Na madrugada de ontem bati um bom papo virtual (até a morfética conexão cair pela enésima oitava vez) com minha amiga Silvia. Ela lá nos Isteites do Obama, eu aqui no Goiás do Zé Pinguinha(*). Discutimos sobre livros, matéria para a revista Versátil, amenidades, e quando o assunto descambou para a música, ela me pediu notícias da Lak. Para quem ainda não sabe, Lak é uma amiga querida e comum, que mora em São Paulo e ainda não conhecemos pessoalmente. Coisas da internet.
A lembrança dela veio à baila não por se tratar de uma musicista, mas porque Lak está curtindo seus últimos dias de deficiente auditiva. Dentro de pouco mais de uma semana será ativado o implante coclear, cuja cirurgia ocorreu no final de outubro. A partir daí será possível voltar a ouvir, mas a coisa não é assim tão simples.
Minha amiga perdeu a audição aos 10 anos de idade, devido a sequelas de caxumba (é mole?) e hoje, aos 32, vai precisar reaprender a conviver com sons. É questão de pouco tempo, vai demandar ajustes no aparelho até chegar ao ponto ideal, mas não deixa de ser uma coisa meio louca. Uma experiência que terá seus momentos radicais, pois como surda oralizada ela sempre prescindiu da linguagem de sinais, valendo-se da leitura labial. Fico me perguntando como isso vai funcionar na cabeça dela, acostumada que está a decodificar lábios se movimentando, e de repente não precisar mais dessa fantástica habilidade. Como vai ficar esse hábito de tantos anos, já incorporado ao inconsciente?
Em seu blog a Lakinha fala das questões que envolvem o mundo dos surdos, numa linguagem deliciosa, intimista. Conta causos do passado, experiências vividas, preconceitos sofridos, sempre traz alguma novidade de interesse coletivo e talvez nem tenha a exata noção do quanto já se tornou importante para tanta gente. Isto porque, além de abordar abertamente o tema surdez e, assim, fomentar o debate, detona velhos preconceitos e mostra que os deficientes físicos ou sensoriais não são coitadinhos nem improdutivos.
Quando surgiu a notícia do implante coclear nós, seus leitores, brincamos - meio ressabiados - dizendo que ela iria nos abandonar. Mas sabemos que isto jamais vai acontecer, e de repente toda a legião que frequenta o blog passou a mandar mensagens e vibrações positivas a ela, ao tempo em que acompanhava todo o desenrolar burocrático do procedimento.
Esta semana ela nos brindou com a informação da primeira música que pretende ouvir depois que der o ENTER na maquininha: O Pato, de Toquinho e Vinícius de Moraes, uma de suas últimas lembranças musicais antes da surdez. Por coincidência uma música que meu filho de seis anos adora. Então, que venha O Pato.
Seja muito bem-vinda de volta e este mundo de sons, minha querida. Mas não fique muito animadinha: de vez em quando essa barulheira enche o saco.
(*) apelido absurdamente injusto, atribuído ao nosso sempre laborioso governador
Com o perdão da redundância, toda cabeça de doido é cheia de doideiras. Comigo não podia ser diferente. Pois não é que, depois da constatação de que aquele vírus xexelento estava devidamente nocauteado, os efeitos colaterais da medicação deram uma bombada legal? Para sair da cama de manhã eu sou a personificação do ponto e vírgula, a cabeça fora de sintonia e com uma dor do cão, o joelho estala feito motor pedindo retífica. Se é meramente psicológico, não sei; Freud que se vire para explicar.
Como uma desgraça nunca vem só (vide duplas sertanejas) no início desta semana fiz minha cordial visita mensal ao Centro Juarez Barbosa, para buscar meu coquetel molotov on the rocks. Cheguei pouco depois das 8, peguei a senha e resolvi esperar do lado de fora. Primeiro porque lá dentro já não havia lugar para sentar, e também porque tenho que evitar aglomerações devido à baixa imunidade. Principalmente depois que li a notícia de que nos EUA tinha sido descoberta a presença do vírus da gripe A num gato - e eu sou um gato -, fiquei meio cismado.
Desta vez tinha uma novidade: um grupo de funcionários do Tribunal de Contas do Estado estava entrevistando os "clientes". A pesquisa, segundo me informaram, é parte integrante de um amplo trabalho de auditoria que está sendo realizado por aquele tribunal. Como diria a Sinhá Clementina, vô assuntá pra ter certeza de que tem o dedo da comadre Dri nesse trem. O questionário busca informações sobre tempo de atendimento na obtenção da senha, tempo de espera até o efetivo atendimento, adequação das instalações, qualidade do atendimento, críticas e sugestões.
De início fiquei feliz feito pinto no lixo, mas minha alegria foi minguando à medida que ouvia o povo respondendo às perguntas. Fiquei perplexo ao constatar que os entrevistados, em maioria, teciam elogios àquele teatro do absurdo, alguns chegando a afirmar que ali permaneciam no máximo uma hora. Na minha vez, terceirizei o ônus das respostas ao meu pitbull, que definitivamente não estava no melhor do seu humor.
Meu momento inicial de emputecimento foi, aos poucos, dando lugar a uma análise mais racional. O IBGE diz que eu faço parte de uma minoria privilegiada, tipo 2% da população, em termos econômicos. Aduz-se a isto o fato de (moléstia à parte, num é pra mim gambá) ter um grau de instrução e informação acima da média. Olhei em volta e vi que tinha que ter comiseração com aquele povo de baixa renda e baixa escolaridade, vítima de políticas públicas deliberadamente alienantes e assistencialistas. Não há a menor consciência de cidadania, e isto faz com que programas governamentais, como este de dispensação de medicamentos excepcionais e de alto custo, sejam vistos como atos de bondade do prefeito, do governador e do presidente. Como a entrega é gratuita, prevalece o medo de cobrar ou criticar, porque podem surgir represálias e de birra esses programas serem simplesmente extintos. Na cabeça dessas pessoas, não existe o estado de direito, tudo depende da vontade soberana do governante.
Como o trabalho do TCE não vai ficar restrito às entrevistas, pois vai envolver aspectos operacionais, contábeis e de gestão, saí de lá com esperança de que algo venha realmente a ser feito para mudar aquele estado de coisas. Mesmo com o povo dizendo que não tem motivos para reclamação, é inconcebível uma unidade de saúde que recebe centenas de pessoas diariamente não oferecer instalações sanitárias mínimas, funcionar num prédio que se bobear o filhote do lobo mau consegue derrubar, não dispor de guichês e funcionários em número suficiente para atender à demanda, além de, não raro, fazer a gente voltar para casa de mãos abanando, porque o remédio não chegou.
Na corporação onde trabalho sou há muito tempo um peixe fora d'água. Não que eu me considere assim, mas assim sou visto pelos meus iguais. Na década de 1990 começou um oba-oba que me incomodava, pura e simplesmente porque achava aquilo tudo muito babaca. Foi quando invadiram a mídia figuras como Lair Ribeiro, Marins, um tal Magela e seus clones, com discursos prontos e verdades absolutas. Pior: foram entusiasticamente adotados e festejados por várias empresas, como se fossem gênios da raça, contratados a um custo absurdo para dar palestras que às vezes eu era obrigado a assistir.
A tática adotada era basicamente a mesma: dizer coisas ininteligíveis para a platéia se sentir idiota e com vergonha de fazer perguntas, tentar ser engraçado, dar exemplos dos então chamados tigres asiáticos, abusar de neologismos e expressões atribuídas ao moderno mundo corporativo globalizado e, por fim, citar situações pessoais e familiares que foram resolvidas com base nos ensinamentos que estavam nos passando. Teve um que chegou ao cúmulo de explicar, com detalhes, como convenceu o filho de quatro anos a comer bolacha de maizena. Justo nesse da bolacha eu fui entrevistado na saída do auditório, pela equipe promotora, que queria saber as minhas impressões sobre o palestrante. Comparei-o ao Chapolim Colorado: ridiculamente cômico e absolutamente inútil. Nunca mais me entrevistaram.
Passam-se os anos e as soluções definitivas vão se sucedendo e fazendo água: Reengenharia, 5S, Qualidade Total (lindo, isso), Melhores Práticas e outras menos cotadas. Juro que até hoje não sei direito o que significa agregar valor, sinergia, paradigma, otimização, governança corporativa. Não no contexto em que foram ou são colocados esses termos e expressões. Em dado momento virou moda cada empresa, mesmo micro e de pequeno porte, afixar em suas paredes quadros contendo textos pré-fabricados com os títulos NOSSOS VALORES e NOSSA MISSÃO. Até o laboratório do qual já sou quase sócio tem esse placebo pendurado, e o engraçado é que consta, dentre outras coisas no quesito Nossa Missão, o encantamento do cliente. Fico imaginando o quanto o cara fica encantado, enquanto espera o cocozinho dele ser analisado.
Eu achava que o ápice do inferno era ouvir alguns colegas repetirem, apaixonadamente, alguns mantras consagrados pelo modismo da vez. Às vezes não aguentava ficar quieto e perguntava: "você acredita mesmo nisso?"
Infelizmente eu estava errado: o pior ainda estava por vir. Chegou o momento em que a palavra de ordem era resultados. Como se já não o tivéssemos, mas vá lá. É normal e compreensível que as empresas busquem aumentar sua riqueza, é para isso que existem. O problema foi o método utilizado: o carinha ao lado, que antes era um colega de trabalho e futebol, passou a ser um concorrente. A quase totalidade das grandes empresas adotou a atribuição de metas individuais e de grupo, premiando alguns, punindo outros, e o resultado mais visível disso é uma legião de autômatos estressados. O que antes era um grupo, passou a ser um aglomerado de individualidades.
