns imóveis residenciais e comerciais e uma calhamaço de contratos de locação e recibos, o que elevou sua renda mensal para prosaicas R$ 62 pilas (eu estive em Santa Catarina semana passada e aprendi a falar assim). Com um cacife assim, não teve nenhuma dificuldade em obter um empréstimo de quase um milhão. Nada a reparar, tudo certo, tudo legal, dentro do que preceituam os normativos internos e as boas práticas bancárias.

O que de fato me chamou a atenção foi a declaração de renda do pobre coitado, que estava inserida no processo. A Receita Federal não viu um único centavo do camarada, porque a renda declarada dele estava na faixa de isenção. Ironicamente a relação de bens, em valores históricos (não atualizados monetariamente desde a aquisição), batia em R$ 1,38 milhão. Eu daria o Nobel de economia, mágica ou cara de pau para o carinha, mas aí me lembrei que já caí na malha fina porque minha empresa informou para a Receita Federal valores divergentes daqueles que me passou para fazer a declaração. Por que a RFB foi tão rigorosa comigo e abre as pernas para o empresariado? Será que a galera da fiscalização trabalha na base da omissão remunerada? Os sistemas da Receita não cruzam informações para identificar esse tipo de aberração?

Eu até não me importaria de pagar tanto imposto, se a escola aqui do lado não estivesse depredada, se o SUS não vivesse numa situação de greve permanente, que se manifesta na falta de médicos e materiais básicos, se houvesse UTI neonatal nos hospitais públicos, se eu tivesse a certeza de voltar inteiro pra casa ao sair à noite para ir à padaria. Também seria legal se eu não tivesse que correr o risco de ser atropelado porque as calçadas não existem ou estão cheias de lama.

A mesma lama que insiste em manchar o currículo da imensa maioria daquela classe que deveria olhar por nós.


Escrito por Rogério Veloso às 23h31
[] [envie esta mensagem] []


02/03/2013

"MODO OPERANDIS"

Dia desses eu estava me dirigindo a uma clínica para fazer um exame de imagem, quando fui parado por uma blitz. Desliguei a moto, desci, catei a documentação e mostrei ao policial. O problema é que o cidadão primeiro cismou com os pneus, que disse estarem carecas. Expliquei a ele que não se tratava de uma Titan, era uma Ninja, que é equipada com pneus tecnicamente slick, embora apresente algumas ranhuras. Mostrei a ele que a moto estava com menos de 1.000 km rodados, o que tornava sem sentido a possibilidade de os pneus estarem carecas. Acabei convencendo o cara.

Quando achei que finalmente seria liberado para fazer meu exame, o policial disse que minha moto apresentava um problema elétrico, pois só um farol estava funcionando. Para ilustrar o post, coloco embaixo duas fotos:


Duas belezuras: o da esquerda sou eu; à direita, a Ninja 650R


Como é possível observar, a moto tem dois faróis.

A questão é que, por padrão, as motos com dois faróis só acendem o da direita quando baixos. Isto é universal. Somente quando é acionado o farol alto é que os dois faróis são acesos. Mr. guarda não sabia disso, e eu tive que exercitar minha paciência tibetana inexistente para aguardar que passasse no local uma moto com as mesmas características, para provar ao cidadão fardado que eu não estava nem irregular nem mentindo. Ao cabo de cerca de 10 minutos, surgiram uma Super Teneré e uma Suzuki. O policial fez sinal para que parassem e o cara da Suzuki quase foi preso por ter feito comentários botando em xeque a competência do policial.

O episódio me deixou meio constrangido, tipo vergonha alheia, mas ainda mais preocupado com o que pode estar acontecendo por aí nessas operações policiais. Nem é culpa do pobre do soldado, o fato é que ficou patente que não há o necessário preparo para que os agentes de segurança pública exerçam seu papel com qualidade. Não tenho queixas quanto ao tratamento que tive no tocante ao respeito e urbanidade, mas se não tivesse um mínimo de poder de argumentação, minha moto teria sido apreendida sem base legal.

Tive acesso anteontem a um vídeo que demonstra que, aqui pelas bandas do Goiás, a galera da farda não é muito íntima dos veículos de duas rodas. O vídeo deixa claro que é vergonhosa a ignorância dos agentes quando o assunto é motocicletas.

 

Falar o que mais?


Escrito por Rogério Veloso às 23h50
[] [envie esta mensagem] []


18/02/2013

VASECADO

Eu sou meio que desapegado das coisas, minha lista de ciúmes é bem pequena. Minha Eliana, meus filhos, minha Ninja linda, acho que são as paixões que mais me despertam esse sentimento impuro, coisa digna dos 'cães infiéis' na visão da galera da Al Qaeda.

Mas tem uma coisa - aliás, duas - que sempre me tiram do sério quando ameaçadas: em que pese eu não ser galinha, morro de ciúmes dos meus ovos. Pela fragilidade e delicadeza (quem tem sabe o quando dói uma pancadinha, por menor que seja), acho que a natureza errou feio ao não equipar os machos de uma couraça protetora ali, naquele ponto equidistante entre o Atlântico e o Pacífico.

A vida, porém, às vezes nos leva a fazer concessões. Eliana precisa fazer um tratamento meio doido de pele que, por um motivo ainda mais doido e por mim não compreendido, não pode rolar gravidez no período. Aí, entramos num acordo: já que não pretendemos mais ter filhos e uma esterilização para ela seria algo extremamente invasivo e com pós-operatório complicado, procurei meu urologista de estimação e marquei uma vasectomia.

Cheguei no consultório do Dr. Sérgio cismadão, porque alguém tinha me falado que o procedimento utiliza anestesia local. Se uma bolada já é uma coisa terrível, uma agulha seria algo bem próximo do inferno. A princípio a cirurgia seria custeada pelo meu plano de saúde, então tive que preencher alguns formulários em que afirmo que o procedimento será feito por minha livre e espontânea vontade, blá blá blá. Alguns dias depois fui informado pelo médico que o procedimento só poderia ser feito na modalidade 'particular'. Logo imaginei que o plano de saúde estava pagando uma merreca. Liguei lá e perguntei quanto pagavam pela vasectomia. O carinha que me atendeu perguntou "unilateral ou bilateral?" e eu fiquei atônito. Será que alguém faz meia vasectomia ou ele achou que eu era monobola? Aí fui informado que o plano pagava R$ 100,00 per capita (ou em bom latim, per bulla). Pensa: o cara estuda durante sei lá quantos anos para se formar médico, depois faz residência, especializações, e na hora de ser remunerado por um procedimento cirúrgico - que, como toda cirurgia, inclui riscos -, é oferecido o equivalente a uma despesa de rodízio com a família, 10% incluídos. Topei pagar os R$ 1.600,00 cobrados.

Por se tratar de uma cirurgia simples, o procedimento seria feito em ambulatório. No dia marcado cheguei com a antecedência pedida, fiz os chequinhos (um para o médico e outro para o anestesista) e logo fui chamado. Dr. Sérgio me apresentou o anestesista, fizemos algumas piadas, ele explicou que me botaria para dormir antes das agulhadas fatais, vesti aquele camisolão ridículo, que deixa a bunda de fora (alguém pode me explicar o porquê daquilo?) e me deitei com as vítimas para cima na maca cirúrgica.

O anestesista me aplicou uma intravenosa e em poucos segundos eu estava nos braços de morfeu. Acordei com a cirurgia ainda rolando, o ambiente estava tomado por uma risaiada desenfreada. O anestesista é um sacana inveterado, e estava oferecendo meu bilau para a enfermeira. Eu ainda estava grogue, mas notei uma pessoa estranha àquela turma que estava comigo até eu apagar. Vestido de médico, mais parecia um totem. Olhei para a figura, depois perguntei ao anestesista: o que foi que você me aplicou? Quem é esse ciclope de dois olhos?

O cara riu e me disse que era neurologista. Estava ali porque precisava da ajuda do Dr. Sérgio assim que ele terminasse o procedimento, e foi convidado a entrar e acompanhar a cirurgia. Disse também que mede 2,02m, mas não joga basquete. Boa praça, apesar de corinthiano.

Terminada a cirurgia, a enfermeira botou um esparadrapo sobre os pontos. Meu saco ficou parecendo uma placa de trânsito indicativa de alfândega. Fui orientado a retornar lá no dia seguinte, para verificação do curativo, voltei pra casa ainda grogue tendo Eliana como motorista, mas acabei não dormindo, como achei que deveria e merecia. Achei que seria mais produtivo terminar de ler um livro da Martha Medeiros que iniciei há um tempão e nunca arranjo tempo (aposentado sofre).

Meu retorno à clínica só serviu para a retirada do esparadrapo e as recomendações de praxe: três dias sem beber, cinco sem andar de moto e quinze sem o direito de reclamar de carência. Se sentisse dor - e doeu bagarái - eu estava liberado para tomar um analgésico. O resto se resolveria com o tempo.

Analisando a área, acabei concluindo que o Dr. Sérgio é um médico de catiguria, cirurgião de responsa, mas desconfio que andou matando algumas aulas de corte e costura.


Escrito por Rogério Veloso às 11h25
[] [envie esta mensagem] []


13/02/2013

ZERO-UM PEDIU PRA SAIR!

Não que isto vá afetar minha vida, para o bem ou para o mal, mas essa roída de corda do papa foi muito estranha, e deixa no ar a desconfiança de que tem coisas inconfessáveis nos corredores. Há quem acredite nas versões do cansaço, idade e sei lá o que mais. Tudo bem, respeito.

É claro que vai prevalecer a versão oficial, assim como prevaleceu aquela sobre a estranha e súbita morte de João Paulo I, alguns poucos dias depois que ele, em discurso, criticou a desnecessária riqueza do Vaticano e lembrou aos presentes que o mundo estava passando fome (não permitiram autópsia). Foi também nesse período, 1978, que a Caixa Ecumênica Federal, mais conhecida como Banco do Vaticano, perdeu 250 milhões de dólares em decorrência de ações fraudulentas praticadas pela galera da batina, juntamente com os mafiosos do Banco Ambrosiano. Teorias da conspiração afirmam que o 'Papa Sorriso' estaria disposto a passar aquela história a limpo, o que teria sido sua sentença de morte.

Já o Ratzinger, bora combinar, era de uma incompetência federal e entregou para os islâmicos e protestantes boa parte da clientela, por conta das posições ultra-direitistas adotadas. Condenou e desautorizou o casamento entre pessoas do mesmo sexo, proibiu o batismo de crianças adotadas por casais homossexuais (culpa por osmose, coisas da igreja), manteve e reforçou as premissas do Opus Dei, que sempre considerou a Teologia da Libertação uma grande audácia do Boff, ordenou que as pesquisas científicas com celulas-tronco fossem 'excomungadas'. Os chamados fiéis foram saindo de fininho, até que se notou o rombo na arquibancada.

Comentei recentemente com duas amigas, que pagaria caro para assistir a seu discurso, na África subsaariana, frente a centenas de milhares de infectados pelo vírus HIV, em que reafirmou a posição da igreja católica no sentido de que o uso de preservativos era pecado e, por consequência, proibido. O que mais me impressionou nisso tudo foi o fato de ele ter saído de lá ileso. Não levou nem meio cascudo.

Bem, como disse, a saída daquela nulidade da cara ruim (o olhar dele é igualzinho ao do Gargamel) em nada vai afetar minha vida, nem vai servir para estancar a sangria de fiéis. Quiçá os detalhes do ocorrido tenham alguma relação com um certo Tarcisio Bertone. Mas isto jamais será encontrado sequer no Google.

A merda é que as alternativas à tal sangria atendem por Macedo, Waldomiro, R.R. Soares e outros mercadores da fé, que viraram praga por aqui.

Na dúvida, continuo deísta.


Escrito por Rogério Veloso às 15h44
[] [envie esta mensagem] []


04/02/2013

LEI SECA E MÃO MOLHADA

Não sou formado em Direito, mas meu trabalho me levou a ter alguma intimidade com a matéria, a ponto de ter uma vaga idéia do que seja segurança jurídica. Segundo o Professor Fabrício Andrade, "(...) A segurança jurídica é um direito fundamental do cidadão. Implica normalidade, estabilidade, proteção contra alterações bruscas numa realidade fático-jurídica. Significa a adoção pelo estado de comportamentos coerentes, estáveis, não contraditórios. É também, portanto, respeito a realidades consolidadas. Onde está a previsão constitucional da segurança jurídica? No art. 5º, XXXVI, CF - "a lei não prejudicará o direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada". Matou, né?

Pois bom: estou tocando nesse assunto para falar sobre a tal Lei Seca. Antes que apareça algum xiita rabugento, é bom esclarecer que sou a favor da lei e até gostaria de ver o Aécio sendo algemado. Quando saio com a família para almoçar ou jantar fora, ou mesmo quando vamos a alguma festa e resolvo bebericar um chope, minha Eliana assume as funções de primeiro piloto e voltamos para casa a salvo. A questão é que esse 'a salvo' significa livre de eu ser tratado como bandido, porque cometi a suprema heresia de tomar um chope ou uma taça de vinho. Claro que quem encharca o esqueleto tem mais é que andar de taxi ou passar o volante para alguém que não tenha bebido, mas autuar alguém por ter feito um bochecho com cepacol já é um chute na inteligência de qualquer um.

Como a lei seca tinha pouca eficácia, e passou a ter ainda menos depois que o STJ decretou que só valem como prova de embriaguês o resultado do bafômetro ou exame de sangue, criou-se a versão 2.0, ocasião em que foi aumentado o leque de possibilidades, feito rabo de pavão, para enquadrar os elementos. Aí é que mora o perigo: inverteu-se o ônus da prova e o bafômetro/exame de sangue passaram a ser alternativas para o cabra provar que não está mamado. In dubio, pro PM. Isto porque passaram a ser consideradas provas suficientes o testemunho de terceiros (quem?) e registros do próprio agente policial, que é instruído a observar detalhes quanto ao comportamento do condutor: se demonstrar agressividade, arrogância, exaltação, ironia, dispersão, tá mamado e pronto.

Mas, pera aí: agressivo, arrogante, exaltado, irônico... estão falando do condutor ou do PM da blitz?

Bocas de Matildes dizem que a diminuição do teor alcoólico na nova redação da lei coloca no mesmo balaio quem tomou uma cerveja e quem chupou uma balinha contendo licor. Seria cômico. Seria.

A justificativa é a velha de sempre: a segurança do cidadão. O ABS (Anti-lock Break System) foi desenvolvido na década de 1970, e já nessa época a Ford e a GM (lá nos States, of course) implementaram esse recurso em seus veículos, o mesmo ocorrendo com o bom e velho airbag. Esses itens de segurança são obrigatórios por lei desde 1995 nos EUA e desde 1998 na União Européia. Não é estranho que essas mesmas montadoras estejam em solo tupiniquim há mais tempo do que eu e nunca, jamais, em tempo algum seus veículos nos foram oferecidos contendo esses itens importantíssimos de segurança? Não é ainda mais estranho que, mesmo sem isto os veículos que compramos são de longe os mais caros do mundo? Onde estavam esses caras que hoje querem nos proteger multando? Somente em 2014 haverá a obrigatoriedade de inclusão de airbag e ABS, e é bom destacar o excelente trabalho do Senado brasileiro, hoje presidido pelo grande patriota Renan Canalheiros, que demorou quase 10 anos para aprovar o Projeto de Lei do próprio Senado, que leva o nº 115, e é de 2004.

A preocupação das autoridades com minha segurança nas estradas é algo que me emociona. Tanto é que, da última vez que enfrentamos a estrada entre Goiânia e Anápolis, pedi a Eliana que fotografasse a belíssima paisagem que se desenhava a cada curva, extasiando quem nela trafega (te cuida, Pessoa!). O resultado é esse aí, ó: 


Fiquei apaixonado por esse matagal, que cobria boa parte das placas de sinalização


Essa coisa cheia de rachaduras aí é o que chamam acostamento. Deu pra notar que está brotando grama?


Quem não conhece acha que estamos ao lado de um morro. É apenas mato. Se algum dia resolverem aparar, eu mostro.

Assim que se chega ao perímetro urbano de Goiânia, a rodovia passa a ser ornamentada por simpáticos postes de luz, num trecho que deve ter cerca de 10 quilômetros, talvez mais. Há pelo menos dois anos passo por lá à noite e não há uma única lâmpada funcionando. Estou começando a desconfiar que esse papo de segurança do cidadão é conver$a.

Já que estamos falando de segurança, lembrei-me da última vez em que fui renovar minha carteira de motorista. Como se sabe, o principal é pagar as taxas e só depois é que os idiotas são encaminhados para o que parece ser um consultório, onde atende um senhor que parece ser um médico. Cheguei lá, cumprimentei o cidadão, ele me perguntou se eu estava me sentindo bem, eu respondi que sim, e ele me entregou o que parecia ser um laudo médico, me solicitando que repassasse ao atendente que me entregou a guia de recolhimento da taxa. ELE NÃO TOCOU EM MIM, nem no momento em que nos cumprimentamos, não me examinou, mas no tal laudo constava minha pressão (13 x 8, fiquei puto porque o normal é 12 x 7), meu ritmo cardíaco e a informação de que eu não só estava vivo, mas feliz e lindo.