Dia desses li no UOL uma reportagem, intitulada O Mundo Corporativo Está Doente, em que estas questões são analisadas pela psicanalista Mariá Giuliese. Pincei algumas opiniões:
"(...) o mercado de trabalho está cada vez mais desorganizado, focado predominantemente em resultados, metas e lucro. As questões humanas estão sendo abandonadas, aos poucos. (...) Existe uma competitividade dentro das empresas e também fora delas, no mercado de trabalho. (...) Exige-se que as pessoas estejam sempre superando seus limites, sempre fazendo mais e melhor. Mas todos têm limites. É como se houvesse uma negação da questão humana. Isso causa sofrimento. O funcionário adoece e, com o tempo, a própria empresa adoece.(...) ...quando a empresa fica "doente", acaba perdendo seus melhores talentos. Somente depois dessas perdas, as organizações começam a fazer um esforço enorme para reter as pessoas. E esse grande esforço envolve estratégias de manipulação e sedução dos profissionais, no lugar de dar as condições reais para que estes se desenvolvam. O resultado é que a empresa perde produtividade e lucro. (...) ...um dos principais problemas, atualmente, são os belos discursos das organizações, cada vez mais distantes da realidade. Mas as promessas são capazes de encher os funcionários de esperança. Surgem então as frustrações, os desapontamentos, e os discursos caem no vazio, a ponto de ninguém mais acreditar neles. Por exemplo, muitas empresas afirmam que acolhem e incentivam a diversidade. Mas, quando um funcionário diz algo que contraria seu gestor, ou mostra uma maneira diferente de ver as coisas, acaba sendo punido (de forma escancarada ou não). No fundo, as empresas preferem que todo mundo seja igual e pense igual, que todos funcionem da mesma forma e aceitem as concepções do principal executivo. As pessoas podem não aceitar tudo, mas espera-se que elas não demonstrem essa não-aceitação de forma contundente. É preciso obedecer.(...) Se a empresa começar a funcionar de acordo com seu discurso, já é meio caminho andado, porque os discursos são sempre bonitos. Além disso, os funcionários não podem ser punidos por expor ideias discordantes. (...) As organizações precisam ainda aprender a explorar o que cada um tem de melhor, no lugar de exigir o que as pessoas não têm. Não há nada mais cruel para o ser humano do que pretender dele algo que não possa dar. Cada um tem suas competências, vocações e interesses. Respeitando isso, haverá menos gente "doente" nas empresas."
Eu me senti aliviado por descobrir que questionar ou mesmo discordar não faz de mim uma aberração. Ou que pelo menos não sou a única aberração no mundo, porque tenho minha amiguinha psicanalista do lado. Geralmente quando me perguntam como as coisas eram no meu tempo, costumo responder que meu tempo é agora, pois estou aqui. Mas vou abrir uma exceção: sou do tempo da Olivetti e do papel carbono, época em que fazia parte de um grupo com identidade própria. Era um período de paz interior e ambiental, porque tínhamos em comum o objetivo de defender os interesses da empresa, e esta, por sua vez, respeitava e promovia nosso direito ao convívio familiar e a uma vida digna.
No início de 2007 fui surpreendido com a constatação de que, além de plaquetas, meu sangue hospedava um elemento estranho chamado HCV. Ou vírus da hepatite C, como queiram. Logicamente era algo novo para mim, busquei informações com profissionais da área médica e apelei para São Google, para saber o que aquilo representava, quais as perspectivas de cura, formas de tratamento, enfim, o que mudaria na minha vida a partir de então.
O quadro, a princípio, era sombrio. O exame denominado PCR quantitativo indicava a existência de 7.200.000 RNA do vírus por ml, uma coisa absurda. Ou o bicho é baixinho, ou de sacanagem entrou zipado para caber aquilo tudo num único ml. E olha que meu sangue tem ml pra dedéu. O gastro que inicialmente me atendeu realizou a biópsia do fígado, para ter a exata noção dos danos hepáticos existentes e, assim, definir a forma mais adequada de tratamento.
A partir daí fui colocado sob a guarda e responsabilidade da Dra. Gleicy-Mar, misto de infectologista e anjinho da guarda. Definiu posologia e prazo de utilização da medicação, além de estabelecer um cronograma de exames laboratoriais de acompanhamento. E tome agulha.
Meu tratamento consistiu na utilização de interferon alfa três vezes por semana pelo período de seis meses, o que me rendeu 72 deliciosas agulhadas na barriga. Como medicamento associado encarei no período 720 drágeas de ribavirina, duas a cada 12 horas, dia sim, dia também. O tal vírus até que era meu amiguinho, não me incomodava, não causava dor nem me enchia o saco. Já os medicamentos...
Eu nunca leio bula antes de tomar um remédio, justamente para meu inconsciente não ficar tentado a assumir os efeitos colaterais. Assim fiz com os maledettos, mas não adiantou não ler. Tanto o interferon quanto a ribavirina trazem bulas cujas letras são mais ou menos do tamanho do vírus. Duas linhas para a indicação, quatro para a posologia, duas páginas para as contra-indicações e 120 para os efeitos colaterais. Sabe o que é sentir dor de cabeça o dia inteiro, a ponto de deixar de notar? Fora as dores nas articulações, sensação febril, irritabilidade, fadiga, dificuldade de concentração. Para arrematar, os remédios me causam anemia e queda imunológica. Legal, né?
A cada 25 dias eu tenho encontro marcado com o laboratório para tirar um tantico de meu sanguinho premiado, e verificar a quantas andam as plaquetas, leucócitos, hematócitos, e aquela sopa de letrinhas TGO/TGP. A galera já me conhece pelo nome, nem preciso mais pegar senha.
Em meados de março deste ano completei os seis meses de tratamento, e o passo seguinte era novo exame de sangue. Desta vez o PCR (sigla em inglês para reação em cadeia da polimerase), para ver se valeu todo o sacrifício. Não valeu. Primeiro foi solicitado um PCR qualitativo, que só identifica a presença do vírus, e deu positivo. Em seguida foi feito o quantitativo, que denunciou a presença teimosa de 2.700.000 RNA/ml. Eu ainda era um milionário, portanto.
Dei uma baqueada, é claro, mas a última vez que me lembro de ter entrado em desespero foi quando a imprensa danou a especular sobre a contratação do Luxa para comandar a seleção. Achei melhor consultar quem sabe das coisas e buscar alternativas.
A doutora ficou mais triste do que eu, mas disse que minhas chances no retratamento com interferon peguilado seriam enormes. Mais agulhadas. Nesta nova etapa do tratamento, duas diferenças: o prazo seria de um ano, mas as injeções se resumiriam a apenas uma por semana. No total serão 48 buraquinhos novos na minha outrora imaculada barriga de tanquinho e 1440 cápsulas de ribavirina. E tome dor de cabeça, tronco, membros, alma, aura e ectoplasma.
Dia 19 passado completei a 12ª. semana de retratamento e, conforme a praxe médica, novo PCR. Olha o resultado do danadinho aí embaixo:
Trocando em miúdos: ELE MORREU, ELE MORREU, ELE MORREU!
Quer dizer, então, que acabaram as agulhadas, as cápsulas calibre 38 e os efeitos colaterais? Nananina. O tratamento é como um ritual, tem que ser levado até o fim. E não é frescura dos médicos, não, o problema é que esse vírus excomungado tem complexo de Jesus Cristo, vira e mexe entra numas de ressuscitar para a glória eterna. A partir de agora a tática é oposta àquela adotada por time pequeno, que quando está ganhando joga na retranca. Tenho que estar sempre no ataque, chutando cachorro morto. A coisa é tão séria, que até dois anos após a última agulhada vou fazer exames laboratoriais regulares. Somente após isso, e se mantendo o resultado "não detectado", é que serei oficialmente declarado curado.
Ao longo de todo esse período, tenho recebido manifestações de apoio e amizade de um sem-número de pessoas amigas, familiares ou não, e quero deixar registrado meu agradecimento pela solidariedade, pelos telefonemas, e-mails, novenas, comentários deixados aqui neste cafofo. Um agradecimento especialíssimo à minha Eliana, que algumas vezes flagrei chorando, mas seguramente foi a pessoa mais importante que tive ao meu lado, e me deu forças para encarar essa empreitada sem deixar a peteca cair. Apesar de ter conhecido um Rogério estranhamente disciplinado no tocante ao tratamento, levei a coisa na brincadeira, com otimismo e piadas, e isto só foi possível porque eu sabia que não estava só.
Desde que resolvi, em 2006, chutar o balde e ingressar na justiça trabalhista contra o que considerei abusos e ilegalidades inaceitáveis praticados contra mim, tornou-se rotina diária acessar os sites dos tribunais regional e superior do trabalho. Precisava acompanhar de perto o andamento do processo. Esta semana o TST me deu ganho de causa, e estou na expectativa de um eventual agravo de instrumento, para despejar minha ainda numerosa artilharia pesada escondida na manga. Acho que o assunto já morreu, mas nunca se sabe.
O processo chegou ao Tribunal Superior do Trabalho em setembro de 2007, tendo tirado um cochilo básico de cerca de dois anos. Durante esse tempo meus acessos serviram para que eu tomasse conhecimento de decisões as mais diversas, algumas contraditórias entre si. Observei que algumas situações exatamente iguais tinham decisões diametralmente opostas, o que me obrigava a tentar adivinhar quais eram os critérios utilizados. Descobri: a cabeça do julgador.
É esquisito isto, mas parece que a redação dos acórdãos subordina-se menos à letra da Lei e mais ao humor do ministro. Há cerca de 20 dias a SDI - Seção de Dissídios Individuais, em processo semelhante ao meu, emitiu decisão que na prática passa uma borracha sobre os artigos 177, 224 e 468 da CLT, além de afrontar tanto a Súmula 102 quanto o Enunciado 109 do próprio TST. O placar foi apertado, parecia decisão por pênaltis (5x4), mas valeu e deixou a impressão de que aqueles senhores togados disseram: danem-se as Leis, o que interessa são meus valores, meu estado de espírito e minha opinião.
Zeus não faria melhor.
Meu julgamento foi marcado para dia 30 de setembro, e rezei para a mulher do ministro julgador não resolver dormir de calça jeans justamente na véspera.
Para se ter uma idéia de como a coisa é complicada, valem os exemplos abaixo:
Notícias do Tribunal Superior do Trabalho
01/10/2009
Limpeza de banheiro público não é atividade insalubre
Notícias do Tribunal Superior do Trabalho
02/10/2009
Arrumação de lixo em condomínio dá direito a adicional de insalubridade
Estas notícias foram extraídas do site do TST, constituem release de decisões do Tribunal e, em resumo, dizem o seguinte: manipular lixo é insalubre; lavar latrina de banheiro de rodoviária e vez por outra pegar na merda é atividade corriqueira, tipo vender alface na feira. Cada um dos processos que deram origem às decisões teve um julgador diferente.
Duas coisas minam o equilíbrio emocional de qualquer um: o tempo que leva até o julgamento e a incerteza se realmente aqueles senhores vão fazer justiça. Deve ser por isso que se costuma dizer, em tom de galhofa, que de cabeça de juiz e bumbum de nenê nunca se sabe o que vai sair.
A imprensa brasileira e de outros países noticiou que o Brasil solicitou à ONU uma investigação sobre direitos humanos em Honduras. Não vou entrar no mérito da questão, até porque não tenho a menor idéia do que se passa naquela esquina do mundo.
Trazendo o assunto para o meu microcosmo, fico com vontade de perguntar às autoridades brasileiras qual é a definição para direitos humanos, que, segundo se lê nas entrelinhas, no país centro-americano andam em falta.
Já mostrei neste cafofo a forma carinhosa e atenciosa com que nós, os habitantes deste País eivado de irretocável respeito aos direitos humanos, somos tratados quando necessitamos dos serviços de saúde pública. Pode ser na questão da dispensação de medicamentos considerados excepcionais – como os da hepatite C de que necessito –, como também quando nos vemos na necessidade de procurar os hospitais públicos, que no mais das vezes são prévias de matadouros, onde falta de tudo, desde o básico (gaze, esparadrapo, medicamentos de primeiros socorros), até tomógrafos e leitos em UTI. Somem-se a isto as imagens que vemos nos noticiários de TV, com pacientes jogados nos corredores, sem atendimento e tratados como animais sarnentos. Desnecessário lembrar que nossa Carta Magna diz, com todas as letras, que a saúde é um direito de todos e obrigação do Estado.
A propósito, o blog do jornalista Xico Vargas, em post de 13/09/2009, informa que “O ministro de hoje, José Gomes Temporão, que pretende tungar mais 12 bilhões de reais com a CSS, não consegue gastar nem o que lhe puseram nas mãos para investir na saúde dos brasileiros. Dos 3,7 bilhões de reais autorizados para investir até agosto de 2008, sua excelência não passou dos 387,7 milhões de reais e, dessa grana, só pagou 4,29% (158,7 milhões)”.
Quando saímos às ruas, não sabemos a quem devemos temer mais: o bandido ou a polícia.
Segundo notícia do JB Online de hoje, o Brasil ainda tem 15,8 milhões de crianças e adolescentes que não freqüentam a escola. As autoridades se defendem dizendo que esse pequeno contingente não comparece às aulas porque não quer ou só está interessado na merenda. Sei.
Para ficar só em mais um (mau) exemplo: quem tem alguma deficiência neste País – e não me refiro à deficiência moral, que geralmente é lucrativa e dá prestígio –, tem que matar um leão por dia para se impor como ser humano aos olhos das autoridades e da população em geral.Não se respeitam vagas de estacionamento, não há calçadas decentes, não há rebaixamentos de meios-fios nem rampas minimamente operacionais, não há isenção fiscal para ósteses e próteses que poderiam dar uma melhor qualidade de vida àquelas pessoas que trabalham, estudam, produzem e pagam impostos como eu. Salvo honrosas exceções, o quadro é este.
Então, volto à pergunta: senhores “otoridades”, o que diabos vêm a ser Direitos Humanos? A pergunta seguinte é inevitável: pratica-se isto no Brasil, a ponto de os senhores vestirem o fardão de paladinos da moralidade e cobrar dos outros?
Terminei hoje o primeiro conto para o livro. Intitula-se Voo Noturno (nada a ver com Exupéry) e, concebido para ter tipo 20 páginas, acabou com 33. Já tá bão! Engraçado que, quando Simone me convidou para escrevermos o livro, eu já tinha alinhavados há anos dois contos que, não sei por que motivo, foram colocados em stand by quandojá estavam com pelo menos a metade escrita, e resolvi iniciar do nada o Voo Noturno. Os outros dois têm traços autobiográficos que saltam aos olhos; já este foi sendo inventado a cada dia, e me empolgava à medida que a trama ia se desenvolvendo.
Talvez por influência de meu biorritmo, à noite meu trabalho de criação, seja com letras ou notas, rende de uma forma que às vezes até me assusta, e foi assim com o conto. Ficava até altas horas digitando, deletando e digitando, quando pedia arrego tinha adicionado de três a cinco páginas e ia me deitar de madrugada imaginando como seria a continuação da trama. O título do post é uma alusão a cinco personagens que mandei para o aquém do além sem qualquer remorso.
Agora preciso terminar os outros dois e entregar a Simone para revisão até o final do mês. Lá vêm madrugadas digitativas. Que bom!
Paralelamente fiz a continuação da primeira matéria para a revista Versátil, de São Paulo, mas sou mais chato que música gospel, achei uma porcaria e resolvi reescrever. Acho que posso me dar a esse luxo, até porque a primeira matéria deve ser publicada agora em outubro e tenho alguma folga para fazer um trabalho digno de minha chatice em forma de exigência. Tenho a presunção de que Sinhá Silvia vai me agradecer por ser chato, grazadeus.
Admito que não acho nem um pouquinho simpática a expressão, mas não encontrei nenhuma outra que defina melhor o que rola no Juarez Barbosa (o tal JB, lembram?) quando vou para lá, todo pimpão e motivado, buscar minha dose mensal de veneno. A foto foi tirada dia 08 de setembro último, e mostra um trecho da fila - foto não faz curva - para pegar a senha. Não vale rir.
Desde meados de junho do ano passado sou freguês assíduo daquele castelo de horrores, e em raríssimas oportunidades esperei menos de três horas. Desta vez cheguei lá cedo e saí perto das três da tarde, felizmente sem aquele sentimento de revolta, impotência e frustração que tive que amargar algumas vezes. Mas voltei para casa com a certeza de sempre, de que aquilo poderia ser bem melhor, mais limpo, mais equipado, com mais funcionários, e o prédio sem aquela inquietante aparência "daqui a pouco eu desabo".
Diz o adágio que o mineiro só é solidário no câncer. Aqui no Goiás parece que conseguimos abrir um pouco mais o leque, e somos solidários também na esclerose múltipla, na esquizofrenia, na hepatite, e é digna de estudo a empatia imediata que existe entre os perrengados, eu incluído, porque de repente viramos uma espécie de confraria. Certa vez uma senhora virou-se para mim e perguntou qual era o meu pobrema. Expliquei e ela me contou que era frequentadora do lugar havia anos, devido aos surtos esquizofrênicos que de repente passaram a compor o cotidiano de seu filho e, por consequência, de toda a família. Depois disso, sempre que encontro Dona Irene nas filas da vida dou um beijinho nela e pergunto pelo Ralf.
É gente de (quase) todas as classes sociais, analfabetos e pós-graduados, gente que chega de carro e gente que só tinha dinheiro para pagar o ônibus da ida. A maioria mora lá longe, alguns no interior. Ali naquele bolo a massa torna-se homogênea, nos sentamos juntos, conversamos, comparamos os números de senha, trocamos impressões e experiências. Se já é uma tendência natural achar que os problemas alheios são sempre piores, ao conversar com esse povo geralmente tenho a certeza de que não posso me queixar.
Relator da reforma eleitoral quer restrições ao site YouTube Piero Locatelli* Do UOL Notícias Em Brasília
O relator da reforma eleitoral, senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG), decidiu recuar parcialmente da proposta de proibir blogs e sites na internet de expressarem opinião sobre um candidato. Azeredo informou que pretende apresentar uma emenda em plenário. "Eu vou fazer uma emenda de plenário para esclarecer as questões relacionadas à internet, que já há haviam sido aprovadas pela Câmara." O senador, no entanto, disse que deve manter diversas restrições no projeto(...)"
Eta povinho chato, que não me deixa em paz para escrever meus textículos para a revista e o livro! Mas não dá para achar graça nem ficar quieto ante as intenções do ilustríssimo Sr. Dr. relator de reinventar a censura, a exemplo do que fez aquele desembargador do TJDF. Quem cala, consente; quem se cala é cúmplice.
Só uma perguntinha, nobre senador: e se eu resolver postar minhas carinhosas opiniões a partir de um servidor da Malásia, o senhor vai até lá para me dar uns cascudos? Pergunte aos seus netinhos como é que funciona essa tal internet.
Mais um pouquinho e ele vai querer proibir os brasileiros de comentar sobre o mensalão em Minas.