Já vai fazer um mês que o zelador do meu prédio está de licença médica. Estava de moto, com a esposa na garupa, parado no sinal vermelho. De repente surge uma tresloucada que por algum motivo não parou e seguiu empurrando a moto a 10 km por hora. A esposa do Carlos conseguiu pular da moto, mas ele foi para o chão e a doida do carro só sabia berrar em desespero, parece que foi necessário que outra pessoa entrasse no carro e pisasse no freio. Algumas costelas e clavícula quebradas.

Seria bom se a gente pudesse fazer um acordo com essa gente, tipo "nós vamos continuar pagando impostos, aceitamos todas as imposições dessa lei (filosoficamente necessária, mas idiota na forma), aceitamos os sensores de velocidade a cada quilômetro. Por outro lado, os senhores vão parar de prevaricar e cuidar da manutenção das rodovias, seja na roçagem, iluminação e qualidade do asfalto, não vão mais permitir que buracos façam aniversário nas ruas da cidade, vão cuidar da limpeza urbana e iluminação pública, os Detrans vão entregar CNH só e exclusivamente para quem demonstrar que tem capacidade para dirigir, o que significa senso de direção, deslocamento, conhecimento das leis, sinais e placas de trânsito, com um carinho especial para o quesito 'controle emocional'. Também vão colocar profissionais responsáveis para avaliar a capacidade de continuar dirigindo de quem procura o órgão responsável para renovar sua licença. Ah, e se sobrar um tempinho, vão parar de roubar".

Acho que não estou pedindo demais. O fato é que me incomoda muito esse simplismo que é vendido (e, infelizmente, comprado pelos incautos) no sentido de que, no trânsito, só o que mata é bebedeira e velocidade. Enquanto prevalecer essa verdade artificialmente cristalizada pela repetição, os gestores públicos estarão liberados para tocar alegremente a indústria da multa e, pior, isentos de nos explicar por que nossas estradas contêm tantos buracos, por que algumas não possuem acostamento, por que somente uma minoria é duplicada enquanto construímos estádios, por que negligenciam tanto com a manutenção das rodovias e vias públicas e por que entregam carteira de habilitação para quem não demonstra condições mínimas sequer para cuidar de um jabuti.


Escrito por Rogério Veloso às 13h32
[] [envie esta mensagem] []


09/01/2013

NO MEU TEMPO...

Taí uma expressão 'nada a ver'. Não que eu não a use mas, quando o faço, a expressão precede a preposição de. By the way, semana passada eu deixei minha moto na revisão e acabei enrolando pelas dependências da concessionária, conversando com o encarregado do pós-venda, e de repente rolou o assunto aviação. Foi quando falei: no meu tempo de auditor, láááá no comecinho, eu costumava rasgar o país inteiro, pela Varig. Uma beleza.

Lógico que falei de fatos ocorridos há 25, 30 anos, quando viajar de avião era um luxo para poucos. Eu mesmo só viajava porque a empresa bancava, senão o caminho passaria necessariamente pela rodoviária. Após um par de anos apareceram algumas figuras emblemáticas.  

A primeira foi Rolim Adolfo Amaro, mais conhecido como Comandante Rolim, que revolucionou o relacionamento entre a companhia aérea e seus passageiros. Era comum vê-lo em Congonhas dando pessoalmente as boas-vindas aos clientes, que pisavam sobre um tapete vermelho que era apenas um tapete, mas fazia uma diferença dos diabos na hora de escolher com qual companhia viajar. A sala de espera da TAM em Congonhas, aliás, agraciava seus passageiros com música ao vivo da melhor qualidade, acompanhada de canapés e bebidinhas. Às vezes bate certa nostalgia. Rolim, que faleceu de forma trágica e pouco esclarecida em 2001, era um visionário. Após sua morte, a gestão da empresa caiu na boa e velha vala comum, a diretoria foi infestada por aquela galera conhecida como MBA disso e daquilo, o caldo entornou e, como não poderia deixar de ser, a TAM virou uma merda.

A segunda figura, menos digna de foguetório, foi Wagner Canhedo, que conseguiu o milagre de comprar a VASP sem desembolsar um centavo, e ainda descolou um empréstimo para não pagar pela empresa junto ao BNDES ou Banco do Brasil - não tenho certeza, só sei que não foi nem Bradesco nem Itaú -, além de combustível digrátis bancado pela Petrobrás (ou seja, por nós outros, babacas). Mesmo assim, por não primar pela honradez nem pela competência, a VASP faliu de novo. Canhedo, até onde eu sei, vai muito bem, obrigado. Os ex-funcionários, nem tanto. Em julho do ano passado Canhedo foi condenado a oito anos e oito meses de prisão por apropriação indébita (descontou a contribuição previdenciária no contracheque de seus empregados e não os repassou ao INSS, uma bagatelinha de cerca de R$ 40 milhões) mas, sabe como é, no Brasil velho pode ser filho da puta mas não pode ser preso. Canhedo está com 76 anos, deixem o velhinho em paz.

Aí rolou a terceira figurinha, esta estupidamente carimbada, chamada Nenê Constantino. Nenê é acusado de ser o mandante do assassinato de oito pessoas, entre as quais dois genros seus e os líderes comunitários Márcio Leonardo de Sousa Brito e Tarcísio Gomes Ferreira. Consta que os genros continuam vivos, mas os líderes comunitários não. Também foi acusado, após a Operação Aquarela, da PF, de integrar um esquema para burlar as normas do sistema financeiro brasileiro, com a ajuda do não menos fofo e querido Joaquim Roriz. O escândalo provocou a renúncia de Roriz ao mandato no Senado, em 2007. Constantino já tinha sido indiciado como mandante das mortes. Em março de 2012, Nenê passou a cumprir prisão domiciliar. Em agosto de 2012, o Superior Tribunal de Justiça revogou a prisão, mas determinou recolhimento domiciliar noturno e em fins de semana (informações da Wikipédia). Pois bem: Nenê Constantino é fundador da GOL, empresa cujo presidente atual é seu filho.

A Gol, aliás, aderiu aos ventos de modernidade que movem o mundo e resolveu cobrar pelo serviço de bordo. A empresa se autodefine como de baixo custo (pra quem?), e justifica a atitude dizendo que isto é comum nos EUA e Europa. Às fotos:


Na foto, o anverso do cardápio, onde consta que um sanduba mequetrefe custa dez paus, na promoção.


Verso do cardápio. Café solúvel a três paus, cerveja e refri a cincão. Preço de hotel.


Da sola dos pés ao cocuruto eu tenho um metro e 76. Na foto, meu erótico joelho empurrando a poltrona da frente.

Pode ter sido impressão minha, mas naquela viagem não se vendeu nada. A propósito, de baixo custo eu duvido, mas a baixa qualidade está garantida.

Viajei de trem e avião pela Europa no ano passado. Notei que há uma preocupação das aéreas com a qualidade, justamente pela forte concorrência dos trilhos. A malha ferroviária européia é enorme e praticamente permite o deslocamento por todo o continente, ou pelo menos pela parte que vale a pena, com rapidez, conforto e segurança. Talvez nossa diferença esteja aí.

Durante o chamado "milagre", nossos gloriosos generais comandantes eram capachos do grande irmão do norte, que precisava fazer frente à OPEP e vender petróleo para as colônias. Assim, ao invés de investimentos em ferrovias, como fizeram principalmente os europeus e asiáticos, o 'Brasil Grande' dos milicos se ocupava de encher o país de estradas e, assim, justificar a aquisição de gasolina, diesel e outros derivados de petróleo, além do asfalto para o tráfego de carros (americanos) e caminhões. Só não asfaltaram a Transamazônica porque a chuva diária não permitiu. É bom que se diga que o ex-presidente Juscelino Bossa Nova teve participação muito importante nesse processo que elegeu o "rodoviarismo" como principal modal no transporte de cargas, iniciado por Washington Luiz. Os milicos só continuaram a cagada.

A VARIG também quebrou devido a gestão temerária, e seus ex-empregados estão hoje, sem exceção, em situação de petição de miséria. A tal Fundação Rubem Berta conseguiu falir até a AERUS, um dos maiores fundos de pensão privados da época, e quem tinha direito à complementação dos proventos de aposentadoria ou pensão está no aguardo de decisões judiciais que se arrastam há décadas.

O que nos sobrou? Gol e TAM. Existem outras opções, como Passaredo, Trip e Azul, por enquanto quase nulidades que, se chegarem a crescer a ponto de incomodar as duas grandes, ocorrerá o mesmo que sucedeu à Webjet, que foi comprada pela Gol e pouquíssimo tempo depois foi desativada, seus empregados foram demitidos, os clientes sacaneados e as rotas incorporadas à empresa do Constantino Jr. Tudo sob as barbas do CADE, que estranho não ter sido convidado a dar explicações à sociedade. 

Está na moda culpar o PT (ou petralhas, como diz principalmente a direita paulista, que nunca engoliu o fato de um operário ser eleito presidente) até pela morte da Odete Roitman. Sugiro uma pesquisa sobre a época, as circunstâncias e, principalmente, os atores mãos-leves que levaram à quebra da Varig, da VASP e respectivos fundos de pensão. Não que eu morra de amores pelo PT, que para mim é uma decepção em forma de partido político, mas não dá para concordar com esses calhordas que desde sempre estiveram por trás de figuras como Maluf, Quércia e outras debilidades morais personificadas e bem nascidas da política brasileira. De quebra, seria interessante procurar entender por que não temos uma malha ferroviária que nos permita o escoamento da produção agrícola e o transporte de passageiros como há em outros países.   


Escrito por Rogério Veloso às 19h36
[] [envie esta mensagem] []


14/12/2012

BILLY, THE GUY

Hoje aniversaria meu amigo Billy Saga, um guerreiro do bem que, quando necessário, também sabe fazer cara de mau. Eu já o conhecia há mais tempo, mas só pude encontrá-lo pessoalmente há três anos em São Paulo, durante a Passeata da Superação de 2009. O carinha é presidente da ONG Movimento Superação SP, entidade criada em 2003 inspirada na percepção de um grupo então pequeno de pessoas, de que algo de articulado tinha que ser feito para que houvesse respeito às diferenças existentes entre as pessoas.

As diferenças a que me refiro não são sutis. São aquelas decorrentes de deficiências físicas, mentais ou sensoriais, que vararam os séculos determinando a segregação das pessoas pelo simples fato de destoarem do que era considerado padrão, por não conseguirem se locomover sem a ajuda de aparelhos ou expressar seus sentimentos de forma inteligível.

Em um programa da TV Cultura, Billy conta que acordou paraplégico após um acidente de moto. Na verdade ele estava parado no sinal e foi atropelado por uma viatura da polícia, mas vale a versão oficial de acidente. O fato é que, já na chegada de volta pra casa, ele deparou com uma escadaria e aí caiu a ficha. Viu que algo precisava ser feito, e brinca dizendo que foi picado pela mosca da utopia, ao avaliar que bastava uma única manifestação pública para que as barreiras fossem destruídas. Santa ingenuidade, Batman!

  
Na foto, Billy e eu, pouco antes de sairmos pela Avenida Paulista em passeata dia 02/12/2012


Na foto, Billy ao lado da figura ilustre de Adelino Ozores, advogado e Vice-presidente da Associação Filarmônica Santo Amaro

Por incrível que possa parecer, as barreiras arquitetônicas são, de longe, o menor dos problemas. Ainda persiste em nossa sociedade uma mentalidade com cheiro de mofo, que coloca as pessoas com deficiência como coitadinhos improdutivos, que devem permanecer em casa por serem doentinhos. A própria Previdência Social fomenta a babaquice, ao adotar o termo "invalidez" para um tipo de aposentadoria. Então, é necessário todo um trabalho de conscientização da sociedade, no sentido de convencer as pessoas a cuidarem de suas calçadas, os comerciantes a fazerem obras de adaptação que permitam que um consumidor montado numa cadeira consiga entrar em sua loja e, se for um bar ou restaurante, que tenha o direito de fazer seu xixizinho num banheiro adaptado. Esses mesmos empresários precisam acordar para a vida e observar que a deficiência não impede ninguém de trabalhar e ser produtivo. Eu tenho bons amigos deficientes, um é gerente de banco, outra é médica, tem também advogados, jornalistas, funcionários públicos, bancários. Todos trabalhando normalmente, nunca se pediu esmola mas oportunidade, igualdade. A pior barreira é, portanto, a do preconceito.

A passeata é sempre um espetáculo à parte, ocasião em que o Billy se municia de um microfone e, com seu talento natural para o discurso e a articulação, deixa aos transeuntes que não estão entendendo nada ante quantidade tão absurda de estropiados (como diria meu outro brother Jairo Marques), nosso recado no sentido de que é necessário o engajamento de todos para que haja igualdade de tratamento, onde já há igualdade de obrigações. Todos ali pagam, direta ou indiretamente, os abusivos impostos brasileiros. Não é justo, portanto, que sejam tratados como cidadãos de segunda categoria.

E essa farra toda é regada a muita música, vinda de um caminhão de som que nada fica a dever a um trio elétrico baiano. Em determinado momento Billy pega o elevador, assume seu posto e deixa fluir seu lado rapper. As letras são fortes, determinadas, diretas e, ao mesmo tempo, soam doces pelo caráter absolutamente pacífico da manifestação. Ponto para a prefeitura ou órgão correlato, que garantiu nossa segurança durante todo o evento, não só disponibilizando um batalhão de policiais de campo mas também de motociclistas, que garantiram que ninguém iria invadir nossa praia na Avenida Paulista.

E por falar em rap, saca esse aí:

Cadeirante-bomba é ótimo, né? Billy se esmera em construir boas letras e gosto particularmente de "As mesmas coisas", cujo link é esse aí, ó: http://vimeo.com/billysaga/asmesmascoisas.

Pois é, meu caro, esse discurso todo foi pra dizer que sou seu fã, admiro sua força, sua disposição à luta e confesso que às vezes me divirto com sua capacidade de incomodar a 'galera errada no lugar errado'. Ah, e também para lhe desejar, quase ao final do dia, um feliz aniversário. Mando daqui, via satélite, um daqueles nossos abraços fraternos e lhe desejo sempre muita saúde, porque sei que a luta é punk.


Escrito por Rogério Veloso às 22h34
[] [envie esta mensagem] []


29/11/2012

ORGULHO DA CRIA

As duas últimas semanas foram especialmente pesadas para o Lucas, principalmente semana passada. Prova todo dia pelo quarto bimestre, exame de faixas do karatê e participação no festival de futebol de que falei aqui, no post anterior. Tudo junto e misturado.

Lucas já obteve aprovação no colégio desde o terceiro bimestre, mas não para nem pode parar até que o ano letivo termine. O problema foi conciliar as outras atividades, cujos calendários em determinados pontos colidiram. Então, decidimos: o karatê era prioritário porque não admitia reserva. Isto redundou na ausência dele na partida do sub-9 contra o Goiás. Tudo bem.

Apesar dos brucutus do lado de lá, o sub-9A conseguiu o feito histórico de ir à final, ocorrida no sábado, dia 24. Na véspera houve o exame do karatê:

 
O filme mostra Lucas e seus colegas de academia realizando os movimentos exigidos pela prova

A prova prática consiste na realização de uma sequência de movimentos denominados katá (disseram que é assim que se escreve), numa simulação de luta combinando ataque e defesa. As aulas incluem a filosofia do karatê, que traz em si o paradoxo da não-violência. Eu acho o karatê muito legal, e faço votos que meu filho siga adiante.


Na foto, Lucas ao centro com o diploma conferido, a faixa vermelha, o pai babão de um lado e a mãe babona de outro.

O futebol no sábado foi o fechamento de um ciclo e, admito, fiquei aliviado quando acabou. O que eu temia acabou acontecendo, quando o time do Lucas entrou na quadra para disputar a final: o técnico adversário mais uma vez pisou no tomate e escalou garotos mais velhos, para garantir o troféu. Meu sangue outrora infectado subiu à cabeça e abusei da contundência ao protestar. De imediato o adepto da lei de Gerson recolheu o trem de pouso, colocou o time correto na quadra, o jogo terminou empatado e a decisão foi para os pênaltis. Lucas e eu sabíamos da possibilidade de haver pênaltis e no dia anterior treinamos à exaustão na quadra de casa. Quem me vê treinando o moleque acha que eu não gosto dele, mas ele reclama quando eu só chuto bola colocada. O cara é foda.

Bão, rolou pênalti e eu não filmei tudo, acabei me atrapalhando e perdi as duas primeiras cobranças. Mas dou o resumo: um gol pra cada lado. O resto vocês veem aí:

 
O filme mostra o Lucas fazendo duas defesas e garantindo o título. O Galvão Bueno gritando "Ah, moleque" e fazendo comentários cretinos sou eu.