O mais espantoso nisso tudo é a crônica falta de vergonha na cara. Enquanto a gente está aqui tentando apoiar de forma efetiva a proposta nascida no Transparência Brasil e objeto de projeto do TSE, visando a proibição de registro de candidaturas de políticos com ficha penal suja, aparece um iluminado querendo nos proibir de chamar bandido de bandido.
Prédio da Câmara de Teresina (PI) que custou R$ 6 mi não cumpre lei de acessibilidade
JOSÉ EDUARDO RONDON da Agência Folha
Uma vistoria do Ministério Público do Piauí no novo prédio da Câmara Municipal de Teresina apontou que o Legislativo não cumpriu a lei federal de acessibilidade para a construção da obra. Orçada em R$ 6 milhões e prevista para ser inaugurada na segunda-feira (31), a futura sede pode ser embargada caso não sejam feitas as mudanças exigidas pela Promotoria.
Em vigor desde 2000, a lei 10.098 dita normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade de deficientes físicos ou pessoas com mobilidade reduzida.
Entre os critérios que foram desrespeitados na construção do prédio público estão a ausência de rampas de acesso nos padrões da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas), a falta de barras para abertura de portas, o uso de balcões de atendimento com altura acima do permitido e a inexistência de rebaixamento nas calçadas em frente ao imóvel.
A promotora Marlúcia Almeida diz que, da maneira como foram feitas as rampas --com um ângulo de inclinação maior do que o estabelecido-- não há segurança para os deficientes que forem usá-las. Ela conta ter encontrado uma rampa com uma inclinação de 14%, enquanto o ideal é até 8%.
"Se você faz fora dos padrões, você não dá autonomia, não dá segurança. O presidente da Câmara [que não é cadeirante] foi fazer um teste na rampa e subiu com uma cadeira de rodas. A cadeira quase virou com ele."
Os chamados homens públicos brasileiros mais uma vez deram uma aula do mal. Soa irônica a notícia de que o Legislativo não cumpriu a lei federal de acessibilidade para a construção de sua sede, e de novo temos a demonstração de que esses indivíduos não são totalmente inúteis, pelo menos servem de mau exemplo. Como maus exemplos temos a rodo em todas as esferas do Executivo, Legislativo e Judiciário - é um tal de órgãos do judiciário acharem normal a aceitação de patrocínio em eventos por parte de réus frequentes, políticos roubando e ficando por isso mesmo, outros utilizando bens e verbas públicas para uso privado e ficando tudo por isso mesmo -, que a consequência mais sensível no dia-a-dia é um povo amoral, que segue os exemplos "de cima" e considera que quem anda na linha é otário.
Talvez esses maus exemplos sejam a origem daquela prática horrorosa de tomar iogurte dentro do supermercado e deixar a embalagem na prateleira mais próxima, furar o sinal porque ninguém está vendo, achar normal molhar a mão do guarda (e o guarda também inventar factóides para ter a mão molhada), e isso tudo redunda num fenômeno sócio-comportamental que se traduz na palavra desrespeito, subproduto da falta de educação e amor fraterno.
Dia desses fiquei imaginando o que se passa na cabeça de algumas pessoas, que conscientemente resolvem seus problemas pessoais às custas da dificuldade alheia. Será que não bate um mínimo de remorso depois? O fato é que as fotos que mostro abaixo foram tiradas num período máximo de quatro horas:
Note-se que o veículo está estacionado numa vaga exclusiva para deficientes físicos e pessoas com mobilidade reduzida
Isto forçou um cadeirante(veja adesivo no parabrisa) a estacionar do lado, em local bem longe da rampa
Sem preconceito (eu sou motociclista), as motos são campeãs na modalidade esculhambação
Olha aí que coisa linda!
Transcrevendo a mensagem: Deus sem você é Deus; e você sem Deus, é o que? Respondo: alguém que não respeita os outros e estaciona a moto em vagas exclusivas para deficientes físicos.
Tem mais um monte de fotos, mas bateu uma certa preguiça. Além do que seria mais do mesmo.
Eu rejeito aquela frase feita meio canalha, no sentido de que nós somos todos mal educados. Nós quem, cara pálida? Isso parece papo de quem tem culpa no cartório e tenta generalizar para diminuir a própria pena ou evitar uma acusação específica, coisa de senador. Eu não faço nada disso, e conheço muita gente que também não faz. Aliás, justiça seja feita, no período em que estive fazendo as fotos presenciei pessoas que, ao perceberem que se tratava de vaga exclusiva, engataram a ré e procuraram outro lugar para estacionar. O mundo tem jeito, sim.
Na abordagem as pessoas em maioria subiam nas tamancas, "eu só vou ali rapidinho", "não tem ninguém usando a vaga", "você vai me multar?" Expliquei que não era do batalhão de trânsito (que, aliás, está pouco se lixando para vagas exclusivas aqui em Goiânia), mas apenas um cidadão inconformado com a falta de educação delas. Teve um brucutu que achei que iria me dar um peteleco, mas deve ter me achado com cara de autoridade e limitou-se a sair pisando duro.
Para não cometer injustiças tomei alguns cuidados. O veículo pode não conter o adesivo por esquecimento, ou mesmo ser um veículo que naquele momento servia de transporte para um cadeirante, uma grávida ou qualquer outra pessoa que tivesse ou estivesse com dificuldades de locomoção, o que dá direito ao uso da vaga. Os veículos fotografados não se enquadram nessa situação, seus condutores estacionaram ali por pura falta de respeito, mesmo. O interessante nisso tudo é que predominam as madames-peruas, os fazendeirões endinheirados e, claro, os motoboys, como o maior contingente de pessoas que não respeitam as vagas exclusivas, seja por falta de formação moral, educação, consciência social ou por serem simplesmente grandes fdp.
Anotei as placas e fiz uma pesquisa no site do Detran. Foi interessante constatar que um percentual considerável possui multas lançadas por infrações diversas, sendo as mais comuns o estacionamento sobre calçadas, avanço sobre o sinal vermelho, desrespeito à faixa de pedestre e a vias preferenciais. Não creio que seja coincidência, isso tudo denota desrespeito, caráter amoral e falta de compromisso com a segurança.
A pergunta que me vem é: se o mau exemplo vem de cima, como educar e conscientizar esse povo que age por mimese?
Mudando de assunto: há algum tempo publiquei aqui o post Doidos de Pedra, falando sobre minha estréia nos palcos da vida. Recentemente fui abordado por duas outras doidas, que me fizeram propostas assustadoras que, como bom maluco, topei. A primeira foi minha amiguinha Silvia, lá dos Isteites, que me convidou para escrever alguns artigos para a revista da qual é a jornalista responsável. Achei que a experiência seria assaz interessante, principalmente porque o pedido foi no sentido de escrever sobre a hepatite C, e de alguma forma posso ajudar alguém. A outra tem uma dose de complicação a mais: Simone, minha cunhada-gata-escritora, me convidou para escrevermos um livro a oito mãos, incluindo aí uma amiga e um grande escritor goiano, cujo nome em breve revelarei (falta ele confirmar). A idéia é juntarmos nossos escritos, botarmos num balaio só e mandarmos para a editora. Pode ser conto, novela, ensaio, crônica, o que vier.
A consequência disso é que este blog, cuja periodicidade de atualização já não é uma brastemp, pode vir a ficar meio que para segundo plano, porque conciliar meu trabalho com revista, blog, livro e efeitos colaterais do meu coquetel molotov diário pode ser demais para Tico e Teco.
Atire a primeira pedra o representante quarentão da raça masculina que não treme ante a palavra urologista. Tá, é do tipo valentão? Nem um arrepio? Duvido.
A primeira providência frente ao doctor é meio que instintiva: conferir, com a discrição possível, se há algum sinal de indicador destroncado. Vale a paranóia: e se o cara nas horas vagas é goleiro ou jogador de vôlei? Dedo destroncado costuma inchar, o que fatalmente potencializa o sofrimento até do paciente mais otimista, que não considera assim tão inevitável que a consulta vá terminar nas vias de fato.
Minha visita ao urologista foi motivada por algo mais, digamos, nobre: de repente notei um caroço na capital dos países baixos, também conhecida como corpo cavernoso. Fiquei exultante, depois de tanto tempo sem ter com que me preocupar, finalmente rolou um perrengue. Esse papo de jogar pedra na cruz me parece coisa de amadores.
Falei com o Dr. Sérgio sobre minha descoberta e a consequente preocupação com meu velho parceiro de tantas lutas e glórias. Meio ressabiado assenti em deitar-me na maca para o exame in loco, e o som das luvas de borracha estalando nas mãos do médico me deu calafrios. E o homem pegou, fuçou, apertou como se fosse um bonequinho de borracha, eu já estava quase me levantando e cobrindo o cara de porrada, mas ele foi salvo pelo gongo e disse que eu poderia me vestir.
Novamente frente a frente, longe de suas mãos assassinas, fui informado que o problema tinha todas as características da chamada Doença de Peyronie, mas que era necessário fazer uma ultrassonografia. Imagino que por razões profissionais, solicitou também ultrassonografia dos fins, bexiga e (tchan-tchan-tchan-tchaaaan) próstata. Para arrematar solicitou exames laboratoriais de urina e sangue, PSA incluído, e uma tal fluxometria.
Falando assim, fica parecendo que estive com Bela Lugosi encarnando seu mais famoso personagem. Na verdade, Dr. Sérgio é um cara legal, do tipo que explica tudo ao paciente, não é aquele médico velha guarda que trata seus pacientes como perfeitos idiotas. Não deve ter chegado ainda aos 40 anos, e demonstrou ser observador: perguntou se eu era violonista, logo explicando que tinha notado calos nos meus dedos da mão esquerda. Disse que estava começando a aprender a tocar e descobriu-se um aluno muito entusiasmado e disciplinado. Respondi que tocava, sim, mas os calos provinham do violino, que utiliza cordas de aço, e aí nossa conversa descambou para assuntos que passam longe da medicina. De repente voltamos à consulta, e ele chegou ao cúmulo de me mostrar um pênis de borracha cortado (ui!) transversalmente, para me mostrar o que pode ser o problema e onde se localiza. Saí de lá um pouco mais culto: descobri que meu pipiu velho de guerra possui um troço chamado túnica albugínea.
Os exames de imagem e a fluxometria seriam feitos na própria clínica, e já na saída do consultório marquei para dali a três dias. Como tinha que fazer exame de sangue para controle da hepatite, resolvi na manhã seguinte aproveitar uma única picada e cumprir o determinado nos pedidos da infectologista e do urologista, ocasião em que fui subtraído de meio galão de meu precioso líquido infectado.
Atendendo à recomendação do médico, cheguei na clínica com cerca de meia hora de antecedência, porque precisava tomar um porre de água antes. No que eu achava que não cabia mais, a enfermeira me mandava tomar mais um copinho. Sabe aquele amigo manguaçado que acha que você bebeu pouco e fica te aporrinhando com o insuportável “toma mais um golinho”? Era ela, a enfermeira. Até que chegou uma hora que não deu mais: minha filha, eu já sou quase um poço artesiano!
Minha barriga estava de tal maneira dilatada que provavelmente deitado eu estaria mais alto do que em pé, e nada de ser chamado. Comecei cruzando as pernas, depois fiquei com medo de descruzar, aí desapertei o cinto, depois tirei o cinto, olhei o relógio na parede e tinham passado cinco minutos da hora marcada, uma eternidade, onde vamos parar? De repente: Rogério Veloso!
Levantei-me puxando um pouquinho da perna – “é o menisco” – e fui encaminhado à sala de ultra-som. Deitei na maca, levantei um pouco a camisa, abaixei a calça, o médico passou aquela meleca e começou a me escanear. O cara não estava nem aí para minha situação de penúria, eu já estava quase urinando pelos ouvidos e ele apertando aquela coisa como se meu baixo ventre fosse uma almofada de carimbo. Quando eu achei que tinha terminado, ele me pediu para ficar de lado e fotografou o rim direito, depois o esquerdo, dedicando-se, por fim, a ele, o imprescindível, o absoluto, o magnífico, meu bilau.Uma vez encerrada a tortura, lá vou eu para outra sala fazer a fluxometria, até então algo tão misterioso como a longevidade do Sarney. Foi um momento de júbilo absoluto quando a enfermeira me disse que o exame consistia em...urinar! Parece e é esquisito, mas eu simplesmente tinha que urinar num recipiente que embaixo lembra um balde e na parte de cima tem uma espécie de funil, isso tudo conectado a um computador. Uma mijada cibernética.
- Faça um xixizinho como se fosse na sua casa.
- Assim, espalhando tudo do lado de fora?
- Se fizer isso, eu te mato.
Talvez por brincar com as pessoas, mas sem faltar com o respeito, acabo ganhando essas amizades instantâneas. A ameaça da enfermeira foi entremeada de risos, não só dela e meu, mas do próprio médico e da recepcionista que por acaso passava por ali na hora. Ela me deixou só na sala, fechou a porta e me pediu para ser bom de mira. Obedeci e fiquei encantado com o monitor, que mostrava uma linha vermelha e outra azul acompanhando meu extravasamento, e quando ordenada e abscissa se encontraram estava encerrada minha missão.
O retorno ocorreu dois dias depois.
Com os resultados dos exames laboratoriais, todos dizendo que sou um cara perfeito, novamente me vejo no consultório do Dr. Sérgio. Para meu alívio ele disse que meu PSA estava ótimo (0,5 – seja lá o que isso signifique), mas minha porção pessimista ainda estava meio cismada, afinal de contas o cara é urologista, com um monte de dedos nas mãos. Rins e bexiga em perfeito estado. Ainda que não tenha sido possível verificar via ultra-som, o diagnóstico para o calombinho foi realmente a Doença de Peyronie. Fiquei surpreso ao saber que não era algo raro, e feliz porque foi descoberto no nascedouro. Trata-se de fibrose no tecido peniano, ocasionada principalmente por viroses (lá vem!), trauma e em alguns poucos casos por hereditariedade. É uma doença progressiva, e se não tratada com tempestividade pode causar deformações e curvaturas penianas, a ponto de transformar qualquer um no Capitão Gancho. Nesses casos, a saída é cirúrgica.
Como o PSA indicou que minha próstata está uma gracinha, o médico focou a conversa para o ataque à calosidade peniana, que consiste em vitamina E e um anti-inflamatório. Eu já estava todo alegrão, quando Dr. Sérgio me lembrou da necessidade de acompanhar anualmente a próstata e, quando achei que estava na hora de ir embora, ele falou: “já que você está aqui...
Gelei.
... eu trouxe meu violão, porque daqui vou direto para a aula. Afina para mim?"
É de todo improvável que o Brou conheça minha amiguinha Lak, mas acaba de me mandar um vídeo cujas cenas finais me remeteram àquela criaturinha querida que, como boa hindu, está prestes a vivenciar uma experiência de renascimento.
A autora da montagem de slides e colocação de legendas chama-se Cleide Brito, que produziu uma sucessão assustadora de imagens ao som da música Eu Só Peço a Deus (Solo Le Pido a Diós), de autoria de León Gieco e Raul Elwanger e gravada por Beth Carvalho e Mercedes Sosa, cuja letra é um tapa na cara.
Lembrei da Lakinha porque ao final é inserida uma mensagem de Mahatma Gandhi, bela e profunda como tudo o que aquele ser de luz pensou e realizou.
Desconfio que Gandhi caiu na Terra por engano do maloteiro, mas há quem diga que veio de propósito, para cumprir a missão de mostrar ao mundo que é sempre possível resolver os conflitos sem recorrer à violência.
Qualquer que seja a circunstância, que bom que veio!
Sempre que vejo o Chimbinha num programa de auditório desses aí (já repararam que a guitarra dele nunca tem um cabo conectado?), me bate uma vontade doida de - como se diz aqui pelas bandas do Goiás - dar uma surra de cinto naquele menino.
Se eu tivesse cabelo na frente daria uma oxigenada, para ficar igualzinho.
Quando o assunto é Zezé di Camargo, fica a impressão de que ele confunde execução com assassinato. Canhoto, não inverte as cordas do violão e toca como quem rala um milho para fazer pamonha.
Tá bom, não tenho nenhuma autoridade para falar dos caras. Justo eu, um violonista prático, empírico e meia boca. Há, porém, uma diferença nada sutil: não sou profissional da música, e faço o que eles deveriam fazer: estudo a matéria que diz respeito à minha profissão, e faço disso um hábito ininterrupto.
Sei que no meio fonográfico (ainda existe essa palavra?) as coisas funcionam ao sabor dos interesses das gravadoras, e em breve o que hoje aparece à exaustão na mídia vai sumir do mapa, como se nunca tivesse existido. Já fizeram isso com muita gente. Logo, sucesso, venda de centenas de milhares de cópias, nada disso é sinônimo de qualidade musical, é tudo uma questão de jabaculê. A maioria dos pagodeiros e sertanejos de outrora que o digam.
Não sei se serve de consolo, mas há qualidade musical neste País. Excelentes instrumentistas, geralmente ilustres desconhecidos, pelo pouco que aparecem levam a inevitáveis comparações com os monstros sagrados da hora, figurinhas carimbadas dos Faustões e Gugus da vida, e de certa forma contribuem para que a mediocridade, que é regra mas não absoluta, não tenha vida tão longa.
É o caso de um carinha aqui de Goiânia, que parece ainda não ter completado 20 anos, mas que vem mandando muito bem com seu violão erudito. O nome dele é Vitor Noah, filho de Dona Adriana, minha amiguinha ainda virtual:
O vídeo é longo, dura quase 10 minutos, porque é composto por três peças. E o moleque é ousado: uma delas é o Estudo No. 8 de Villa-Lobos. Coisa que eu nem me atrevo a tentar, porque tenho só cinco dedos em cada mão.
Espero que o Vitor não se deixe ferir pelo pouquíssimo reconhecimento que se dá a quem faz música de qualidade no Brasil, e nem pense em abandonar seus estudos.
Desde que nos mudamos para o apê novo, em dezembro do ano passado, venho cumprindo um delicioso ritual. Trabalho até ali pelas três da tarde, chego em casa e encontro o Lucas à minha espera para a farra cotidiana.
Geralmente damos um tempo até o sol diminuir um pouco a inclemência, supervisiono a tarefa escolar e em seguida descemos para bater uma bolinha. Ambos devidamente paramentados. Entre sete e sete e meia subimos para o necessário e urgente banho e depois um ranguinho caprichado.
Estão achando estranho meu curto horário de trabalho? Tem explicação: sou bancário, ocupo cargo eminentemente técnico, mas minha empresa cismou de me obrigar a cumprir carga horária de oito horas. Como a CLT estabelece a jornada de seis horas para bancário, meti o pé na porta dos tribunais do trabalho e, por isso, fui rebaixado (e nem torço pelo Fluminense), perdi salário mas mantive meu horário das 9 às 15. Alguns acham que sou rebelde e encrenqueiro, mas tenho o direito de não concordar. Minha avó materna, que carinhosamente na adolescência apelidei de Madame Min (eu tenho culpa se o cabelo dela era igualzinho?) dizia sempre que quem muito abaixa a cabeça acaba mostrando a bunda. A bem da verdade, considerando minha bunda preta, magra e cabeluda, decidi que não tenho o menor direito de submeter quem quer que seja a essa visão do inferno.