Logo no primeiro dia de jogos Eliana e eu resolvemos que Lucas não mais participaria de torneios naqueles termos, sem controles, sem comprovação de idade, além de eu duvidar muito que a arbitragem seja federada. No dia do jogo tive a certeza de que seria a melhor decisão, depois que uma mãe me abordou - com educação, mas demonstrando estar ofendida - dizendo que tamanho não era documento, que meu protesto tinha forçado a exclusão de seu filho da partida e que me mostraria a certidão de nascimento dele. Duvidei que ele fosse de fato sub-9 e que a mãe me traria algum documento comprovando isso (se estava de fato dentro do regulamento, por que o técnico o sacaria do time?), mas me chateou viver momentos de uma quase animosidade com uma pessoa que sequer conhecia.


Escrito por Rogério Veloso às 11h11
[] [envie esta mensagem] []


21/11/2012

VALORES

Acho que, além da educação que tive a felicidade de receber de meus pais, o tempo e minha profissão serviram para aguçar essa fonte de sofrimento que sempre me acomete: não suporto desonestidade. Isto vale em qualquer campo, até em jogo de palitinho, daí o sofrimento. É claro que tem também seus bons momentos, e o melhor deles está ocorrendo agora, com a orgásmica dosimetria a cargo do STF.

Acabo de chegar em casa. Tiririca. Como ocorre pelo menos uma vez por ano, meu filho Lucas participa de um festival de futebol, que divide as crianças em categorias por faixa etária. Lucas é goleiro e está na sub-9. Por solicitação do treinador, aceitou atuar também na sub-11, como reserva, o que me deixou meio assustado mas não quis interferir.

Aí é que entra o problema: é nítido que alguns componentes dos times adversários (colégio x colégio) estão acima daquele limite estabelecido de idade. Não é admissível a cara de pau dos treinadores, que sustentam que aquele monte de cavalões tem a mesma idade de meu filho, e isto ocorre há pelos menos dois anos. No final de 2011, Luquinha estava no sub-8, o time dele levou uma goleada cujo responsável foi um único jogador adversário. Ou era filho do Schwarzenegger, ou não tinha somente oito anos. Depois do jogo, como havia a final, o garoto estava sentado na arquibancada aguardando. Cheguei como quem não quer nada, chamei-o pelo nome e perguntei quando ele faria 10 anos. Inocente como toda criança, me disse que já havia completado em novembro.

Terminados os jogos, chamei seu treinador para uma conversa. Soube que era o professor de educação física da escola. Perguntei, então, o que esperava de seus alunos no futuro, uma vez que estava fomentando neles uma prática que fere de morte valores como ética e honestidade. Ele se fez de desentendido, e eu tive que lembrá-lo de sua responsabilidade na formação moral de seus alunos, crianças que ainda nem entraram na adolescência. Como agirão na vida, com um professor ensinando que o que vale é a vitória a qualquer custo, mesmo a custa de mentiras? 

Estivemos hoje no ginásio do Goiás Esporte Clube, muito bonito, enorme. As dimensões oficiais da quadra meio que assustaram a molecada que não estava acostumada. Lucas participou do jogo do sub-11, amanhã estréia no sub-9 e já deu para perceber que a história vai se repetir. Lucas acabou jogando uma parte do segundo tempo, provavelmente foi uma tentativa do professor de familiarizá-lo com a quadra. O time dele perdeu de goleada.

Aqui em casa temos um ritual na hora do moleque ir para a cama. Eu o cubro de beijos, dou boa noite, ele reza com a mãe o 'Santo Anjo' e a luz é apagada. Hoje foi um pouco diferente: antes do ritual ele me perguntou se eu estava decepcionado com ele. Disse que estaria se ele tivesse agido com desonestidade ou sem seriedade, e que, na verdade, estava explodindo de orgulho por vê-lo atuar tão bem (e não vai aqui nenhuma corujice de pai, o carinha é bom mesmo). Finalizei dizendo que ganhar e perder fazem parte do jogo, e que o mais importante é que, ao sair de campo ou da quadra, a gente tenha a certeza de que atuou com dignidade. Pelo comportamento dele em casa e na escola, percebemos que estamos no bom caminho na tarefa de educar nosso rebento.


Escrito por Rogério Veloso às 23h14
[] [envie esta mensagem] []


12/11/2012

COGITO, ERGO PATIOR

Tá na Época desta semana, edição 756, mais precisamente na página 41 que traz a coluna de Felipe Patury, uma notícia que consegue ser preocupante e repugnante ao mesmo tempo. O título é "Uma bolada na Previdência", e trata da dívida dos clubes de futebol para com o INSS.

Pelo menos nisso meu Botafogo é campeão, seguido de perto por Flamengo e Fluminense, que fecham o pódium. Só o Fogão deve R$ 300 milhões, imaginem o tamanho do rombo até chegar no Ibis.

Mas não há males que sempre durem (no Brasil há malas que sempre duram), e a sugestão de solução partiu dos gabinetes da CBF, em conjunto com uma certa Confederação Brasileira de Clubes - que eu nem imaginava existir, deve ser uma reedição daquele conglomerado de Marcolas, digo, cartolas, que levava a alcunha de Clube dos 13, só que hipertrofiado por representar, segundo a reportagem, 13 mil pequenas entidades. A 'solução' é tão simples que me fez sentir um grande palerma por não ter pensado nisso antes: perdoe-se a dívida. Pronto, simples assim! Em troca - e é lógico que os cartolas, mais uma vez, vão mostrar que são pessoas honradas e cumprirão com sua parte - darão bolsas de formação a atletas.

Lindo, né? Nem o Nuzman seria capaz de uma tungada tão espetacular. Pensa, galera: se só o Botafogo deve $ 300 mi, imagina a soma de todos os clubes devedores, lembrando que todos os clubes são devedores. Nada que uma bolsa de formação de atletas, seja lá o que isso for, não resolva. Engañame, que a mi me gusta. A propósito, a mesma reportagem diz que o rombo representado pela dívida dos clubes de futebol supera os R$ 4 bilhões.

Bom, saiamos um pouco do mundo das idéias e bora viajar para o mundo real. Eu até nem queria voltar para a agência da Previdência Social onde travei verdadeira batalha para conseguir minha aposentadoria, mas será por uma boa causa: só para lembrar que lá constatei que os servidores não dispunham de caneta para trabalhar (compravam na papelaria, arcando com os custos), e que uma servidora teve que comprar a própria cadeira, porque a que usava se quebrou e não havia outra para reposição. Ah, também não podemos esquecer que nem todos os terminais de atendimento podiam permanecer ativos, porque o maquinário de suporte da Previdência Social (no mundo da computação são chamados de servidores) não possui capacidade para atender à demanda. Muito legal isso: existem na agência 15 computadores para atender os pobres diabos que procuram a Previdência Social, mas os 15 não conseguem conexão simultânea porque o servidor não tem capacidade suficiente para suportá-la. Equivale a usar uma bateria de 30 ampères num carro equipado com trio elétrico, sensor de ré, DVD, sirene e um sonzão de 10.000 watts, caixa de graves incluída.

Outro pequeno probleminha: falta gente para trabalhar. No momento em que constatei erros em meus dados cadastrais, agendei para dali a um tempinho a solicitação de conserto, ocasião em que compareci com cópias de todos os documentos exigidos. Na prática, era coisa para duas ou três digitações, mas demorou 13 meses. Má vontade da rapaziada? Não! O problema é que minha demanda era apenas mais uma dentre dezenas de milhares que estavam estocadas, à espera de um milagre.

Durante 36 anos e um mês contribuí com o INSS na qualidade de trabalhador formal. Pelo menos nos últimos 30 anos contribuí pelo teto que, hoje, beira R$ 4 mil, o que permitiria aos incautos, portadores de senso de justiça e demais bobões deduzir que eu me aposentaria recebendo os mesmos R$ 4 mil. Recebo exatos R$ 2.097,00 (tá, não é isso tudo porque o imposto de renda dá uma mordidinha), porque tem um tal Fator Previdenciário que só me permitiria receber integralmente meus proventos se eu aceitasse me aposentar somente quando não tivesse mais forças para respirar sozinho. Isto porque, diz o governo, é preciso combater o "déficit da Previdência".

Considerando todos esse problemas, dá para deduzir algumas coisas:

a) a Previdência Social precisa de dinheiro para investir na contratação e treinamento de pessoal.
b) a Previdência Social precisa de dinheiro para dar condições materiais de trabalho a seu pessoal.

c) a Previdência Social precisa de dinheiro para investir em melhorias, que ontem já eram urgentes, em sistemas computacionais.
d) a Previdência Social precisa de mais receita para que não se fale mais em déficit.

e) 
a Previdência Social historicamente possui gestores de merda, uma parte dada a falcatruas.

Talvez seja o caso de dizer o que não foi dito, quiçá por esquecimento, sei lá: os valores devidos à Previdência Social decorrentes de salários são descontados em folha, ou seja, previamente destacados para posterior recolhimento aos cofres do INSS por meio de guia de recolhimento própria. Isto significa que, se meu empregador descontou a parcela da previdência do meu salário e não fez o recolhimento, cometeu apropriação indébita, também conhecida como roubo. Os cartolas roubaram ao longo do tempo quatro bilhões de reais, e agora querem o perdão da dívida em troca de migalhas que, duvido, serão dadas a atletas.

Esse bando de lazarentos prega o perdão de uma dívida bilionária, nascida do crime.

Enquanto isso, os problemas que relatei lá em cima perduram. O caso é grave, porque o perdão da dívida não é somente mais uma idéia de jerico do Sr. José Maria Marin, atual presidente da CBF, de cujo currículo, dentre outras maravilhas, figura um mandato de vice-governador de São Paulo na gestão de um tal de Paulo Maluf. Está em curso uma campanha, meio que debaixo dos panos, para alcançar esse objetivo abjeto, indecente, nojento. Segundo a reportagem, há um grupo coordenado pelo deputado Vicente Cândido (PT-SP), que estuda o custo de cada bolsa e os prazos para que os débitos sejam quitados. Ou seja, pela redação da reportagem, o perdão são favas contadas.

(O título do post é uma brincadeira com René Descartes (1596 - 1650), que cunhou a célebre "Cogito, ergo sum", ou "penso, logo existo". Na pequena adaptação que fiz, a tradução mudou para "penso, logo sofro".)


Escrito por Rogério Veloso às 08h15
[] [envie esta mensagem] []


05/11/2012

NO AQUÉM DO ALÉM

Desde a mais tenra idade (vê lá se isso é jeito de começar uma crônica...), eu tinha a fama de ser o menino 'bonzinho', o bem comportado, o exemplo a ser seguido. Boa parte desse título honorífico devo ao meu irmão mais velho, já falecido, que era pra lá de atentado, o retrato mais bem acabado do cão chupando manga. Às vezes até quando era eu quem aprontava ele levava a culpa, já que a folha corrida dele no bairro era coisa de DOI-CODI. E eu, o santo, deixava que o cara se ferrasse, afinal ele já estava acostumado com os castigos que sempre dava um jeito de burlar. Na hora de apanhar, corria; se a pena era ficar sem ver TV, era só ir até a casa do vizinho na hora do Picapau. Minha mãe nunca deu conta de segurá-lo em casa.

A única coisa que eu tinha de realmente decente era a dedicação aos estudos. Ele, não. Então, quando rolavam os boletins, lá vinha a velha ladainha que também me dava nos nervos. Meus pais são de uma geração que não tinha conhecimentos sobre a alma humana, consequentemente não faziam idéia do quanto era prejudicial ao meu irmão (e o quanto me enchia o saco) essa comparação sistemática entre nós dois.

Meu irmão era pouco menos de um ano mais velho do que eu, jogávamos futebol juntos, brigávamos na rua juntos, nadávamos no rio juntos. Só que ele era o encapetado e eu o santo. Tínhamos lá nossas diferenças, eu era mais quietão, na minha, ele sempre atrás de encrenca e algo mais radical. Também me sacaneava adoidado e, na falta de algo mais divertido para fazer, me batia.

Na adolescência continuei com aquele estigma de cabra bom, apesar de aprontar todas e vez por outra tomar um porre. Namorava uma garota pra lá de doida, cujo apelido, derivado de seus cabelos ruivos e da, digamos, disponibilidade para um entrevero de ordem sexual, era foguinho. Foguinho era fogo, e acho que só não era brochante porque não existe nada brochante para um adolescente com o depósito de hormônios em vias de vazar. O problema é que ela inverteu a ordem das coisas e eu achava esquisito. Era comum os amigos chegarem com aquele papo 'adivinhem quem eu tô pegando'. A danada espalhou na vizinhança toda:

- Tô comendo o Rogério.

Acho que foi por isso que durou poucos meses: ela me tirou o que havia de mais precioso na vida adolescente da época, que era a suprema canalhice machista de contar para os amigos as aventuras de alcova, dando até o CPF da presa abatida. Meus amigos todos se divertiam nos contando (e aumentando, claro) suas conquistas, mas a Foguinho cortava meu barato e - pior - contava pra galera toda exatamente como aconteceu, demonstrando total falta de imaginação. Teve uma vez que nos aventuramos no carro do pai dela, na garagem de casa, o velho vendo novela na sala logo ali. Um sufoco dos diabos, se o milico (era sargento do exército) nos flagrasse talvez me desse um tiro. No dia seguinte, quando encontrei a turma para contar a aventura, eis que...

- Pois é, bicho, a Foguinho já contou pra gente. Transa doida, hein, cara, nas barbas do sarja!

Alguns dias depois estávamos juntos na rua quando começou a chuva, que logo virou temporal. Já estávamos encharcados, mesmo, ficamos brincando nas enxurradas, aquela água misturada com a terra vermelha de Brasília. Rolávamos naquela água suja beijando na boca, parecíamos um quebra-molas ambulante. Essa brincadeira do carinha sangue bom, modelo de comportamento, etc, etc, saiu caro.

Primeiro foi o mal-estar, aquela vontade de não fazer nada, e em seguida veio a febre. Logo de cara já beirou os 40 graus e meu pai me levou até o Hospital de Base de Brasília (também conhecido como 'Te cuida, Tancredo!'). Chegamos à área destinada ao atendimento de consultas, esperamos, esperamos, até que meu pai obteve a informação de que só havia (aliás, haveria, porque ainda não tinha chegado) um médico atendendo. Na minha frente, umas 50 ou 60 pessoas. Olhei para o velho e disse que não queria esperar. A febre não me tirava só a fome e a disposição física; a paciência também tinha subido no telhado.

Era fim de ano e estávamos com viagem de férias marcada para São Paulo, onde passaríamos o Réveillon com meus tios e primos. Resolvemos, então, fazer a consulta em Sampa, já que meu pai trabalhava para o Estado e eu seria atendido no Hospital do Servidor Público. Fomos de fusca, 1000 km de estrada.

Chegamos na paulicéia dia 21 de dezembro e fomos direto para o hospital. Como minha febre estava bastante alta, tomei uma injeção de novalgina, aliás uma delícia, colheram sangue e uma meleca da garganta. Conforme as instruções, retornamos ao hospital dia 27 e por lá mesmo fiquei. Fui encaminhado diretamente para o 15o. andar, área de isolamento especialmente destinada aos sortudos contemplados com doenças infecto-contagiosas. Meu diagnóstico: febre tifóide. O nome é praticamente uma sentença e, de fato, quase mifóide.

Minha rotina diária era ficar à toa, trancada num apartamento de hospital cuja porta tem um visor quadrado de vidro. Eu estava terminantemente proibido de sair dali. Só me lembro do nome da médica porque ela era bonitona: Dra. Heloisa. Muito simpática, também, e me contou tudo sobre a doença e as formas possíveis de contágio. Quando soube da enxurrada, não conseguiu conter o riso. Desde o início eu sabia que tinha contraído uma doença bacteriana causada por um bichinho chamado Salmonella enterica typhi - lindo, né? - e que era grave.

A porta só não foi trancada porque regularmente eu recebia a visita de uma enfermeira munida de uma seringa, para minha alegria. Mas a pior delas era a das cinco da manhã. Pensa num mix de voz, algo como a junção de Maria Alcina com Angela Ro-Rô, que já me acordava com seu andar rápido, resoluto e barulhento (acho que usava salto) e entrava no apartamento sem frear na curva, no embalo que estava no corredor. Para me despertar de vez, falava delicadamente: ROGÉRIO, BOM DIA! Eu sempre me lembrava do sargentão, pai da Foguinho, quando a enfermeira entrava no quarto. É lógico que a injeção dela era a mais dolorida.

Acho que meu tratamento não obteve muito sucesso na primeira semana, porque fui examinado por diversos médicos, em alguns dias mais de uma vez, e ainda me levaram para fazer uma série de exames de imagem. Eu me sentia a cada dia mais fraco. Naquele período, se a Luiza Brunet me dissesse 'vem cá, meu bem', acho que choraria copiosamente.

Havia uma enfermeira que me fornecia jornais, livros e revistas. Costumava chegar logo após o almoço. Naquele dia não consegui almoçar e estava zanzando pelo quarto quando ela chegou. É a última coisa de que me lembro, porque só fui acordar três dias depois. Não sei se cheguei a ser levado para a UTI, mas acordei no mesmo quarto onde estava.