Hoje o dia não foi diferente, mas teve um tempero especial: após o banho, ao acessar a internet dou de cara com o vídeo da briguinha de comadres envolvendo Renan Calheiros e Tasso Jereissati. Para uma novela do SBT até que soaria normal, mas aquilo ocorreu no plenário do Senado Federal! Será que esses caras não ficam com vergonha depois, ou basta encher o rabo de uisque para dormir em paz?
À parte o desconforto de saber que aquilo era uma cena da vida real, até que foi divertido assistir ao embate. Guimarães Rosa que me perdoe pela grotesca comparação com o que considero sua obra maior, mas é que a palavra cangaceiro foi repetida à exaustão. Ficou também muito engraçada a cara de estupefação feita pelo Sarney.
Meu único desgosto foi ter constatado que, mais uma vez, eu estava no lugar errado no momento errado. Deveria estar ali, no meio da bagunça, para ficar entre os dois, esticar o braço com a mão espalmada e gritar: cospe aqui, feladapuóóóta!
Sou funcionário concursado de uma grande instituição federal. Pelo cargo que ocupo, não raro sou designado para presidir comissões de inquérito administrativo, cuja mecânica metodológica, baseada no Direito Administrativo, estabelece algumas condições sine qua non: a(s) pessoa(s) indiciada(s) têm direito à ampla defesa e ao contraditório, o que inclui vistas aos autos enquanto o processo estiver ativo, defesas escritas e/ou orais, recursos às diversas instâncias existentes, nomeação de testemunhas, representação legal, apresentação de provas e contraprovas.
Uma condição que diz respeito especificamente à comissão: nenhum de seus membros pode ter qualquer relação de parentesco ou comercial com as pessoas envolvidas, nem ser amigo pessoal ou inimigo notório ou declarado. Caso haja qualquer situação da espécie, nós somos obrigados legal e normativamente a solicitar substituição por suspeição. Simples assim. O objetivo desse cuidado todo é muito claro: evitar vícios ao processo, garantindo a lisura dos procedimentos, a imparcialidade e, por consequência, a segurança jurídica.
Pois bem, saiamos um pouco do mundo da legalidade e vamos ao Olimpo. Segundo notícias recentes da imprensa, o desembargador Dácio Vieira, do Tribunal de Justiça do DF e Territórios, proibiu o jornal O Estado de S. Paulo e o portal Estadão de publicar reportagens que contenham informações da Operação Boi Barrica, e tal proibição decorreu de demanda judicial apresentada por Fernando Sarney, filho daquele senhor de igual sobrenome. A alegação é de que o caso corre sob sigilo de justiça, mas não entendi bem por que, uma vez que é lançada mão da figura do sigilo geralmente quando há possibilidade de prejuízo à obtenção ou consolidação de provas por ação dos investigados e afins. Mas vamos considerar legítimo o tal sigilo, até porque o TJDF é meio esquisitão. Quem não se lembra do filho de um desembargador que ateou fogo no indio Galdino, nunca foi preso, depois prestou concurso para vigilante no TJ, passou mas não foi classificado, aí misteriosamente o número de vagas foi ampliado, ele entrou como vigilante e logo depois virou dentista do tribunal, com um salarinho até mais ou menos? Papaizinho togado, uma vez questionado, disse que tudo era legal. Legal pra caramba, diria eu.
Lembram do que eu falei sobre as condições e, principalmente, as proibições que devem ser observadas nas comissões de inquérito? Pois vejam essa foto aí embaixo, que peguei emprestada do blog do Marcelo Tas: É meio chato e dolorosamente suspeito dizer isso, mas vamos nos ater aos homens (da direita para a esquerda): Renan Calheiros, Agaciel, Sarney Pai e o desembargador Dácio Vieira.
Segundo consta de matéria publicada no blog do jornalista Rogério Scavone e publicada hoje no Jornal de Itatiba Diário, de Itatiba/SP (clique aqui), "O juiz que determinou a proibição, Dácio Vieira é próximo de Sarney e Agaciel Maia, o poderoso ex-diretor do Senado, pivô da crise política atual. Ele foi consultor jurídico do Senado (cargo comissionado) e sua indicação para o TJ contou com o apoio de Agaciel e Sarney."
Não foi a única afirmação que li e ouvi sobre essa conveniente porém ao mesmo tempo incômoda relação de proximidade. Mesmo que não seja verdade, ou que não tenha influenciado na decisão, não teria sido mais prudente o magistrado arguir a própria suspeição e passar o caso para um colega, em nome da moralidade, da publicidade e da impessoalidade? No mínimo evitaria ilações, principalmente porque o pedido foi negado em primeira instância e concedido com uma rapidez impressionante (protocolado no final do expediente da quinta-feira e concedido na manhã seguinte).
Eu adoraria publicar a conversinha indecente que foi publicada pelo Estadão e que bota o velho coroné numa rosca soberba (será que podia capturar e repassar para a torcida do Flamengo?), mas a multa atribuída pelo magistrado é de 200 paus, um pouco menos que o patrimônio que consegui juntar em 33 anos de trabalho. Então, como sobrou um espaçozinho no post, resolvi botar aí embaixo um trecho de uma música prá lá de bacaninha do Walter Franco. Coisa de 10 a 12 segundos.
É evidente que vai haver aqui um hiato, porque o áudio não guarda conformidade com nada do que foi escrito lá em cima. Eu só postei porque achei bem original a interpretação do cara, uma horripilante voz gutural que remete àquela caverna do Platão.
Estou em débito com os amigos que frequentam este blog e deixam seus recados, mas tenho um álibi perfeito: dia 26 de julho iniciei o retratamento à base de interferon peguilado e ribavirina, e se fez sentir quase que de imediato a lua de mel com os efeitos colaterais, que entraram de sola no melhor estilo Júnior Baiano.
O corpo, dolorido e febril, quase não se move. A cabeça não ajuda.
Assim que entrar em campo minha fênix de estimação, uma espécie de deus ex-machina que descobri fazer parte de minha fisiologia, a normalidade estará restabelecida.
Dia 08 deste mês minha filha Ana Paula completaria 22 anos. Na falta de idéia melhor resolvi comemorar nas dependências do Centro de Medicamentos de Alto Custo Juarez Barbosa, o popular JB. Precisava retirar o segundo lote dos medicamentos de que necessito para fazer o retratamento contra a hepatite C, e já que o dia não era exatamente feliz não me importei muito. Na verdade não foi por falta de idéia melhor, a burocracia determina que eu tenho que retirar os medicamentos todo dia 8, não pode ser nem 7 nem 9. Até sem querer o JB é cruel.
Cheguei cedo e minha senha já estava na categoria 3 dígitos. Normal, e observei que também mantinham ares de normalidade as condições outrora enfrentadas e que esperava não ter que encarar novamente. Não que eu seja um cara pessimista, mas por via das dúvidas carreguei a câmera fotográfica que dei de presente para Eliana mas quase não a deixo usar. Pelo menos deu para me divertir um pouco.
Área de dispensação, também conhecida como farmácia
Detalhe do teto da farmácia
A maquininha de triturar pobre continua por lá, agora acompanhada de uma escada
As famosas caixas de papelão também, afinal os ratos precisam de um local digno para dormir
Ah, dirão alguns, faça uma denúncia junto à Vigilância Sanitária. Minha contra-argumentação vem também em forma de fotos:
Não vale rir porque o assunto é sério, mas a Superintendência de Vigilância Sanitária tem uma representação naquele antro. Está vinculada administrativamente à Secretaria de Saúde do Estado. Precisa falar algo mais?
Não pretendo causar nenhum trauma a ninguém, mas tenho uma revelação bombástica a fazer: o governador, o secretário da saúde e o superintendente de vigilância sanitária continuam soltos.
A propósito, o título do post está em grego. Pura frescura, foi só para dar um toque de classe. Eu poderia ter usado o alemão In Hölle Wieder que daria na mesma, eu nem falo essas linguas esquisitas. A tradução para o português é que não chega a ser edificante: de volta para o inferno.
Foi sem querer, mas voltei. Natal estava daquele mesmo jeito, sempre me esperando, mas desta vez não havia um sol para cada um. Não significa que o clima estava ruim, mas não era aquele calor de janeiro. Até choveu! Como chuva nunca foi empecilho para nada em terras potiguares, logo estávamos metendo o pé na areia e planejando os pecados mais hediondos para a curta temporada. Peixe, espetinho, picolé, mergulho, queijo de coalho, camarão, mergulho, cerveja para quem pode, água de coco, crepe, refrigerante e mergulho. À noite, picanha e uma boa pratada de arroz, porque goiano que se preza não fica sem.
Se há algo que Lucas e eu não combinamos com Eliana é a relação com o sol. Presenteados que fomos com uma dose cavalar de melanina, logo viramos dois bonequinhos de piche, e ela permanece branquela ou, no máximo, vermelhaça. Aos fatos:
Primeiro dia:
Terceiro dia:
Água morna, clima gostoso, barriga cheia, pé na areia, resolvi não abrir jornal nem para fazer palavra cruzada. Televisão era de uso exclusivo do Lucas, invariavelmente sintonizada no Discovery Kids ou Jetix. Fiz o impossível para não ver o bigode de arame do Sarney pelo menos nesse período de relaxamento, até porque quem gosta de merda é latrina.
Momento em que fui flagrado taciturno, preocupado com a Nasdaq e as eleições no Quirquistão
Já há anos passamos as férias em companhia dos cunhados Simone e Gustavo e a sobrinhada Mariáh e Diogo. Sabe aquela sintonia perfeita, que sequer cogita de algum conflito? Nossa contabilidade nesses passeios é mais zoneada que a da turma do mensalão, e não tem aquela coisa idiota de ficar fazendo contas exatas, para ver quem tem que entrar com um percentual maior no rateio porque comeu mais camarão. A gente racha e pronto.