Nesse período de inatividade corporal a mente continuou ativa mas com um comportamento absolutamente doido. A não ser que alguém aí ache normal bater um papo com a rainha da Inglaterra, rasgando um inglês que nem sabia que dominava. Ela me disse que eu tinha sotaque de irlandês, e eu dando esporro na véia. Vez por outra encontrava um amigo de Brasília, invariavelmente com cara de sono, e colocávamos os assuntos em dia. 

É lógico que perdi qualquer noção temporal e espacial naquele estado. Parecia que o tempo ia longe, e de repente as imagens começaram a perder cor e nitidez, sendo dominadas por um branco que - desconfio - nem o Omo consegue. Tudo branco, silêncio absoluto, sentimento de paz igualmente absoluto, eu me vi deitado na cama com pés e mãos atados à grade, uma visão do ponto de vista do teto. Depois não mais me vi e sentia meio que flutuando. Aos poucos fui readquirindo alguma nitidez naquilo que achava estar enxergando, e percebi paredes e teto, como se estivesse em um túnel. Lá na frente uma luz bem fraquinha.

Talvez caminhar não seja bem o termo, mas me movimentei em direção à luz, movido pela curiosidade. Vez por outra ouvia um ruído, um sussurro, mas não consegui identificar de onde vinha nem compreender o que era sussurrado. Súbito, resolvi que não queria mais seguir adiante e dei meia volta. Minhas recordações param por aí.

Quando acordei estava cercado de gente de branco, Dra. Heloisa com a mão espalmada em minha testa, braços e pernas amarrados nas grades da cama, exatamente como me vi. Perguntei: qual de vocês é São Pedro?

A doutora me falou que fiquei apagadaço durante cerca de 60 horas, e que tiveram que fazer uso de medicamentos fortes para conter minha agitação. Eu tive uma hemorragia interna muito braba e recebi reposição de sangue por via intravenosa. Olha a hepatite C aí, gente!

Durante 16 dias estive hospedado no 15o. andar do Hospital do Servidor Público de São Paulo, de 27 de dezembro de 1979 a 11 de janeiro de 1980. Esculachei o réveillon da família toda. Aliás, mesmo nos dias em que estive fora de sintonia, meus pais me visitaram. Quem conhece São Paulo, sabe a viagem que é o deslocamento entre Guaianazes e o hospital, que fica na Av. Ibirapuera, em Moema.

Devido à experiência esquisita que tive e relatei a algumas pessoas, fui aconselhado a ler artigos ou livros falando sobre NDE, sigla para Near Death Experience, ou experiência de quase morte, quando resolveram, anos depois, publicar algo sobre o assunto em português. Muita coisa bateu com o que vi e senti, mas não vi muito sentido em buscar sentido onde as coisas não fizeram o menor sentido. Honestamente, tô me lixando neste momento se há vida após a morte; me interessa muito que haja vida antes da morte. Depois a gente vê como é que fica.

Durante meu período de transe, ouvia uma música - talvez vinda do clube em frente ou do quarto ao lado - cantada pelo Erasmo Carlos e falando de paz. Ao longo dos anos achei que aquilo tudo fizesse parte do pacote de doideiras que experimentei no período, e que a tal música não existisse de verdade. Por obra do acaso, tive contato com essa música há cerca de três semanas. Sim, ela existe, é de autoria do grande maestro Antonio Adolfo e se chama "Leve como o vento". Um arranjo simples e bonito, uma letra singela e aparentemente despretensiosa, mas que as circunstâncias tornaram para mim uma música muito especial. 

Meu namoro com a Foguinho acabou por extinção não verbalizada. Como não retornei no dia previsto, ela arranjou outro para acompanhá-la nas doideiras dela. Particularmente achei muito bom, porque futuro ali, para nós dois, era algo completamente fora de cogitação.


Escrito por Rogério Veloso às 15h39
[] [envie esta mensagem] []


22/10/2012

A SEGUNDA DOSE

Eu tenho uma boa amiga, carioca de nascimento e paulistana de coração, personalidade forte e nome um pouco diferente. Uma amiga querida, com uma história de vida que também é um pouco diferente mas, antes de tudo, muito rica.

O nome dela é Lakshmi. É claro que dá preguiça de falar isso tudo, então a chamamos Lak. Lak Lobato. Fotógrafa, cronista, blogueira, escritora, redatora, publicitária. Esposa do Edu e dona de um bichinho parecido com coelho chamado Antunes. Minha amiga.

Eu já andei falando dela aqui e aqui, e o assunto de hoje tem tudo a ver com os anteriores. Digamos que são cenas dos próximos capítulos.

Só pra recapitular, Lak perdeu a audição aos 10 anos de idade, tendo permanecido surda até os 32. Nesse período cresceu, estudou, formou-se, casou-se e, lá um belo dia, submeteu-se a um procedimento médico denominado Implante Coclear, IC para os íntimos, uma técnica cara e relativamente nova, que o SUS resolveu bancar. O objetivo era nada menos que devolver à Lak o direito de ouvir.

Esta semana minha amiga comemorou o 3o. ano de implante, mas vou deixar que ela mesma explique:

Esse vídeo foi produzido quando ela completou o segundo ano de implantada. Lak optou pela oralização, então sempre nos comunicamos sem o uso da língua de sinais, que nenhum de nós dois conhece. Eu ouvia e entendia o que ela falava, e ela entendia o que eu falava lendo meus movimentos labiais. Simples, né? É estranho mas, depois do IC ela voltou a ouvir, mas seu maior desafio é a voz humana. Pensando bem, a fala é de uma complexidade monstruosa.

Estou novamente escrevendo sobre minha amiga, porque ela está a pouco mais de 48 horas do procedimento de ativação do segundo implante coclear, que foi realizado recentemente no outro ouvido. A torcida é que tudo ocorra ainda melhor do que na primeira vez, até porque há bons ingredientes para que isto aconteça. Por padrão, o primeiro IC é feito no ouvido mais prejudicado, com menor resposta acústica. Já o segundo, que geralmente é arrancado a fórceps do SUS, tem chances de resultados melhores e mais rápidos, até em função do 'treinamento' cerebral decorrente do primeiro implante.

Estou aqui falando só do SUS, mas os planos de saúde também vêm bancando o implante coclear, o que é uma conquista suada dos surdos e deficientes auditivos que possuem indicação médica para o procedimento (nem todos os casos são indicados para IC, mas há outras alternativas).

Pois é, Lak, dia 25 tá aí e nós, que compomos o círculo do bem e comemoramos as conquistas e vitórias de todos os participantes da confraria (não me esqueço das mensagens gostosas que recebi, inclusive de você, quando me livrei daquele vírus cretino), estamos aqui na certeza de que tudo ocorrerá conforme o planejado.

Para você não encarnar Pollyanna Moça e começar a achar que o mundo é perfeitinho que só, prometo levar para você um CD do Gustavo Lima e outro do Luan Santana quando for a Sampa, provavelmente em dezembro.

Não é para escolher; pode ficar com os dois.


Escrito por Rogério Veloso às 23h21
[] [envie esta mensagem] []


20/10/2012

A LIBERDADE OBRIGATÓRIA

Sempre achei bizarra a lei que obriga o caboclo a votar. Ora, se o voto é um direito, por que é obrigatório exercê-lo? A questão é que a aglomeração de malfeitores travestidos de candidatos por metro quadrado está de tal maneira avassaladora e - pior - a população está cada vez mais velhaca com esse estado de coisas, que ninguém se arrisca a tornar o voto facultativo. O risco de faltar babaca pra votar em bandido assusta toda a quadrilha. Deixa quieto.

Particularmente estou com pena dos meus conterrâneos. Pra quem não sabe, nasci no Brás, terra de Adoniran e da garoa, Avenida Paulista, Bixiga e Itaquera. Aqui no Goiás, onde vivo desde 1981, as eleições já são fato consumado. Acabou sendo reeleito o atual prefeito, que é um merda, mas não havia opção menos ruim. Por via das dúvidas, votei nulo.

Já na paulicéia cada vez mais desvairada, rolou segundo turno. Haddad contra Serra. Meda...

Deixei hoje um recado no blog do meu amigo Jairo Marques, lá da Folha de Sumpaulo, chamando o Haddad de 'suco de H2O', uma espécie de versão petista para o picolé de chuchu, apelido que imortalizou com justiça o pobre do Alckmin. O problema que de fato incomoda é a falta de perspectiva do paulistano. Por um lado o Haddad, cuja maior façanha é ser ex-ministro da educação, ou seja, praticamente uma abstração num país de analfabetos funcionais, em cuja gestão não diminuiu o percentual de analfabetos funcionais. Por outro lado o Serra, que sempre me lembra Tom Jobim. Não pela genialidade, mas pelo 'Samba de uma nota só'. Quando foi candidato a presidente, bateu na tecla dos genéricos; agora, candidato a prefeito, bate na tecla do mensalão. Não se mostra capaz de uma campanha efetivamente propositiva, isto sem falar daquele jeitão elegante de defunto insepulto.

A coisa estava ficando meio monótona até que pintou um clown da hora, ridículo da cabeça aos pés, chamado Silas Malafaia. O cara é pastor de uma congregação evangélica dessas aí, e como a maioria de seus pares rasga um discurso que considera moralizante, mas que na realidade constitui um ode ao preconceito. Estimula o ódio contra uma parcela da população que vem sofrendo violência moral e física em todo o Brasil, com destaque para os fatos divulgados pela imprensa envolvendo agressões ocorridas na Avenida Paulista e imediações. O discurso é francamente homofóbico, o que é estranho quando saído da boca de um "homem de Deus". Malafaia disse publicamente que os cristãos deveriam “baixar o porrete” e “entrar de pau” contra os participantes da Parada Gay em São Paulo, apóia Serra e promete arrebentar em cima de Haddad.

Estranho que os conceitos de moralidade da criatura são relativos, se considerarmos que ele não tem o menor pudor em meter a mão no bolso dos pobres diabos desempregados que frequentam sua igreja, iludidos pela promessa batida de "céu na terra" que dá o tom de sua pregação. Causa asco a falta de caráter desse falso profeta que se diz pastor, ao demonstrar não ter a menor compaixão pela situação aflitiva de um desempregado-que-mora-de-favor, ao exigir contribuição com sua igreja para que Deus 'aja' em seu benefício.

Resta saber se o Serra, se eleito, também vai ter que contribuir com uma 'semente' para que 'o Senhor' abra as portas para a realização das obras necessárias à população.

Particularmente estou com pena dos meus conterrâneos. Ah, eu já tinha falado isso, né?

Pois é...


Escrito por Rogério Veloso às 00h21
[] [envie esta mensagem] []


17/10/2012

ALGUÉM, POR FAVOR, ME EXPLIQUE!

Falei no último post sobre a homenagem que recebi dos antigos colegas de auditoria da CAIXA, por ocasião da minha aposentadoria. No texto, citei os colegas a quem chamei de 'galera dos cabelos brancos', sobre a qual recaem - e acho que é normal - minhas lembranças mais queridas, uma vez que as circunstâncias que nos levaram a dividir trabalho, hotel, ônibus e avião eram muito menos favoráveis do que nos dias atuais. Nós sofremos um bocado em cidades cujo acesso a partir da capital não tinha a menor regularidade, e lá chegando constatávamos que não havia um hotel minimamente decente e seguro para descansar o esqueleto. No trabalho, as dificuldades se concentravam no atraso tecnológico que enfrentávamos. Nos anos 1980 e até parte dos 90 não dava para comparar os recursos disponíveis e oferecidos pela CAIXA e pelos 'bradescões' da vida, porque havia uma certa lei de reserva de mercado de informática a garantir o lucro dos bancões. Lógico que isso forjou milionários que agiram o tempo todo nos bastidores, jogaram contra o próprio time pois eram agentes do governo e, espero, um dia prestarão as devidas contas ao capeta.

Nós, que hoje somos a galera dos cabelos brancos, nos destacávamos do resto do grupo por sermos chatos até a medula, implacáveis na arte de apontar o dedo e nunca gostamos de ladrão. Isto nos rendeu apelidos que, com o tempo, foram sendo atualizados. Os mais saborosos são pitbulls, empedernidos e demônios. Quem nos apelidava não fazia a menor idéia do orgulho que nos proporcionava, pois nos dava a exata idéia do quanto nossas ações incomodavam aqueles meninos mal intencionados, que na maioria das vezes chegavam de paraquedas. Nós, outros, éramos concursados e defendíamos quem nos garantia o salário no fim do mês. Eu costumava dizer que, no dia em que rolasse um elogio lá de cima, eu ficaria preocupado e incomodado. 

Tínhamos outro diferencial: estávamos sempre ligados a notícias externas, mesmo àquelas que não nos afetavam diretamente mas envolviam Economia, matérias de Direito, mercado de capitais, política. Essa garotada de hoje está mais interessada em coisas menos chatas, e avalio que houve um empobrecimento no espírito do povo, apesar do enriquecimento curricular com tantos MBAs, mestrados, doutorados e quetais. Essa preocupação limitada a títulos às vezes tira o foco do mundo real, também conhecido como mundo cão.

Como de hábito, fiz esse tratado todo para abordar um único assunto. Recebi hoje de meu parceiro Jairo Dantas, aquele-que-tudo-sabe como costumo me referir a ele, um e-mail preocupante e, mais do que isso, instigante. Além de bom amigo, Jairo é dono de uma inteligência notável, bom papo, ótimo caráter e motivo de inveja a mais negra possível (falo por mim) por sua oratória poderosa, do tipo que lhe permite chamar o interlocutor de filho da puta usando sinônimos insuspeitos e palavras sóbrias, ditas com a serenidade de quem toma o chá das cinco. Sempre me faltou esse talento, essa calma.


Meu brother, parceiro e cúmplice Jairim

O e-mail que ele me mandou trata da reserva de nióbio existente no Brasil, e as concessões criminosas que ocorrem há mais de três décadas, sem que se tomem providências. Separei dois vídeos, ambos meio compridos (quase 10 minutos cada), mas que peço não só assistir até o final como repassar para outras pessoas. Algumas informações contidas nos vídeos explicam coisas que até então eram mistérios para mim - por exemplo, por que em determinados locais do extremo norte brasileiro, chamados de reservas, não é permitida e entrada de brasileiros, mas são de livre acesso a ONGs estrangeiras.

Bem, os vídeos falam por si e estão no youtube, cujo endereço informo logo abaixo de cada um.

 


Youtube: http://www.youtube.com/watch?v=YRuHMopKkfc&feature=em-uploademail-new

Arrematando:


Youtube: http://youtu.be/a2AEeIpvXwE

Em tempo: não sei se foi por ato falho ou forçação de barra partidária, mas a figura do Lula neste segundo vídeo não significa que essa bandalheira tenha começado com o governo do PT. O buraco é bem mais embaixo e tem a cor verde-oliva. Não estou aqui para defender ninguém, principalmente quando todos são culpados, mas as fotos têm que começar com a cara feia do Figueiredo, passando por Sarney, Collor, Itamar, FHC, Lula e Dilma.


Escrito por Rogério Veloso às 22h51
[] [envie esta mensagem] []


12/10/2012

UMA HOMENAGEM LEGAL

Na época em que eu precisava trabalhar para viver, tinha que aturar todo final de trimestre uma reunião, apelidada de forma criativa e carinhosa de Reunião Trimestral. Não que fosse desnecessária, longe disso, mas havia aqueles momentos 'enchimento de linguiça' que davam nos nervos. Em breve resumo, o objetivo da reunião era juntar toda a turma numa sala de reuniões enorme ou no auditório, avaliar os trabalhos realizados e respectivos (ou eventuais) resultados práticos durante o trimestre que se findava, aferir o cumprimento das metas estabelecidas pela administração central em Brasília e planejar os trabalhos para o trimestre seguinte. Simples assim.

Essas reuniões também tinham seu lado ótimo, já que sempre fomos um time cujo estado normal é desfalcado. Não que alguém estivesse suspenso pelo terceiro cartão amarelo ou no departamento médico, mas porque nossa região é enorme e os auditores estão sempre viajando. Então, em que pese sermos uma equipe, quase não nos víamos. Isto sempre foi motivo de descontentamento geral, porque nossas relações jamais se restringiram às atribuições profissionais. Sempre houve amizade entre a maioria de nós, e a reunião trimestral era a oportunidade que tínhamos para botar as fofocas em dia. Tornou-se sagrada a saída em comitiva numa das noites, rumo ao boteco mais próximo para cometermos os pecados da carne e do álcool, ocasião em que aproveitávamos para fazer uma roda de música, que ia do pagode ao sertanejo e não era surpresa quando rolava um Beethoven.

Perdi as duas últimas reuniões trimestrais. A primeira por estar em férias, e a segunda por já estar aposentado. Nos últimos anos a formatação das reuniões já tinha mudado muito, e os assuntos eram debatidos e esgotados em dois dias. Na noite do primeiro dia rolava a reunião proteico-etílica, geralmente num restaurante previamente reservado, na casa de um dos colegas ou na sede da nossa associação de pessoal, que conta com um bistrô bem legalzão.

Pois bom: a atual gerente da mundialmente conhecida AUDIR/GO, que também atende pela alcunha de Auditoria Regional Goiânia, minha amiga querida Márcia Amina, fez um pacto comigo no dia em que nos conhecemos: eu vou com a sua cara e você com a minha. Essa combinação vigora até hoje, e achei que fosse por isso que ela tinha me convidado (convocado?) para a festa noturna da última reunião trimestral, ocorrida no bistrô da nossa associação de pessoal. É claro que fui, era uma oportunidade para rever os colegas e festejar o trabalho, a aposentadoria, a casa nova, o carro novo, o bebê que está a caminho, a promoção, enfim, reverenciar a vida de acordo com a realidade de momento de cada um.


Marcinha, aquela que se livrou da chatice de ser minha chefe, e eu

Só que a coisa não era bem assim: logo de cara percebi que tinham armado alguma para mim, pois alguém deveria (Eliana, por exemplo) ter me informado que a reunião contaria com a presença ilustre de minha professora Jane, que trazia a tiracolo seu piano eletrônico e Armando, meu brother e parceiro de tantos palcos, shows, recitais e festivais. Quando entrei no recinto, foi aquela algazarra, meio que comemoração de gol, e aí percebi que tinham reservado um espaço na 'agenda' do evento para minha solenidade de despedida.

Aquele bandidoido produziu e exibiu um vídeo entrelaçando imagens, fotos e textos de tal forma delicado, que eu me senti abraçado. Sabia que estava entre amigos, alguns com mais de duas décadas de trabalho ombro a ombro como costumamos falar, mas ainda assim eu me senti homenageado de uma forma tão saborosamente carinhosa, que sentia o coração às vezes acelerar. Pedi cópia do vídeo produzido, porque para mim já nasceu como um bem precioso a ser guardado com carinho, principalmente porque o que ficou mais evidenciado foi o respeito dos colegas, desde a galera dos cabelos brancos até os mais novos, que vão trilhar os caminhos que trilhei, naturalmente com mais gás e ferramentas mais modernas.

A aparente gang de desocupados ainda teve tempo de produzir um álbum de fotografias as mais diversas e enfocando situações também diversas, em cada página uma foto e comentários, alguns jocosos, outros emocionados, e todos iluminados. Tenham a certeza de que já está tudo guardado bem aqui, muito além de dispositivos eletrônicos que podem facilmente se perder. O que marca o coração é lá que fica, pulsando junto. 

Em tempo: em caso de problemas na abertura do video, plano b: http://youtu.be/kLpTwtbQWkQ, ou http://tvuol.tv/bbc57v


Escrito por Rogério Veloso às 00h41
[] [envie esta mensagem] []


09/10/2012

TOLINHOS!

Deu na Folha de Hoje

09/10/2012-03h30

Acordo encerra CPI do Cachoeira sem investigar políticos

ANDREZA MATAIS
DE BRASÍLIA


Demorou para o Brasil voltar ao normal. A revista Época desta semana, edição 751, traz extensa e bem trabalhada reportagem sobre o que seria a sinalização de uma mudança de paradigma no País, baseada no julgamento em curso no STF dos envolvidos no chamado Mensalão. A impressão depreendida foi no sentido de que a onipresente impunidade teria sido ferida de morte, além da observação de que, finalmente, alguém chegou à conclusão de que se há um corrupto também haverá um corruptor, e ambos devem ser julgados e punidos.

A esperança – que eu nunca tive, mas sou um pessimista, me concedam esse desconto –, era no sentido de que a postura de nossa Suprema Corte poderia inspirar e influenciar desembargadores e juízes de instâncias inferiores.

O caso Cachoeira acaba de ir para o esgoto, onde vivem seus implicados. Segundo reportagem da Folha de hoje, um acordo entre o PT e o PMDB determinou o encerramento da CPI do Cachoeira “sem levar à frente investigações que poderiam elucidar o envolvimento de políticos no esquema do empresário Carlinhos Cachoeira”.

Os dois partidos estão à frente da comissão – quando se fala em partidos e comissão, a gente nunca tem certeza do significado exato da segunda palavra – e acharam mais prudente tirar as balas do tambor quando perceberam que poderiam detonar os próprios pés. Nada como um bom período de descanso durante as eleições para criar juízo e perceber que quem tem telhado de vidro tem medo.

O problema de o Brasil voltar à normalidade é o paradoxo que isto encerra. Significa que o País retornará à sua vidinha pacata de sujeito sem caráter, que vive à custa de golpes, na contramão dos padrões de normalidade dos países civilizados. Ao resolver encerrar uma CPI que sequer ganhou o merecido destaque na mídia, sepulta-se a oportunidade de buscar a verdade sobre as ligações perigosas e peçonhentas de jornalistas e políticos com os ‘negócios’ do (risos) empresário Carlinhos Cachoeira.

Nesse conjunto de interesses diversos, devido ao pavor do estrago que o eventual depoimento de um Luiz Antonio Pagot da vida poderia causar nos corredores palacianos e entre congressistas, o melhor mesmo foi fazer vistas grossas à infidelidade da mulher, botar o Ricardão pra correr e jogar o sofá fora.

Época menciona o jurista Luiz Flávio Gomes, que sentenciou: “Não podemos nos iludir que uma sentença vai mudar uma cultura”. É bom lembrar que o ministro Lewandowski absolveu o Zé Dirceu por ‘insuficiência de provas’. Deve ser a isto que o jurista se referiu quando falou em cultura. Se o Zé tivesse arrancado uma casca de árvore para fazer chá, aí a coisa ia ficar feia para o lado dele, mas chefe de quadrilha pega no máximo trabalho comunitário.

Y así la nave va. Alguns amigos vieram falar comigo em tom meio ufanista sobre as mudanças de vento que estavam ocorrendo, e eu mantendo minha cara de Velhinha de Taubaté às avessas. As coisas podem até chegar a um resultado satisfatório no STF mas, daí a imaginar que membros do Congresso Nacional vão se empenhar para tocar o barco e pegar gente do porte de um Marconi Perillo, por exemplo, seria o caso de exclamar: santa ingenuidade, Batman!


Escrito por Rogério Veloso às 11h34
[] [envie esta mensagem] []


01/10/2012

FLORENÇA E, DE PASSAGEM, MILÃO

Num tributo à verdade, como diria Joaquim Barbosa (com uma provável tentativa de modificação da expressão pelo Lewandowski), devo dizer que errei ao discorrer sobre alguns fatos de Assis, porque não ocorreram em Assis. Eliana me alertou que, tanto no episódio da burca católica que ela, minha cunhada e minha sobrinha tiveram que usar, quanto nos ridículos e insistentes pedidos de silêncio do padre, os fatos tiveram lugar em Florença, na Basílica de Santa Maria Dei Fiori. O que, a rigor, não altera muita coisa, afinal o papa é o mesmo.

 
Vista lateral da Basílica de Santa Maria Dei Fiori


Vista frontal


Vista aérea

Qualquer que seja a vista, é de um desbunde sacrossanto. Pena que, mais uma vez, esbarramos na mania besta que a galera da batina tem de proibir tudo, e não pudemos fotografar lá dentro. Meu estoque de 'pecados' havia se esgotado na Capela Sistina, até porque seria uma heresia não fotografar aquele teto. A questão é que eu já estava meio sem saco para aturar broncas por estar fotografando - sem flash - uma coluna de pedra ou um altar ou estátua em mármore, só porque aquelas obras de arte estavam dentro de uma igreja. Dããã...


A famigerada estátua de Perseu (e sua amostra grátis de bilau), segurando a cabeça da Medusa

Falemos, então, da viagem até Florença.


Viajamos nesse bichão bonito aí (na foto, o trem para Florença, dona Eliana
correndo na minha frente, carregando 1/3 das bagagens. Alguém aí notou o piso táctil?)

Nós já adquirimos quilometragem suficiente para não acreditar na máxima que diz 'a primeira impressão é a que fica'. Em termos de turismo isto é completamente falso, graças ao bom Deus, porque nossa chegada em Florença foi punk.

Eu já havia percebido, na ida a Latina e em outras ocasiões esparsas em Roma, que o italiano quando quer ser grosso, capricha. Daí a ser nojento, insensível, sacripanta vai uma distância enorme, mas encontramos também gente assim. Ao chegarmos à estação de Florença, não encontramos um único motorista de taxi disposto a nos levar até o hotel, sob a alegação de que a distância era pequena e poderíamos ir a pé. Não demonstraram qualquer sensibilidade ao fato de estarmos com crianças e muita bagagem, além do que o caminho até o hotel demandaria atravessar ruas e praças, todas movimentadas.

O único mapa de que dispúnhamos era incompleto e impreciso, mais voltado para propaganda. Observamos um prédio que aparentava abrigar algo como um centro de turismo, e Gustavo entrou para tentar uma informação. Voltou desanimado, porque estava apinhado de gente e um eventual atendimento demoraria muito. Então, Simone resolveu se dirigir a uma barraca que notamos ser comum na cidade, especializada em vender souvenirs baratos, para tentar saber ao menos onde ficava a rua do hotel. Ao notar que ela não pretendia comprar nada, só buscava uma informação, a matrona da barraca simplesmente apontou o dedo para o centro turístico e deu-lhe as costas.

Aos trancos e barrancos chegamos ao hotel, que não ficava tão perto assim; os taxistas poderiam ter cobrado algum extra pela bagagem, que pagaríamos na boa. Os episódios negativos da chegada foram logo esquecidos, já que depois foi puro deleite.




A cidade é mais do que histórica, mas isso não implica a proibição tácita da entrada de cadeirantes e
pessoas com mobilidade reduzida ou qualquer deficiência física ou sensorial. Já no Brasil...
No que eu chamaria de 'Centro Histórico", as ruas são para uso de pedestres

 


Na foto, Simone apontando para sua descoberta de uma placa, com trecho da Divina Comédia de Dante.
Numa tradução livre, 'Oh, quão grandes vi os que ora estão desfeitos por sua soberba!' Nada a ver com a galera do mensalão.

Pausa para um rango, que ninguém é de ferro.


Não é que a gente beba tanto assim, mas trouxeram um canecão de chopp com meio litro pra cada, fazer o que né?


Pra quem é chegado numa sobremesa, a foto mostra algumas opções oferecidas. Acho que é tudo light.

Andar por Florença é fazer um passeio por onde pisou um monte de gente importante da história, da literatura e das artes em geral, o que causa uma excitação estranha, meio que uma expectativa de de repente esbarrar em figuras como da Vinci ou Donatello. As ruas estão sempre cheias de turistas de vários pontos do planeta, que têm a oportunidade de curtir a arquitetura toda própria e preservada, os museus com as obras que os nazistas e outros criminosos não conseguiram roubar, comprar 'lembrancinhas' e presentes mais caros - cada um na sua -, apreciando a culinária essencial e deliciosamente italiana e a atmosfera leve e aconchegante do lugar.

Encontramos, também, algumas coisas que para nós soaram bizarras, como tênis que mais pareciam luvas para os pés.


Tinha para todos os gostos, mas não fez a cabeça da garotada


Acho que eles tiveram a exata noção do mico que seria usar isso no Brasil. Nós, adultos, nem cogitamos.

Chegou a véspera da partida para Milão, e resolvi reivindicar as prerrogativas inerentes a todo respeitável senhor virtualmente aposentado: não saí do hotel. A turma tinha planejado atravessar o rio Arno, passando pela legendária Ponte Vecchio (ainda não me convenceram as explicações dadas sobre o porquê de não ser chamada Vecchia), e foram feitas diversas fotos que tiveram o condão de me provocar um arrependimento danado de ter ficado com preguiça.


Não faço a menor idéia de que lugar seja esse 

 


Rio Arno, já na margem oposta ao centro histórico da cidade


Mó barato essas mesinhas às margens do rio, né não?


Ponte Vecchio


Vista a partir da ponte


A cidade, do ponto de vista da margem norte do rio Arno

Dirão alguns que visitar a Itália e não conhecer Florença é como ir a Roma e não ver o papa. Eu não vi o papa, mas estive em Florença e voltaria quantas vezes me fossem possíveis. Só não recomendo o período entre julho e outubro, quando o calor chega ao limite do insuportável.

Só mais uma recomendação: como disse alhures, nossas viagens são sempre precedidas de planejamento, o que inclui, sempre que possível, a compra antecipada de entradas para museus, parques e assemelhados pela internet (evitem os atravessadores, sempre dando a preferência aos sites dos próprios locais). Por exemplo, saímos do Brasil já com as passagens de trem em mãos, compradas diretamente do site da empresa transportadora - Eurostar -, entradas para o Louvre e d'Orsay, compradas dos sites dos próprios museus, e assim por diante. Por um vacilo, não compramos as entradas para as Galerias Uffizi e Palatina. Vimos que perderíamos um dia inteiro na fila dos ingressos e acabamos desistindo, o que nos custou não ver as obras de Caravaggio, por exemplo.

Vivendo e aprendendo.

 

Post scriptum: Milão não será assunto para o blog, porque foi apenas uma ponte entre a estação ferroviária e o aeroporto, para embarque de volta para o Brasil. Nada a declarar, diria o Armando Falcão.
P.S.2: Por motivos que o UOL não soube me explicar, este post virou uma salada de fontes, em tamanho e tipo. Foi mal.


Escrito por Rogério Veloso às 23h18
[] [envie esta mensagem] []


18/09/2012

ASSIS

Nossa ida a Assis (ou Assisi, como os italianos chamam a cidade) antecedeu a visita ao Coliseu. Foi uma daquelas fugidinhas em que saímos logo após o café da manhã e retornamos à noite. O calor estava a cada dia mais inclemente, mas contratamos uma van com ar condicionado e aí foi tranquilo percorrer os 175 km que separam Roma da simpática cidadezinha. Depois que fiz um prévio passeio pelo Google, considerei a visita a Assis mais do que obrigatória: um lugar simples mas com um charme todo próprio.

O que mais me interessou de fato foi a arquitetura medieval, os arcos, as ruas estreitas e as construções em sua maioria feitas em pedra. A cidade, obviamente, gira em torno de São Francisco de Assis, o que faz da Basílica de São Francisco a primeira parada obrigatória. Entenda-se por esta obrigatoriedade todo o peso histórico e religioso que a basílica encerra, e naturalmente gera muito interesse dos visitantes, independentemente do credo religioso. Ela é formada por duas construções: a Basilica superior e a inferior. A superior é por onde normalmente começa a visita, é muito maior do que imaginei e possui vitrais lindíssimos, mas o que realmente impressiona são os afrescos de Giotto ao longo das paredes, retratando a vida de São Francisco. Esta parte da Basilica sofreu muitos danos com o terremoto que aconteceu em 1997, e grande parte dos afrescos do teto (de diversos artistas) sofreram grandes danos. Já a Basilica inferior é mais intimista e tem um espaço muito acolhedor, também rodeada de afrescos.

O subterrâneo reserva uma surpresa: a cripta, onde está o tumulo de São Francisco. É um espaço simples, sem grandes ornamentos, revestimento em pedra aparente, mas realmente intrigante.

 
Vista lateral da Basílica de São Francisco


Diogo e Gustavo, entre uma pizzaria e uma das muitas vielas da cidade. Tudo em pedra, um espetáculo.

A galera estava muito interessada em conhecer a Basílica de São Francisco e a Igreja de Santa Clara, mas me interessava mais explorar aquilo que tinha visto virtualmente no Google. Então, nos separamos por alguns momentos e eu fui desbravar as vielas de Assis. O que mais me fascinou na cidade foi o fato de quase tudo ter sido construído com pedras mas, apesar disso, não se abriu mão do capricho nem dos toques de arte. Como disse um goiano - ou mineiro - que estava com sua turma perto de mim, aquilo era um trem de doido.


Não me perguntem como esses carros conseguiram chegar ali.


Assis não é uma cidade assim tão acessível, mas tem seus trechos 'amigáveis'.


Em Assis não existem academias. Com essas ladeiras, alguém precisa?
 


A cidade, do ponto de vista da rodovia

A igreja católica tem umas frescuras que explicam a crescente perda de freguesia. Quando tentamos entrar na igreja de São Francisco, Eliana, Simone e Mariah foram barradas, as duas primeiras por estarem com blusas que deixavam ombros e braços à mostra e minha sobrinha porque trajava uma saia que não atendia pela alcunha de Maria Mijona. A solução foi comprarem por módicos dois euros uma espécie de manta, feita de um material vagabundo, para cobrirem suas 'vergonhas'. Perguntei à beatona do balcão se estávamos de fato num ambiente católico, e ela me confirmou que sim. Fiquei meio com medo de dar de cara com a figura de Maomé numa das paredes. O interessante é que lá fora, na entrada, havia uma estátua enorme de Perseu segurando a cabeça de Medusa, completamente nu. Ou seja, ombros e braços femininos são pecaminosos; o peru do Perseu faz parte da paisagem. Vida que segue.

A obsessão pelo silêncio também era algo que chamava a atenção. Bastava uma criança chamar pela mãe que um padre pegava um microfone e mandava bala:

- SSSSSHHHHHHHHH, SILENZIO, PER FAVORE!

Pensa numa coisa apavorante, aquela voz tipo Cid Moreira desafiando Mister M. E completamente incoerente, porque o cara fez seu vozeirão ressoar por toda a Basílica. Aquilo me remeteu a uma música da Rita Lee, em que ela diz "pra pedir silêncio eu berro...".