Olha a galera toda aí:
Não demorará muito e estaremos planejando a próxima aventura. Todos nós temos profissões desgastantes, nosso dia-a-dia é geralmente pesado e precisamos muito desses momentos. É quando nos damos o direito de não pensar em nada que tenha algum grau mais incômodo de seriedade, e assim focar nossas preocupações no hoje, no daqui a pouco, na praia ainda desconhecida que foi indicada por alguém ou no restaurante lá longe que serve uma peixada animal.
É, Natal oferece tudo isso. O único lugar de que não gosto de lá é a sala de embarque.
Não é pra humilhar, mas daqui a algumas horas estarei em Natal, em muito boa companhia, para alguns dias de ócio merecido. Se tudo correr conforme o planejado, voltarei mais preto que o Odivan. Na volta, fotos. Nesse meio tempo, em se confirmando na prática o que o site do hotel promete, postarei as costumeiras doideiras. Até lá.
Corria 1996 e eu fui designado para fazer um trabalho de auditoria em Anápolis. Coisa de rotina. Foi quando conheci minha musa Eliana, que trabalhava lá e de imediato rolou uma amizade que nos levava a ficar jogando conversa fora todos os dias após o expediente. Somente depois é que me despedia dos colegas e pegava a estrada de volta pra casa.
Eu ainda estava casado e nunca me permiti pular o muro, e mesmo que tentasse algo ela não toparia. Ficamos na amizade.
1998. Já separado há algum tempo, eis que os deuses conspiram e retorno a Anápolis para outra auditoria. Eu não me lembrava mais de Eliana, mas bastou vê-la para refrescar a memória. O trabalho não foi tranquilo como o anterior, mas no tocante à Eliana foi a retomada de nossos agradáveis colóquios flácidos. Como costumam dizer os meteorologistas, pintou um clima.
Combinamos um rolé noturno, conversamos, rimos, contei sobre tudo o que ocorreu e culminou com minha separação e ela, por sua vez, me falou de sua vida. Nem era tão necessária essa conversa exploratória, porque a impressão que tinha era de conhecê-la desde sempre. Ao deixá-la em casa rolou um beijo. Eta bocão gostoso!
No retorno para casa eu experimentava um misto de euforia e apavoramento. Minha separação não tinha sido exatamente uma experiência tranquila, na verdade saí do casamento bem ferido, e acho até que era natural a resolução adotada de nunca mais me relacionar seriamente com ninguém. Minhas frases de cabeceira preferidas e mais pronunciadas no período eram "estou fechado para pousos e decolagens" e "agora só jogo amistoso". Mas tinha o outro lado: eu estava MESMO muito interessado nela, havia algo que sempre procurei numa mulher e achei nela. Não sei bem o que era, mas havia.
Como morávamos em cidades distantes 50 km entre si, só conseguíamos ficar juntos praticamente nos finais de semana. A Embratel era uma das maiores entusiastas de nosso namoro, porque tínhamos (e ainda temos) assunto para muitas horas, e nos falávamos por telefone todas as noites. Conforme o tempo passava, nosso relacionamento ia ganhando dramáticas cores de seriedade. Meu lado traumatizado ficava cada vez mais apavorado, a ponto de uma noite eu ter entrado no carro e rumado para Anápolis, com a intenção de por fim ao relacionamento. Por um desses mistérios entre o céu e a terra, a uns 20 km de Anápolis o sistema de injeção eletrônica simplesmente pifou e meu carro voltou para casa guinchado. Sinistro...
Tico e Teco, então, caíram na real: eu tinha que me dar o direito de tentar outra vez. O resto foi uma questão de tempo, e hoje sei que, não fosse aquele abençoado módulo da injeção eletrônica, eu teria cometido talvez a maior de minha vasta coleção de burradas.
Hoje é aniversário da minha linda, com quem divido a vida e a produção caprichada de um molequinho cuja simples existência já nos extasia. Já são sete anos de uma convivência gostosa e de paz.
Como sou metido a fazer música, é lógico que ela não poderia ficar de fora. Dois Segredos para Eliana foi composta em 1999, e os tais segredos são, pela ordem: a) estava louco por ela, e b) não queria nenhum relacionamento. Coisa de doido.
Fiz o arranjo para piano e trio de cordas, mas o efeito não foi o que pretendia, porque a versão é digital, falta fazer a equalização, balanço, fader e mais um monte de coisa. Mas depois arrumo, quero mesmo é fazer uma gravação decente, num estúdio e com músicos e instrumentos de verdade.
A Caixa Econômica Federal, na qualidade de patrocinadora do Comitê Paraolímpico Brasileiro, encomendou em 2006 a produção de uma peça publicitária em vídeo. A recomendação foi enfatizar o espírito olímpico, deixando de lado a competição destrutiva. Não sei o nome da agência contratada, mas o resultado é de encher os olhos, principalmente porque foi baseado em fatos ocorridos em Seattle-2002.
"Tudo é uma questão de manter a mente quieta a espinha ereta e o coração tranquilo" (Walter Franco)
Quando eu era criança, em São Paulo, meu pai era motorista de taxi. Foram tantos anos e tanto sofrimento que após mudar de ramo nunca mais entrou num taxi, a não ser na condição de passageiro.
Eu devia ter uns oito ou nove anos quando o velho chegou em casa carregando uma bolsa, que uma passageira havia deixado no banco do carro. Olhou, mexeu, até que encontrou um documento com foto e lembrou-se da mulher. A partir de então, foram alguns dias tentando se lembrar de onde havia pego a passageira e de detalhes que pudessem ajudar a localizá-la para fazer a devolução de seus pertences. Lembro-me que não faltaram os tradicionais pitacos do tipo "achado não é roubado", "esse dinheiro já paga seu aluguel", "deixa de ser bobo" ou "por isso que é pobre", que a vizinhança da era pré Lei de Gerson sabiamente distribuía.
A resposta de meu pai foi única e definitiva: O que não é meu não cabe no meu bolso.
O velho tanto fez que acabou encontrando a mulher e devolvendo a bolsa. Eu sempre tive muito orgulho de meu pai, e esse é apenas um dos motivos. Não havia lei que o obrigasse àquela epopéia, mas o que prevaleceu foram os valores que traz incrustados na alma e sempre fez questão de passar para os filhos.
Meu pai continua pobre, e mantém a espinha ereta e o coração tranquilo. Mente quieta nunca foi a praia dele. Aprendi com meu pai que viver é um exercício diário de vergonha na cara, e que isso independe de idade, classe social ou raça.
Dia desses fui presenteado com um vídeo que dá bem a dimensão da diferença entre o legal e o moral. Nada a ver com aqueles filminhos piegas ou apresentações em powerpoint que enchem o saco, era na verdade o trecho de uma partida de futebol, provavelmente do campeonato holandês. Um dos times era o Ajax, e numa jogada que redundou em contusão de um de seus atletas, o time adversário jogou a bola pela lateral. O que normalmente ocorre após esse tipo de lance é a devolução da bola, pelo time beneficiado, para o adversário que gentilmente propiciou o atendimento médico. É o chamado fair play.
Só que o inesperado, quiçá impensável, aconteceu: ao tentar devolver a bola para o goleiro adversário, o jogador do Ajax fez um golaço, e o árbitro não teve outra alternativa senão validar a jogada. Talvez pela primeira vez na história do futebol 22 jogadores ficam perplexos após um gol. O que ocorreu depois vocês conferem aí embaixo:
O árbitro validou o gol porque o fair play não figura nas regras do futebol, é apenas um acordo entre cavalheiros. A atitude do time do Ajax demonstrou que valores como decência, ética, honestidade e outros substantivos do gênero cabem em qualquer lugar, mesmo num campo de futebol. Tem muita excelência por aí precisando aprender algumas coisas com meu pai e o time do Ajax.
- Com sua licença, ilustre transeunte-contribuinte de cor, peço vênia para levar a cabo minhas intenções de aliviá-lo dos pertences que ostenta neste momento. Assim, devo solicitar que permaneça em aparente estado de tranquilidade, preferencialmente que simule um amigável colóquio com a minha pessoa, ao tempo em que repassa para minhas mãos tão bonito relógio, todo o numerário disponível e esse aparelho em seu bolso, que em terras lusitanas é comumente alcunhado de telemóvel. Advirto, porém, em respeito à sua incolumidade, que não é de bom alvitre qualquer iniciativa no sentido de rechaçar minhas já anunciadas intenções, seja por ações ardilosas ou reações meramente físicas, posto que minhas mãos são detentoras de fortes argumentos, na forma de arma de fogo de razoável calibre e instrumento perfurante contundente.
Desde que Luquinha tinha oito ou nove meses, nossos passeios de fim de tarde pelos arredores de casa eram sagrados. Normalmente dávamos uma ou duas voltas no quarteirão, eu empurrando seu carrinho e ele se divertindo com o movimento do trânsito. Numa das esquinas havia o boteco de meu amigo Fernando, parada obrigatória para um churrasquinho de filé miau de altíssima qualidade e uma latinha daquilo que hoje não posso sequer citar o nome.
Era terça-feira de carnaval em 2005 quando fui abordado pelo assaltante, Lucas estava com um ano e 10 meses, e começava a cair a noite. De repente sinto algo parecido com um cano de revolver - de fato era - na altura da nuca e o cara até que não gastou muito o português, minha tradução é que ficou rebuscada. Na verdade ele foi bem direto: - Perdeu, negão, vai passando o relógio, a grana e o celular. E fica bem quietinho, finge que 'tamo de papo e num tenta nenhuma gracinha senão te passo fogo e meto a peixeira. Negão eu até achei simpático, eu ainda nem tinha pensado em criar um blog e já era conhecido. Não sei bem por que, mas em situações de risco eu costumo manter uma tranquilidade desconcertante. Até pensei em consultá-lo sobre como conciliar o "fica bem quietinho" com o "vai passando...", mas vi que iria complicar as coisas e ele aparentava não estar muito aberto ao diálogo.