A Basílica possui um subsolo com acesso por escadas, onde funciona uma loja de souvenirs. Lá se encontram livros, medalhas, imagens, gravuras, chaveiros, tudo naturalmente alusivo a São Francisco e Santa Clara e muito bonito. Como o ambiente era completamente diferente do andar de cima, as pessoas não se sentindo tolhidas e deitando falatório, resolvi testar minha liderança. Fui até um canto da lojinha, dei uma agachadinha e ataquei de padre:

- SSSSSHHHHHHHHH, SILENZIO, PER FAVORE!

Foi um estrago. O silêncio sepulcral que se seguiu denunciou o quanto as pessoas estão sujeitas a condicionamentos. Logo em seguida uma brasileira me viu rindo e matou a charada, soltando um divertido "só podia ser brasileiro, mesmo!". Os gringos permaneceram em completo silêncio.

Chegou o dia de deixar Roma e partir para o berço do Renascimento, Florença, terra de figuras como Leonardo Da Vinci, Donatello, Giotto e Maquiavel. A viagem de trem é super agradável e dura cerca de uma hora e meia. Mas isto é assunto para o próximo post.


Escrito por Rogério Veloso às 15h45
[] [envie esta mensagem] []


10/09/2012

ADELMA

Passei a infância, enfrentei as turbulências da vida adolescente e cheguei à idade adulta ouvindo minha mãe mencionar esse nome, Adelma, com uma nostalgia que por vezes embargava sua voz.

Adelma, pais e irmãos vieram da Itália para o Brasil no pós-guerra, e se estabeleceram em São Paulo na década de 1950. Foi aí que nasceu uma amizade que atravessou o tempo e não se abateu pela distância. As duas jovenzinhas se conheceram no trabalho, sofreram juntas os abusos que os patrões cometiam contra os trabalhadores, e juntas permaneceram nos momentos bons e ruins. Minha mãe se casou - Adelma tinha muito medo de ficar pra 'titia', por ser alta para os padrões brasileiros da época -, nasceu meu irmão mais velho, e a amizade era a mesma.


Foto de 1955. Minha mãe, a menorzinha da turma, era também a mais gatinha, né não? Adelma é a bitelona.

Ocorre que o pai de Adelma, após alguns anos, passou a repetir que não queria morrer longe da Itália, e a família começou a imaginar se ele não estaria pressentindo algo de ruim. Como a situação econômica italiana tinha dado um up, resolveram retornar em 1960.  As duas amigas ainda mantiveram contato por algum tempo, trocaram correspondências até que, numa das diversas mudanças de casa que tivemos que fazer (morar de aluguel é brabo), o endereço da Adelma desapareceu.

Y así pasaran los días, nós nos mudamos para Brasília em meados da década de 1970, e eis que, há uns poucos anos, dona Esther encontrou numa daquelas caixas que a gente utiliza para guardar bagunça e lixo, um papelzinho contendo a anotação de um endereço italiano. Lógico que desconfiou tratar-se do endereço de Adelma e resolveu arriscar enviando um cartão de Natal, aproveitando a época da descoberta. Algumas semanas depois chega a resposta: era Adelma.

As trocas de correspondências foram retomadas. Até rolou um telefonema ou outro, mas a barreira da língua, que no passado tinha deixado de ser empecilho, veio com força total. Minha mãe nunca falou italiano, e era natural que, após mais de 50 anos, Adelma tenha se esquecido do português, língua que jamais chegou a dominar de fato.

Era legal ver o brilho nos olhos de minha mãe quando vinha me mostrar um postal ou qualquer coisa que Adelma mandava.

Após as férias do ano passado, meus cunhados e nós aqui de casa iniciamos as tramóias para definir as doideiras a serem cometidas em 2012. Depois de muitas mudanças, chegamos a um roteiro que incluía alguns dias na Itália, a princípio Roma, Assis, Florença e Milão.

Quem acha que eu estou com o burro na sombra só porque viajei para a Europa está redondamente enganado: a palavra é planejamento. Primeiro, as coisas são decididas com cerca de um ano de antecedência, o que é, no mínimo, garantia de bons preços nas passagens aéreas. Depois compramos as passagens em suaves prestações, geralmente 10. Os hotéis costumam aceitar reservas com grande antecedência, mas não gostam muito de mexer na tabela de preços. Porém, nada resiste a uma boa negociação. Existe, ainda, a possibilidade de compra pela internet de entradas para os pontos turísticos e passagens ferroviárias. Comprei entradas para o Coliseu, alguns museus, o trem de Roma para Florença (recebi as passagens em casa, impressas na India, pode?), tudo com preço melhor do que encontraria no local e sem me estressar com fila. Aliás, se tiver fila no céu quando eu morrer, sei não...

Em resumo, sempre viajamos com boa parte das despesas já quitadas e noção de quanto será preciso levar para torrar no destino, o que é parcialmente garantido por uma poupancinha mensal básica. O resto a gente se vira quando chegam as faturas dos cartões de crédito; viver perigosamente é o que dá molho à vida.

Lembrei-me de Adelma e resolvi tentar encontrá-la. Peguei o endereço com dona Esther e fiquei sabendo que sua amiga não respondera as duas últimas correspondências. Mau sinal. De qualquer forma, minha mãe foi avisada de que eu não ficaria enrolando com histórias do tipo "Adelma subiu no telhado...". Qualquer notícia ruim seria dada na bucha. Tive a idéia de fazer e levar algumas fotos com meus pais, meu irmão e minhas tias maternas que conheceram Adelma, além de um vídeo no smartphone, onde minha mãe manda um recadinho para Adelma. Gravei tudo num CD, e até que ficou legalzinho. Planejei fazer o mesmo do lado de lá.

 

Meus recursos de pesquisa não eram dos mais promissores, já que o máximo que minha mãe detinha (e era suficiente para que um postal chegasse lá) era o endereço, que começava com as letras SS, seguidas de um número, código postal e a indicação da cidade de Latina. Isso não foi problema para quem passou boa parte da vida profissional rastreando dinheiro sujo. Ainda que mal comparando, know-how para descobrir paradeiros era comigo mesmo. Não levei São Longuinho muito a sério, e preferi o santo da hora, São Google, para descobrir onde e a que distância a cidade de Latina ficava de Roma. Moleza: 80 km em direção ao litoral, meia hora de trem.

Confesso que não estava muito otimista quanto a encontrar Adelma viva ou saudável, pela falta de notícias e também por ela já estar com 82 anos de idade. Resolvi, então, tentar descobrir o telefone da casa dela. Novamente mesa branca e São Google foi invocado, busquei a lista telefônica italiana e encontrei um número cujo proprietário tinha o mesmo sobrenome, mas com endereço diferente. Analisando o mapa vi que o endereço ficava próximo ao de Adelma, então resolvi ligar, de Goiânia, para ter certeza de que estava no caminho certo.

Digitei aquele monte de números e, do lado de lá, uma voz masculina soltou um 'pronto'. Deitei o cabelo em todo meu repertório italiano, que se resume a umas quatro palavras, mas parece que consegui me fazer entender, porque o cara respondeu: "Lei non vive qui, provare il telefono XPTO". Liguei no número indicado e outra voz masculina atende. Eu reeditei aquela ladainha "io sono il figlio di Esther, di Brasile", mas a reação do carinha me surpreendeu, ficou doidaço gritando 'mamá, mamá, è Esther, Brasile'. Logo a voz suave de Adelma surgiu ao telefone e, conforme íamos conversando, as emoções foram aflorando. Disse a ela que dentro de 10 a 12 dias estaria na Itália e queria fazer-lhe uma visita, ela mostrou-se feliz com a idéia, pediu para levar fotos de toda a família. Como eu não sabia ao certo quando de fato poderia ir a Latina, fiquei de telefonar quando estivesse na Itália para combinarmos.

Adelma foi embora para a Itália antes do meu nascimento, o que torna intrigante a sensação de reencontro que tive após aquele telefonema.

Na Itália foi aquela correria que relatei no post Enfim, Itália e eu, mais uma vez, fui traído pela distração. Pelas minhas contas, teríamos um dia livre em Roma após a visita ao Coliseu (seria o 'dia da Adelma'), antes do embarque para Florença. Ledo Ivo engano. Sorte que Gustavo me alertou para isso, senão teria ido por água abaixo minha visita a Adelma. O jeito foi deixar a galera no Coliseu após o almoço e pegar o metrô até a estação Roma Termini, de onde saem os trens para praticamente todo o País. Comprei a passagem e embarquei no primeiro trem, bem diferente daqueles em que já tinha viajado. Fui em pé, um calor de rachar mamona, eu de olho no relógio porque não havia mapas, até que, numa parada, havia a placa que dizia Latina. Desci. Dancei.

Na verdade não era a estação da cidade de Latina, mas de um genérico chamado Cisterna de Latina, uma cidadezinha ótima para quem está a fim de um bom pretexto para cometer suicídio. A estação, pequena, estava toda em reforma e envolta em andaimes. Como a bilheteria estava fechada e as únicas pessoas ali presentes eram dois mendigos, resolvi tomar um café no único estabelecimento aberto por ali. Caí na besteira de perguntar ao italianão dono do boteco como deveria fazer para chegar a Latina. Sabia que era a próxima estação, mas o trem em que tinha viajado não parou em todas as estações. Vai que passa direto na próxima...

O distinto cavalheiro não me esperou terminar a pergunta e já respondeu 'non lo so' (não sei), no melhor estilo foda-se. Italiano quando quer ser grosso, capricha.

Resolvi arriscar, peguei o próximo trem que parou ali, e dei sorte. Em questão de poucos minutos estava em Latina. Adorei ver essa placa aí, ó:

           

Tomei um taxi, desta vez achei um cabra bom de papo, que não fechou a cara nem quando eu comentei os 4x0 que a "Azurra" tinha levado da Espanha no dia anterior. Latina fica na região do Lazio, a poucos quilômetros do Mar Mediterrâneo. É uma cidade bonita e mais populosa do que imaginei, o taxista me informou que a cidade cresceu muito devido à proximidade de Roma, as boas praias, além dos problemas de violência e especulação imobiliária que passaram a atacar a capital.

          
Não fui além do caminho para a casa de Adelma. Estas duas imagens de baixo foram tomadas emprestadas do Google

Com o endereço em mãos, em alguns minutos estávamos aportando na casa de Adelma.

Fui recebido com um abraço gostoso, cheio de um carinho desconcertante para quem até então se achava um completo estranho. Chorando de emoção, Adelma me apresentou seu filho Roberto, que nas horas seguintes me ajudaria a detonar várias ampolas da mais genuina cerveja italiana.

Adelma não sabia se sorria ou chorava, me mostrou a casa pelo menos três vezes, e admito que a subestimei, pois estava não só fisicamente bem, como demonstrava absoluta lucidez. Preparou um café e um suco, Roberto desceu a primeira 'birra', brindamos à vecchia amicizia e caímos na gargalhada, pois se tratava de uma velha amizade recém-nascida. Imaginei minha mãe ali, ao lado de Adelma, a farra que seria, a emoção que o reencontro das duas despertaria. No mínimo mataria uma das véia.


Na foto, Adelma e eu, logo após minha chegada

A devoção a essa amizade tão antiga, a princípio demonstrada por minha mãe, era compartilhada por Adelma. Se minha mãe tem uma caixinha para guardar poeira do tempo, Adelma tem uma pasta, onde guarda uma infinidade de fotos e cartas. Fiquei besta ao ver que ela guardava, em perfeitas condições de conservação, uma carta escrita por minha mãe, onde dizia que "o Rogério já está com 1 ano e 8 meses". Caraca!

Adelma vive com o filho, solteirão convicto, numa espécie de sítio, com cerca de 14.000 m2. A casa é simples mas confortável e aconchegante. Além deles, vivem também oito gatos.


Na foto, a frente da casa da Adelma.


Uma parcela da população de gatos que vivem com Adelma.

Adelma me contou que se casou e teve um casal de filhos. A mais velha, casada, passou por lá tão rapidamente que não deu tempo de tirar uma foto. Mora no terreno do sítio de Adelma, cedido a título de herança. Descobri que a casa para onde fiz o primeiro telefonema do Brasil é onde mora sua irmã mais nova, Leida, que nos tempos de Brasil era uma criança. Leida mora a dois quarteirões de Adelma, numa casa bem mais requintada e igualmente com um terreno enorme.


Pela ordem: Adelma, eu, Leida e Roberto. Foto tirada na casa da Leida.

Eu tinha combinado com a família de jantarmos num restaurante perto do hotel em Roma. Lá pelas seis da tarde, quando disse para Adelma que tinha comprado a passagem de volta para as sete, ela não aceitou, disse que estava me esperando para o almoço (quando telefonei, avisei que chegaria depois do almoço, mas ela entendeu que eu iria almoçar com eles) e que eu não sairia dali sem jantar. Roberto me disse que depois iríamos de carro até Roma. Só precisei ligar para o hotel e deixar recado, pedindo que não me esperassem para o jantar.

Pedi, então, que Adelma gravasse uma mensagem para minha mãe. 

O silêncio de Adelma, que a impediu de responder às últimas correspondências de minha mãe, foi o estado de luto em que se encontrava. Seu marido havia falecido há cerca de um ano e, pelo que ela me contou, deu para identificar um quadro meio que depressivo após a viuvez.

Leida se juntou a nós quando fomos a Roma. Em um único dia nós nos tornáramos velhos amigos, três cinquentões e uma oitentona. O papo foi animado, às vezes não entendíamos direito o que era falado mas ríamos assim mesmo. Chegamos ao hotel perto de meia noite, eu me sentia cansado e feliz, como que antevendo a cara de dona Esther ao ver as fotos e assistir ao vídeo que gravei com sua amiga de sempre e para sempre.


Escrito por Rogério Veloso às 11h10
[] [envie esta mensagem] []


06/08/2012

ENFIM, ITÁLIA

Pode até ser cisma minha mas, na época em que eu precisava trabalhar para viver (sorry, periferia), tinha mais tempo, ânimo e fluidez para manter meu cafofo atualizado. Tomara que seja uma fase de transição entre a doideira do dia-a-dia que enfrentei durante muitos anos e o 'de repente, Califórnia' de hoje. A parada brusca pode ter afetado meu metabolismo ou azedado as relações diplomáticas entre os poucos neurônios que me restam.

Pois bem, feitas as apresentações, nada mais dito nem perguntado, falemos dos seis dias que passamos na Itália, começando por Roma. Já na chegada ao aeroporto de nome esquisito (Fiumicino) da capital italiana, tive aquela impressão mezzo gostosa mezzo preocupante de estar em algo parecido com o Brasil. É que não havia finger disponível, o ônibus que nos transportou até o saguão, além de lotadaço estava com o piso todo grudento, dando a impressão de que tinha sido lavado com coca-cola. O banheiro era outra 'diliça', quem conhece o banheiro da rodoviária de Cuiabá pode dar seu testemunho sobre o que é uma fedentina de responsa, além do piso todo molhado (sei lá se aquilo era água) e não ter papel toalha. De quebra, Eliana tinha combinado com o pessoal do hotel sobre o traslado, e não encontramos ninguém com nosso santo nomezinho na placa.

Liguei para o hotel, o inglês da mocinha ia um pouco além do the book is on the table mas consegui entender que não tinham mandado ninguém nos buscar. Tudo bem, encaramos um taxi - na real dois carros, pois éramos sete - e morremos em 100 euros, cinquentinha cada.

Pelo menos no dia da chegada nossos temores quanto ao calor não se justificaram. Após a instalação no hotel resolvemos bater perna. Mapinha nas mãos, fizemos o primeiro voo de reconhecimento. Pega ruela, desce ladeira, as calçadas sempre muito estreitas e o trânsito intenso, acabamos nos costados do Vaticano, um muro que lembra um pouco aquelas falésias da praia de Pipa, no RN, tipo 20 metros de altura. Nem o Homem Aranha consegue entrar ali sem pagar o ingresso.


Pros meus amiguim prejudicados das vistas: na foto, Eliana e Simone em primeiro plano e, ao fundo, o muro do Vaticano, na ala mais próxima à entrada principal.

E já que o assunto é Vaticano, bora entrar lá. Algumas das fotos terão uma legenda embaixo, outras não. Isto se deve ao fato de que eu simplesmente me esqueci do nome de alguns lugares, praças ou monumentos. Coisas da idade.


Lá o que não falta são salas com estátuas. Esta é uma delas.

 
Sala que homenageia o Papa Pio VII


Alguém aí se lembra que eu disse que é proibido fotografar a Capela Sistina? Pois é...


Diogo e Lucas, doidos pra brincar com as espadas


Lucas na Praça de São Pedro


Luxo...


Luxo...


E mais luxo!

Acho que Cristo ficaria envergonhado se visse o luxo em que vive sua assessoria técnico-operacional. Eu, que nunca preguei nem fiz voto de pobreza (pelo menos não espontaneamente), fiquei com vergonha alheia. De duas uma: ou me contaram uma lorota dos diabos sobre Cristo, ou Bento et caterva estão pisando na bola.

Mas a Itália não é só Vaticano (aliás, o Vaticano é um Estado independente dentro da Itália, tipo o DF em relação a Goiás), tem outras coisas mais divertidas. Uma delas é o Coliseu. Eu até tinha prometido bater uma pelada lá, mas o Maluf chegou primeiro e roubou o gramado. Foi mal, Leandrão! Antes, demos uma passadinha na Fontana di Trevi:


Não achei muita graça mas, enfim, é um lugar famoso, né?


Fontana di Trevi ao fundo e, em primeiro plano, Gustavo, Diogo, Lucas e eu

Bora pro Coliseu!


Lado de fora do Coliseu. O sorvete italiano é tudibom, mesmo esses de barraquinha.


Pensa numa ruína de botar qualquer um maluco, pelo tamanho e, principalmente, pela história incrustada em cada pedra.


Pelos labirintos subterrâneos aí expostos subiam os leões, para mostrar aos gladiadores quem é que mandava no pedaço. Sinistro...

Eu vivo cobrando maior acessibilidade em algumas cidades e monumentos brasileiros, e sempre ouço a velha desculpa: "não se pode mexer em nada, isto tudo é tombado pelo patrimônio histórico (ou cultural, ou o escambau) da humanidade". Pois bem, parece que o Coliseu não foi tombado ou, se foi, não foi por brasileiros:


Lá no Coliseu tem um caminho exclusivo para cadeirantes e pessoas com dificuldade de locomoção. E agora, galera do IPHAN?

A acessibilidade e obras de inclusão para deficientes no Coliseu não se restringem a isto, contemplando, também, banheiros adaptados, rampas, placas em braille espalhadas e muita, muita boa vontade na comunicação gestual com os surdos não oralizados ou não familiarizados com línguas estrangeiras estampadas em placas. Achei legal.

Depois do Coliseu fomos almoçar e, de lá, me separei do grupo para ir à cidade de Latina, a meia hora de trem (cerca de 80 km de Roma) visitar Adelma, amiga de minha mãe desde os tempos em que eu era no máximo um espermatozóide. Fui só, a galera ficou em Roma explorando outros cantos, e fez essas fotos aí:


Na foto, duas garrafas de cerveja italiana, uma das quais chamada Baffo D'Oro. Antes que alguém se meta a engraçadinho, vale esclarecer que 'baffo' em italiano signica bigode.


Il Vitoriano, monumento em honra a Vitor Emanuel II da Itália, primeiro rei da Itália unificada e considerado o pai da pátria italiana. Abriga o Museu do Ressurgimento.


Prédio da Suprema Corte Italiana. É lá que são julgados os mensalões.

Devido a questões técnicas (espaço disponível concedido pelo UOL para cada postagem), falarei sobre Assis e Florença no próximo post. Não me é permitido inserir mais nenhuma foto, acho que estourei o limite. 


Escrito por Rogério Veloso às 23h26
[] [envie esta mensagem] []


27/07/2012

BRUGGE

Quando eu era um molecote, tipo sete ou oito anos, tinha o hábito de triturar com os olhos toda e qualquer publicação que caisse em minhas mãos. Era um leitor voraz. Mas havia um dificultador: vivíamos numa dureza federal, meu pai trabalhava feito doido pra não deixar faltar nada em casa, e esse nada sequer cogitava de incluir a literatura. Precisávamos comer, ter roupas, agasalhos, material escolar, um trocadinho para a feira, enfim, tínhamos prioridades primárias que não permitiam certos luxos.

Eu me lembro que houve um período em que o sabão em pó Omo (é, já existia), numa jogada promocional, trazia encartado um tablóide de poucas páginas, contendo uma ou mais fábulas produzidas pelos irmãos Grimm ou Hans Christian Andersen. Eu viajava naquelas histórias, de repente me sentia personagem, e me fascinavam especialmente aquelas casas com telhados pontudos que mais pareciam uma torre. Confesso que andei sabotando meus pais e a economia doméstica naquele período, pois vez por outra jogava pelo ralo do tanque bons punhados do sabão em pó para acabar logo e minha mãe comprar outro livro para mim.

Hoje, quatro décadas e meia após esse período cuja lembrança trago com carinho, me vi saindo de Paris em direção a Bruges, na Bélgica. Foi sugestão da Simone, que viu na internet e achou que valeria a pena viajar cerca de 270 km para conhecer uma cidade medieval, boa parte esculpida em pedra.

Não dá para descrever com precisão, é preciso ir lá. Primeiro fizemos o passeio de barco, que é programa obrigatório por constituir, de certa forma, uma imersão histórica naquele vilarejo que ora eu imaginava ter saído de um conto de fadas, ora cismava que tinha um toque de realismo fantástico. O fluxo turístico do local é algo que também chama a atenção.

Para os prejudicados das vistas: na foto, Eliana recostada ao parapeito da ponte sobre o simpático canal


A galera toda reunida, feliz feito pinto no lixo, tendo ao fundo o canal que circunda a cidade


Trem bão essa muié (na foto, Eliana e eu garradim como de costume).


Na praça principal da cidade se encontra de tudo: pedestres, carruagens, bicicletas, motos. Destaque para o 'porta-cocô' do cavalo. Coisa de primeiro mundo.


Lucas, Gustavo e Mariáh à beira do canal. Eu até saí na foto, mas de costas


Canal que circunda a cidade. Na beira, residências, cafés e restaurantes


Lucas na praça central da cidade, com o cenário de conto de fadas ao fundo


Lucas achou estranho uma casa construída em 1669 ainda não ter caído. O detalhe é que as que são 'banhadas' pelo riacho são ainda mais antigas.


Esse negão mochileiro aí no meio da foto sou eu. Ao fundo, a prefeitura, restaurantes e residências


Teria eu exagerado ao falar da paisagem? Ao fundo, as edificações com telhado pontiagudo para não acumular neve.

Bruges é considerada a capital da cerveja na Bélgica. Dizem as más línguas que há mais de 50 marcas diferentes, isto somente entre as artesanais. É lógico que a gente não iria se contentar só com boatos, já que nascemos com o senso de curiosidade científica bastante apurado.


Na foto, Gustavo em destaque e, ao fundo, uma prateleira cheia de garrafas de cerveja. Não havia uma única repetida.


Tem até essa aí da foto, chamada Morte Súbita, que talvez não seja muito recomendável


Uma tese que eu sempre defendi. Na foto, uma placa dizendo "A cerveja é a prova de que Deus nos ama e quer que sejamos felizes". Ponto!

O fato é que o mulherio começou a implicar com nossa incursão 'científica'. Tentamos argumentar que na Bélgica não tem bafômetro e nem estávamos dirigindo, mas sabe como é mulher quando empina a carroça, né? O jeito foi levar na brincadeira e fazer cara de manguaça.


Devo reconhecer que Gustavo mereceu um Oscar por essa simulação de zoião parado.


Uma vez atingido o objetivo de sacanear as madames, voltamos ao normal. Achamos por bem não experimentar as 36 marcas que restavam.

É interessante que as edificações têm, com poucas exceções, basicamente a mesma altura. Quando achei que não haveria mais nada a ser visto ou para me surpreender, eis que deparo com um monumento à acessibilidade, voltado especificamente aos deficientes visuais, que mereceu uma filmagem: 

Reconheço que viajei legal nos comentários, tive meus momentos Galvão Bueno ao descrever aquela maravilha. Na verdade, não é a 'planta' da cidade descrita em braille, mas informações turísticas e orientações espaciais, que são complementadas pela maquete em alto relevo. Conversei com um deficiente visual a respeito, e ele me disse que aquilo é suficiente para ele andar pelos pontos principais da cidade, já que as informações incluem banheiros públicos, pontos turísticos e restaurantes. Achei ducacete.com.br. Aliás, é significativa a quantidade de pessoas cegas que visitam Bruges, por que será?

Para quem esperava o francês como língua oficial do local, uma surpresa: as placas indicavam uma língua estranha, que descobri tratar-se de um tal 'neerlandês'. É como pegar o holandês, o alemão e bater no liquidificador. Daí, não me perguntem o que significa a placa nessa foto aí embaixo, porque fiquei com preguiça de pesquisar:

Na foto, um prédio aparentando ser uma escola, algumas crianças entrando e, na fachada, a inscrição MIJE

Antes de ir embora ainda tivemos um tempinho para conhecer alguns moinhos, bem no estilo holandês. A limpeza e a conservação da cidade são coisas impecáveis.


Moinho de vento, ao fundo de uma área pública gramada, onde as pessoas costumam fazer picnic 

Foi uma viagem no estilo bate-e-volta, ainda tivemos tempo de jantar em Paris às nove da noite, quando o sol começava a dar sinais de cansaço. Cansados também estávamos todos nós, mas felizes por ter conhecido um lugar que imaginávamos existir somente no imaginário infantil.


Escrito por Rogério Veloso às 00h05
[] [envie esta mensagem] []


17/07/2012

VAMOS POR PARTES

Conforme anunciado, eu tinha a nobre intenção de, paulatinamente, ir publicando os rolos e aventuras Europa afora. Não foi possível porque Murphy, aquele desnecessário, deu o ar da graça novamente, desta feita na forma de um defeito no sistema de internet sem fio do notebook, o que me deixou isolado do mundo feito menino perebento.

Agora, já de volta ao patropi varonil, minha terra que tem cachoeiras onde canta o jabá, vou cumprir os relatos de forma estratificada, porque os momentos vividos foram muitos, deliciosos, cansativos e bem diversificados. Foram nove noites em Paris, vez por outra fazendo um bate-e-volta, ora em Bruges na Bélgica, ora no Vale do Loire, mais ao norte da França. Depois mais seis dias na Itália até o retorno. Comecemos pelo começo:

O amém valeu. Já chegamos triturando um filezão com fritas, Gustavo e eu matamos saudades da bièrre à pression 1664, que vem a ser um chopp genuinamente francês delicioso. Heineken era Plano B.

Como ainda era o primeiro dia e estávamos ligeiramente cansados, nos limitamos a dar uma olhadinha no Sena, Praça da Concórdia, Invalides e mais uma coisinha aqui, outra ali. Andamos pra dedéu, já estreando o metrô. Mas, o que fazer numa cidade cujo céu só escurece às 10 da noite nesta época do ano? Passear, ora. Depois procuramos um restaurante mais próximo ao hotel e detonamos um entrecôte malpassado.

Paris é isso: em cada esquina uma estátua ou monumento, em cada quadra uma igreja velha, um café, um casal discutindo a relação, aquele monte de gente fazendo picnic nos gramados das praças e muitas, muitas bicicletas. Paris exala algo que me fascina, mas não sei descrever.

Para a galera prejudicada das vistas: na foto, Lucas e Diogo ao lado de um carro diminuto, mal cabem os dois


Estátuas em bronze no Museu Rodin


Ainda no Museu Rodin, estátua em bronze de 'O Pensador'


Eu me assustei ao ver que havia no cardápio "gambás flambados", e só sosseguei depois que descobri que gambas é uma espécie de camarão


Na foto, lateral do prédio que abriga o Museu D'Orsay


Visitar o túmulo de meu maior ídolo, Frédéric Chopin, não teve preço.

Claro que passamos pela Torre Eiffel (não subimos), mas a idéia era exatamente visitar o que ficou pra depois no ano passado. Em qualquer canto do mundo existem lugares que, por mais famosos que sejam, merecem uma única visita. Resolvemos, então, que subir na torre, ir a Versailles ou Giverny, Sacré-Coeur e Notre Dame não figurariam no roteiro. Acabamos cedendo aos encantos de Notre Dame e indo até Sacré-Coeur, mas não pela igreja; atrás dela há um conjunto de galerias e lojas com obras de arte e souvenirs que queríamos ver.

Dentro de nossa proposta, fomos à Ópera de Paris, conhecemos o Museu Dali, nos deliciamos com o Panthéon, o Dome e os Jardins de Luxemburgo e a cada dia nos surpreendíamos com uma nova descoberta.


Vista aérea do Dôme des Invalides

Lá pelo terceiro ou quarto dia estava programado o passeio até Bruges, na Bélgica. Se tudo correr bem, amanhã falarei sobre isso.


Escrito por Rogério Veloso às 23h45
[] [envie esta mensagem] []


25/06/2012

MEGA-ULTRA-BLASTER-HIPO

Três meses e 22 dias depois, eis que surjo com nova postagem. Meia boca, estilo en passant, mas é para dizer que muita coisa aconteceu nesse meio tempo. Tenho estado mais ativo no Facebook, mas não desisti do blog em troca daquela coisa efêmera e nem sempre prazerosa. Acho que meu lugar é aqui, que tem mais chão, ou o chão se move mais devagar.

Minha ausência prolongada se deve a um período de absoluto despirocamento de minha glândula tireóide, que entrou em parafuso depois do tratamento contra a - sempre ela, sempre ela - hepatite C.

Primeiro perdi 12 quilos, devido ao hipertireoidismo. Até eu estava me achando ligeiramente feio naquele estado, os joelhos lembrando aqueles meninos da Somália que aparecem na TV quando a ONU precisa de dinheiro. Aí a endocrinologista me receitou um certo Tapazol, que me jogou no hipotireoidismo quase que de imediato. Um ajuste mínimo da dose e lá vinha hipertireoidismo de novo. Eu fui ficando nesse estica e puxa até que a médica concluiu que minha glândula é rebelde (o fundo do poço, nesse caso, seria uma glândula restart), e me propôs um tratamento radical. Topei na hora, a cada dia que passava mais eu me parecia com o ministro da previdência.

O radicalismo do procedimento até que não tinha as feições revolucionárias que imaginei. Eu só teria que me submeter a uma coisa chamada radioiodoterapia. Duas semanas obedecendo a uma dieta braba, sem qualquer alimento que contivesse iodo (sal iodado, ovo, leite e derivados, rabanete, vegetais verde-escuro tipo brócolis e couve, frutas como caqui y otras cositas más) e depois fazer uma visita de cortesia à clínica de medicina nuclear para beber de canudinho alguns poucos ml de iodo radioativo. Coisa para amadores.

A partir dali eu me tornei um perigo para a humanidade. Tinha que me manter distante de mulheres grávidas e crianças abaixo de 12 anos, num raio mínimo de três metros. Resolvi me trancafiar num hotel, já que a radiação gama que eu exalaria por três longos dias somente age entre células vivas, o que era uma garantia de que eu não representaria qualquer risco para o próximo hóspede. Só tinha que tomar as devidas precauções para não ficar próximo de ninguém.

Passado esse período de reclusão retornei para casa e, algumas semanas depois, ao consultório da endócrino, já com o resultado do exame cujo pedido ela já tinha me entregado na consulta anterior.

Os valores de referência, cujo significado me orgulho de ignorar, vão de 0,2 até 5,0 sei lá o que (tem até letra grega no meio). Quem faz o exame de TSH e fica dentro desse quadrado tá bonito na foto. Eu já saí meio fora: no primeiro deu 0,008, qualquer coisa perto de 25 vezes inferior ao mínimo, o que denunciava o quadro de hipertireoidismo. No pós-iodo cheguei todo pimpão para a doutora, com exatos 113,99 xpto cravados no papel do laboratório, coisa para hipotireóidico nenhum botar defeito. Tem miséria não!

Se no hipertireoidismo o organismo funciona à toda, quando o quadro muda para hipo até o relógio atrasa. Perto de mim Dorival Caymmi era um velocista.

Aí é hora de tomar a tal tiroxina, para botar ordem na casa e tentar convencer a gente que a cama, ao contrário do que parece, não é o melhor lugar do mundo. A doutora até queria me dar uma licença médica, mas eu tinha um compromisso de trabalho com meu coordenador e resolvi não roer a corda.

Estava esquecendo de revelar ao mundo que saiu minha aposentadoria. A partir de hoje estou de férias, e no retorno vou direto ao sindicato homologar minha rescisão. Trabalho desde os sete anos de idade, cansei, chega!

Amanhã à noite catarei dona Eliana e o Luquinha pelo cangote e rumaremos ao aeroporto, onde encontraremos os cunhados Simone e Gustavo, além dos sobrinhos Mariáh e Diogo. No roteiro França, Bélgica e Itália, onde tentaremos bater uma bolinha no Coliseu. Dizem que é proibido tirar foto na Capela Sistina, mas eu sou brasileiro e não desisto nunca.

Desta vez levarei a tiracolo meu notebook. Então, sempre que rolar algum assunto ou fota que valha a pena, postarei por aqui. A idéia é fazer um diário de viagem, vamos ver se dá certo.

Alguém aí se lembra que lá em cima eu disse que a postagem seria en passant?


Escrito por Rogério Veloso às 19h51
[] [envie esta mensagem] []


04/03/2012

MORRO DE MEDO, MAS FINJO QUE NÃO

Alguém aí já ouviu falar da síndrome do pânico, que alguns mais cruéis chamam de transtorno do pânico? É quando ocorre uma colisão frontal entre vários neurotransmissores, como dopamina, noradrenalina, serotonina e mais umas três ou quatro inas. O resultado é que o cabra fica sem rumo feito o Brasil na Copa 2014. Simplificando a coisa, para ficar nas inas mais importantes: por algum motivo o cérebro passa a produzir menos serotonina, que é um neurotransmissor no estilo Polyanna carnavalesca. Para não ficar o vácuo, onde falta serotonina vem uma tal noradrenalina, uma tia velha toda neurótica e com complexo de perseguição, e toma seu lugar. Pronto: a merda tá feita.

Como eu sei disso? Ora, eu encarei essa excomungada durante anos. Para provar que uma desgraça nunca vem só - vide duplas sertanejas -, a síndrome do pânico (chamemo-la simplesmente SD) costuma vir acompanhada de outras coisas, cujo nome termina com fobia: acrofobia, agorafobia, claustrofobia, sociofobia, uma beleza. Eu não recomendo esse coquetel; se o perrengue for inevitável e houver uma oportunidade de escolha, considere uma unha encravada ou uma gonorréia, vá por mim. Pânico é brabo.

A parte que me coube foi a agorafobia. Eu sei que todos estão cansados de saber o que é isso, mas vou explicar assim mesmo: agorafobia é, na prática, uma crise de angústia que o cabra sente quando está no meio de uma multidão, seja um supermercado, estádio, estação do metrô, teatro, cinema, assembléia de greve ou fila da sacolinha na igreja. Pra variar, a origem da palavra é grega: ágora significa multidão, assembléia e fobus (ou phobus, sei lá) simplesmente medo. Cansei de deixar o carrinho pela metade no supermercado e voltar pra casa, fiquei anos sem ir ao estádio, as crises no trabalho, que nunca tiveram a decência de me avisar com alguma antecedência, geralmente me deixavam incapacitado para o resto do dia.

Então, juntando a SD e a agorafobia, duas paralelas que sempre se encontravam em mim, eu sentia uma taquicardia violenta, suor frio, sensação de desmaio iminente e um troço assaz interessante que os médicos chamam de despersonalização: frequentemente, durante as crises, eu tinha a sensação de estar flutuando, saindo do corpo.

Foram quase dois anos para eu encontrar uma médica que me desse o diagnóstico correto de SD com agorafobia. Até então a moda era dizer que se tratava de estresse, que a vida de bancário leva a isso, muita pressão. Se eu tivesse procurado um pediatra, ele teria dito que era uma virose. Só então, com o veredito sacramentado, foi que iniciei um tratamento.

Parece - e é - estranho não conseguir atravessar a rua para ir até a padaria, mas essa é a realidade de quem sofre com esse distúrbio neuro-psiquiátrico, que ainda tem que enfrentar um bando de chatos que aparecem com pitacos do tipo 'você tem que ser mais forte do que isso', 'deixa de frescura', 'não acredito que você não consiga fazer isso'. No trabalho a coisa é mais complicada, porque quem está em crise não sangra, não incha, simplesmente empalidece e perde o rebolado. Aí a tendência dos babacas de plantão é tirar suas conclusões infalíveis. 

Como não há mal que sempre dure - até o Sarney um dia deve acabar -, após diversas tentativas e erros com medicamentos, encontrei uma psiquiatra que conseguiu me botar de volta nos eixos. Com o tempo passei a enfrentar com cada vez mais tranquilidade as multidões do mundo, as grandes lojas de departamento, os shoppings, até que arrisquei o estádio que, imaginava, seria minha prova de fogo. Quem acompanha este cafofo há mais tempo, sabe que já voei de asa delta, adoro minha moto e tenho milhares de horas de voo, seja a trabalho ou lazer. Então, posso considerar que a tal SD com agorafobia é coisa do passado, não totalmente negativa porque acredito que toda experiência deixa de alguma forma um ensinamento e mesmo crescimento.

Quando preparava o checklist para minha encarnação atual, de propósito deixei de ticar o quesito juízo. Então, mesmo com alguma sequela da SD, que se manifesta na forma de algo parecido com labirintite, eu me aventuro de vez em quando numas doideiras por aí. A última delas foi uma montanha russa com meu filho e amiguim Lucas. Com looping!

Resolvi filmar, e desde já aviso que não pretendo concorrer a nenhum prêmio. Experimentem fazer um looping numa montanha russa, a perna direita fazendo apoio para o moleque não sair voando e a mão direita segurando uma câmera. Até que saiu mais ou menos horrível, principalmente porque só consegui gravar na vertical e tinha dois cabras na frente:

  

Viver é um barato!


Escrito por Rogério Veloso às 23h37
[] [envie esta mensagem] []


17/02/2012

SE FOSSE FÁCIL NÃO TERIA GRAÇA

No início do ano passado um colega me sugeriu que procurasse uma agência da Previdência Social para registrar uma senha. Antes que eu perguntasse para que eu iria querer senha daquela zona, ele explicou que é muito útil entrar no site da Previdência e conferir os meus dados, já que é bastante comum haver erros e omissões, normalmente prejudiciais ao freguês.

Mas vocês estão achando que é só chegar lá e dizer que quer registrar senha? Nananina! O negócio lá é organizado: ou eu agendo por meio do portal da previdência (www.previdenciasocial.gov.br), ou ligo no 135 e faço o agendamento por telefone. Marquei para o dia tal, às 10 horas.

Às 09:50 do dia tal cheguei na agência, todo serelepe, dizendo que tinha um horário agendado. Recebi uma senha. E deu 10, 10 e meia, 11 horas, meio dia e o tal 'sistema' não voltava. Descobri depois que o problema não era de rede, mas de servidor, que não suportava todos os terminais logados ao mesmo tempo. Coisa projetada para pobre. Fiquei com vontade de pegar o encher o ministro de pancada.

Por fim, consegui registrar minha senha.

Cheguei de volta ao trabalho todo alegrinho, e na primeira oportunidade acessei o portal da Previdência Social. Então, seguindo instruções, cliquei em 'extrato previdenciário', digitei meu número de PIS e a senha. Pasmei.

Nos meus 34 anos e alguns meses de contribuição tive apenas cinco empregos, e o INSS conseguiu errar os dados de três, dois com datas em branco e o terceiro com data errada de afastamento. O passo seguinte foi agendar a correção, apelidada de 'acerto de vínculos'.

Cheguei, apresentei toda a documentação exigida, e a servidora me informou que iria demorar um pouquinho para corrigirem meus dados. Como sei que em se tratando de INSS o tempo não é contado em dias, meses ou anos, arrisquei perguntar quantas eras ou luas seriam necessárias. A resposta foi um tanto lacônica, mas deixou claro que seria prudente esperar sentado. Se fosse história em quadrinhos eu teria saído de lá com uma nuvenzinha escura sobre a cabeça.

E assim passou abril, findou maio, junho e julho se arrastaram, chegou agosto até que, em setembro, recebi uma correspondência do INSS me chamando para tratar do meu processo. Eba!

Procurei a servidora Heloisa, conforme indicava a carta, e fui informado de que resolveram priorizar quem estava mais próximo de completar o tempo mínimo de contribuição. Como eu jogava nesse time, deixei mais alguns documentos e levei pra casa a promessa de que em 10 dias ou, no mais tardar até o fim do mês, meu cadastro já estaria tinindo.

Pois é. Setembro se foi, e nada. Entrou outubro e o site da previdência indicava que nenhuma alteração tinha sido feita no meu cadastro. Em novembro voltei lá, ocasião em que fiquei sabendo que dona Heloisa havia se licenciado por DORT/LER, e sua substituta se aposentara uma semana antes. Não havia quem tocasse meu processo, a coisa tava feia feito a frente dos carros novos da GM.

Por indicação - meio secreta - da vigilante, fui falar com um servidor chamado Cícero e contar meu dramalhão mexicano. Como a esta altura do campeonato eu já completara os 35 anos de contribuição, ele me sugeriu agendar o pedido de aposentadoria. Quando do novo atendimento, eu informaria sobre o processo de ajuste de vínculos, que seria anexado ao de aposentadoria e resolvidas as duas pendengas simultaneamente.

Assim foi feito: dia 17 de novembro liguei no 135 e agendei para 08 de dezembro meu pedido da carta de alforria. Chegado o grande dia, o servidor me disse que levaria de 30 a 45 dias para sair o resultado (perguntei sobre os 30 minutos do Lula, e ele riu).

Bão, pra não cair na monotonia se passaram os 30 e os 45 dias, e não tive nenhuma notícia. Novamente na agência da Previdência Social, onde fui informado que meu pedido foi indeferido. Sem maiores detalhes.

Dias depois recebi uma correspondência oficial do INSS, informando sobre o indeferimento e o motivo: eu ainda não tinha tempo de contribuição suficiente. Achei estranho e resolvi consultar meus dados - teoricamente corrigidos - no site da Previdência Social, e achei o problema: a correção precisava de correção. Eles conseguiram errar mais uma vez, e meus dados cadastrais não batiam com meus dados na carteira de trabalho.

A solução? Tive que agendar um recurso. Dia 27 às 09:00h estarei lá para mostrar que digitação não só é uma arte, como também é coisa séria. Já me disseram que um recurso tem 'vida' de seis meses a um ano, dependendo da complexidade. Isso é a realidade, não o que diz a lei. Os processos administrativos têm prazo de 30 dias para chegar a uma conclusão, levarei uma cópia da Lei para ser anexada. Se houver desrespeito (à lei, porque eu estou sendo desrespeitado há um bom tempo), vou soltar os cachorros.

Saco!


Escrito por Rogério Veloso às 23h52
[] [envie esta mensagem] []


09/02/2012

MÓ DEPRÊ, MANO

O tal Freud deve ter uma explicação para isso, depois vou procurar no Google. Faz exatamente dois meses e três dias que não publico nadica neste cafofo, coisa que não ocorreu nem nos velhos e inesquecíveis tempos de hepatite. A razão para isso é muito simples: eu não estava a fim, assim como abandonei a rotina diária de ler e deixar comentários sobre o que meus amigos escrevem em seus blogs. Ah, também nunca mais toquei o piano e o violino. O violão às vezes ganhava um afago, coisa de poucos minutos. Devo ter lido uns quatro ou cinco livros nesse período.

Nos últimos anos andei mexendo com droga pesada. Primeiro os antivirais da hepatite, que atacam uma doença e provocam dúzias de outras. Aí, para as outras, outros remédios. Até que terminou o tratamento, meu organismo se recuperou até voltar ao normal, mas continuei emagrecendo. Foi quando descobri que o mardito interferon me deixou de lembrança um hipertireoidismo básico. O medicamento, que atende pelo nome de Tapazol, tem a missão nobre de regular o funcionamento da glândula e a mania besta de provocar quadros depressivos em alguns usuários. Eu, por exemplo.

Estranhamente - e felizmente - minha vida familiar e profissional não sofreu nenhum abalo sísmico. Existe depressão seletiva? Percebo que me aproximo de volta à tona, e estar escrevendo agora é o maior sinal disso. Nesse período de ausência muita coisa aconteceu, Luquinha passou para o quarto ano, mudou de faixa no karatê, ganhou medalha de prata na natação, Eliana mudou de área na empresa, reduziu sua carga horária e agora tem mais tempo para nos aturar, fiz um curso intensivo de francês em janeiro, descobri que se pedir um petit gateau em Paris vou ganhar uma fatia bem fininha de bolo (petit gateau é invenção de brasileiro, como aquele vinho pseudo-alemão Liebfraumilch).

O INSS resolveu me sacanear e indeferiu meu processo de aposentadoria. Só hoje é que fui perceber que tudo decorre de um erro do próprio INSS, e lá vou eu brigar com os caras. Que seria de mim, não fossem esses perrengues?

Enfim, vortei! Vamos ver se amanhã já tem assunto.


Escrito por Rogério Veloso às 22h54
[] [envie esta mensagem] []


06/11/2011

UM CARA AVOADO

Como alguns já sabem, sou auditor de uma grande empresa pública, com agências ou representações em todos os buracos deste imenso país. E por ser imenso, o País é dividido em auditorias regionais, já que não faz sentido um maluco do Rio Grande do Sul viajar a trabalho para o Amazonas. Ocorre que a minha regional, Goiânia, pega toda a costa do pacífico, englobando Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Tocantins, Rondônia, Acre, Amazonas e Amapá, o que significa que eu tenho mais horas de voo que um urubu na terceira idade.

Agora, por exemplo, estou em Paraiso do Tocantins, onde devo permanecer até dia 11. Depois, não sei. O fato é que ando meio de cojones llenos com essa vida de viajante, e a proximidade da aposentadoria é um alento. Já perdi a infância de minhas filhas por culpa dessas ausências crônicas, e decidi que não ocorrerá o mesmo com o Lucas, até porque a minha realidade no novo casamento (que já dura 13 anos) é um poderoso motivador para voltar para casa e, principalmente, um fator de desconforto quando tenho que sair para encarar um hotel mequetrefe. Mesmo que tenha cinco estrelas, é mequetrefe. Ponto.

Mas houve uma época em que eu enfrentava essa obrigação profissional de forma mais tranquila. Como estou na região das águas, nos finais de semana encarava cachoeiras, pescarias, visitava cidades históricas, e isto servia para me distrair da saudade de casa. Foi numa dessas que vivi uma aventura singular.

Era o início de 1990, logo após a posse de Fernando Zóididoido Collor de Mello. Meu destino era Rio Branco, no Acre. Conexão em Cuiabá e escala em Porto Velho. A viagem até Cuiabá transcorreu na boa, apesar do chá de cadeira de cerca de duas horas. Novo embarque - sem atraso, pode? -, eu já estava devidamente acomodado em minha poltrona quando adentraram no avião um padre e duas ou três freiras. Reza a lenda que padre em avião é sinal de mau agouro, mas deixei a superstição pra lá. Pousamos em Porto Velho, desceu uma turma, subiu outra, e bora pra Rio Branco.

Mais ou menos 15 minutos depois, eis que aterrissamos. Eu já estava todo alegrinho (pô, Rio Branco é pertinho de Porto Velho!), quando olhei na casinha que na época era a área de operações, embarque e desembarque do aeroporto e li em letras garrafais: PORTO VELHO. Caraca, voltamos!

O piloto, alegando problemas técnicos de fácil e rápida solução, pediu que todos desembarcássemos. No saguão pedi uma cerveja e fiquei olhando o avião, conversando com um colega de voo. De repente, vejo um negão mais preto do que eu enfiando uma espécie de vara na turbina do bicho, e de lá tirando o que, a princípio, me pareceu a bandeira do Flamengo. Na verdade, eram os restos mortais de um urubu avantajado, que mais parecia um jaburu.

Novo embarque, e o olhar que lancei ao padre era de murchar um galho inteiro de arruda. Por fim, cheguei em Rio Branco. Deixei minhas coisas no hotel e já iniciei o trabalho.

O primeiro fim de semana foi uma mistura de tédio com monotonia. Não encontrei um único restaurante para almoçar, porque só abriam após as 17 horas. Na época, restaurante fechava para o almoço. Eu me virei como pude, trabalhei a semana seguinte e resolvi visitar no sábado a cidade de Xapuri, a 175 km da Capital, terra de gente ilustre como Chico Mendes, Adib Jatene, Enéias, Armando Nogueira e Jarbas Passarinho. Só não imaginava que a viagem duraria seis horas, já que asfalto por ali era algo inexistente. Havia dois anos desde o assassinato de Chico Mendes.

Lá chegando, conheci a casa onde viveu Chico Mendes, o museu denominado Casa de Chico Mendes, além de outros lugares muito interessantes. Não demorou para que me convidassem a conhecer o Santo Daime, uma infusão de ervas e sei lá mais o que que deixava quaquer um maluco. De início relutei, mas a danada da curiosidade de botou na fila para receber a cuia. A fila era a mais eclética possível, com gente em andrajos e outros bem vestidos, mas todos com um discurso único: o daime leva ao paraíso. A segunda pessoa à minha frente era a atriz Lucélia Santos, uma gracinha que dava vontade de pegar no colo e levar pra casa.

Conforme a fila ia andando, passei a presenciar um monte de gente vomitando até o ectoplasma após beber aquela coisa, eu fui ficando cabreiro, e resolvi sair da fila quando vi um cara sentado no chão, completamente alucinado, que levantava os braços para o céu e repetia "não fui eu!"

Tive que pernoitar na cidade, porque só havia ônibus para Rio Branco no dia seguinte. Valeu a experiência mas, se alguém me convidar para algo do gênero, a resposta está na ponta da língua.

Droga por droga, ainda prefiro a Dilma e seus ministros.


Escrito por Rogério Veloso às 23h01
[] [envie esta mensagem] []



[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]
 
 
 
       
   



BRASIL, Centro-Oeste, GOIANIA, JARDIM GOIAS, Homem, de 46 a 55 anos, Portuguese, English, Arte e cultura, Música, Motos e Carrões







Histórico

    OUTROS SITES
        UOL - O melhor conteúdo
      BOL - E-mail grátis
      Assim Como Você
      Brasilerô
      Na Rima da Poesia
      Temporais
      Blog do Delegado
      Blog da Giovana
      Sinhá Clementina
      Simone - Escritora
      Blog da Lak
      Na Luta - Blog da Pati
      Blog da Tabs


    VOTAÇÃO
        Dê uma nota para meu blog