O que de fato me chateou foi ele ter levado minha aliança, pelo simbolismo nela contido. Mas o cara estava mesmo interessado numas pedrinhas de crack, meu simbolismo que se danasse. Uma vez atingido seu objetivo, fui chamado de coisas que nunca imaginei ser e ordenado a caminhar sem olhar para trás (como se tivesse algum interesse em ficar contemplando aquela triste figura). Segui meu caminho até a portaria central do condomínio onde morava, cerca de 10 metros do local do crime, e só cheguei em casa uns 40 minutos depois, porque primeiro levei o moleque para brincar no playground.
Minha única providência a respeito foi bloquear o chip do celular. Resolvi não registrar queixa na polícia, pelo simples fato de detestar perder tempo e energia com coisas inúteis.
O carinha, que usava um bonezinho ridículo, estava na vanguarda. Como assaltou um cidadão e não houve qualquer registro oficial do fato, acho que naquele momento ele inaugurou a era dos atos secretos. Só não sei se pertence à família Sarney.
Quando publiquei o post O Bonitão II, em 27/05/2009, meu amigo Jairo perguntou se eu conhecia Itzhak Perlman. Como conheço aquele monstro há algum tempo, discorri sobre o que sabia sobre ele, principalmente falei da admiração que nutria pelo que considero (e não sou só eu) o maior violinista da atualidade. Sabe aquele cara que encanta pelo que é? A simpatia em pessoa, espirituoso, quando está tocando faz uma cara de tesão que é um convite para uma viagem a um mundo perfeito, é um dos poucos violinistas do planeta que conseguem tocar o Moto Perpétuo de Paganini no original e na mesma velocidade com que foi concebido, e além de tudo nunca o vi lendo uma partitura. É lógico que é um músico completo, não toca só de ouvido, mas tem uma capacidade de memorização que faz com que consiga tocar uma sinfonia inteira sem precisar ler sua partitura. O som que arranca de seu violino é de uma limpeza impressionante, acho que nem o Dr. Bactéria encontraria alguma impureza. Ah, ele tem também uma outra particularidade: é paraplégico, desde que contraiu poliomielite em 1949, quando tinha quatro anos de idade. Jairo gostou do resumo que fiz e me pediu para fazer uma matéria para uma possível publicação em seu blog Assim Como Você (link aí ao lado). Escrevi um texto enxuto, juntei alguns links de vídeos que tenho publicados no UOL Mais, e espero um dia ver publicada a matéria. Primeiro, porque para mim seria uma grande honra ser uma espécie de foca daquele que, além de um guerreiro maluco (e eu adoro guerreiros malucos, por isso acho que o único titular absoluto da Seleção é o Lúcio), é simplesmente Chefe de Reportagem da Folha de São Paulo. Segundo porque sua publicação significará que pude contribuir, ainda que de forma subliminar, para mostrar ao mundo que a deficiência é apenas uma característica, nunca uma sentença. Para quem ainda não conhece o carinha e está a fim de alguns momentos de deleite, o Youtube traz alguns vídeos de apresentações mundo afora. Deixo aqui uma amostra grátis, bem curtinha, de um ensaio do Adágio de Inverno, da obra As Quatro Estações de Vivaldi:
A matéria que escrevi demandou alguma pesquisa, e sua redação foi iniciada no comecinho de junho. Durante a digitação, já quase meia noite, abro a janela e vejo a lua. Nunca fui chegado nessa coisa de romantismo relacionado à lua, mas parece que naquela noite o meu deus, que muitos acham estranho pacas (eu também acho o deles esquisitão), resolveu me provocar ou demonstrar a intenção de ilustrar este post, e colocou a lua em quarto crescente. Então, nosso satélite natural estava ali, lindão, brilhante, provocativo e perfeito, mesmo faltando um pedaço.
Durante muito tempo desconfiei que Caetano e Bethânia fossem a mesma pessoa, mas essa paranóia foi curada em 1980 quando li a notícia de que na mesma data Caetano teria viajado pela Vasp para participar de um programa de TV em São Paulo e Bethânia foi para a Bahia descansar, de Varig. O mundo gira, a Lusitana roda e minha cabeça de vez em quando fica a mil. Caetano e Bethânia nada têm a ver com o mal que me aflige hoje e como mau samaritano deposito neste cafofo. É que de repente me lembrei que a aviação comercial brasileira já teve empresas do porte da Varig, Vasp, Transbrasil, Cruzeiro e outras tantas que simplesmente faliram ou foram engolidas por outras. O capitalismo às vezes é canibal, além de selvagem. Hoje estamos à mercê de Gol e TAM, cujo grau de excelência na prestação de serviços é... bem... deixa pra lá. Basta dizer que eu me sinto um gigante na poltrona de um avião dessas empresas, meu joelho disputa espaço com a mesinha e minha estatura é 1,75m. Os arautos do livre mercado, também conhecidos como Viúvas de Bob Fields, passaram décadas descendo o cacete no que consideravam a desnecessária e indevida presença do Estado na economia brasileira, e isto incluía a Vasp, a Petrobrás, a Embratel e os bancos estatais. Pois bem: passou-se o tempo, a Vasp foi vendida digratis, os bancos estaduais foram privatizados e ainda hoje o BB, a CAIXA e outros bancos federalizados são alvos de cutucões ou petardos. Minha preocupação vem de fatos mais recentes. Até anteontem eu tinha contrato firmado com a Brasil Telecom para o fornecimento de serviços de telefonia fixa, telefonia móvel e internet banda larga. Agora é Oi, fiquei sabendo ao acaso e ninguém me consultou a respeito. Até anteontem tinha contrato com a MaisTV, antiga TVFilme, que já se chamou TVA, e ontem recebi um telefonema da Sky me informando que amanhã ou depois será instalada inteiramente grátis em meu apartamento uma antena para captação de sinal via satélite, porque a MaisTV agora é Sky. Ou seja, foi engolida. Fiquei cismando: será que livre mercado é isso? Imaginava que livre mercado fosse sinônimo de concorrência entre empresas do mesmo ramo. A empresa A oferece o produto X pelo preço Y, a empresa B oferece o mesmo produto por Y menos W, ou Y e um plus qualquer que funcionaria como diferencial competitivo. Descubro que a definição de livre mercado tem tudo a ver com canibalismo. Seu concorrente está incomodando? A solução é simples: compre ou incorpore, faça uma joint-venture (acho lindo isso) e seus problemas acabaram. A minha participação como consumidor é que vai ficar numa situação meio esquisita. Os serviços de telefonia, banda larga e TV por assinatura já não são uma Brastemp, mesmo com concorrência. Uma vez não havendo esse inconveniente, os preços serão definidos unilateralmente, a qualidade do atendimento chegará ao fundo do poço e o único bispo disponível para uma reclamação provavelmente será o Macedo. Espero sinceramente estar vaticinando de forma excessivamente pessimista.
Com a ressurreição da UNE e o movimento grevista na UnB a partir de maio de 1977, período em que eu morava em Brasília e meu primo Delson fazia o perigosíssimo curso de Sociologia, estava todo pimpão sentado no gramado da universidade, curtindo minhas espinhas adolescentes e ouvindo discursos inflamados da rapaziada em favor do ensino público gratuito e de qualidade, contra o fantasma do jubilamento y otras cositas más, quando de repente me vi cercado de cachorros, uns fardados e outros latindo. Não tínhamos para onde correr, e nos restavam algumas poucas opções: a morte súbita, o harakiri, o enfrentamento ou a rendição. Mãos na cabeça, portanto. Eu me lasquei de verde e amarelo, porque carregava uma faixa com mensagens de apoio aos meus professores do 2o. grau que se encontravam em greve por melhores salários e condições de trabalho. Na triagem (não cabiam todos no camburão) a faixa foi determinante para eu ficar ali, meio de lado, esperando a lotação para o hotel. Como vivíamos em plenitude a democracia e o Estado de Direito, de nada adiantou argumentar com o meganha que eu tinha 16 anos e não podia ser preso, ele me respondeu com uma pergunta: quem disse que não pode, vagabundo? Devo dizer que o serviço de bordo conseguia ser pior que o da Gol, mas a viagem no caveirão foi curta e logo fomos alojados. Juntaram tipo uns 30 onde cabiam 10, não tínhamos a menor idéia de onde estávamos, o cheiro de mofo era qualquer coisa e a umidade do local chegava a entranhar na pele. Imagino que fazia parte do script o terror psicológico. De repente fecharam todas as portas e ficamos na mais completa escuridão, vez por outra alguém rapidamente entreabria para em seguida fechar novamente uma porta que ficava a uns cinco metros de distância de nossa suite presidencial, com o único objetivo de nos mostrar o quanto é bela a luz que nos estava sendo negada. Eu perdi noção do tempo, até hoje não sei o quanto durou aquele martírio. Em dado momento alguns começaram a chorar, outros rezavam, um grupinho mais radical cantava o hino nacional (pode parecer estranho, mas na época um jovem cantar o Hino Nacional Brasileiro era tido como provocador). Foi aí que tomei conhecimento de uma música que carrego na alma até hoje, 32 anos depois: uma garota começou a cantá-la, e logo todos os que conheciam a letra estavam em coro (fiquei de fora, só curtindo) entoando aquela letra meio doida e ao mesmo tempo que dizia muito ao coração de cada um de nós, bastava ler nas entrelinhas. Resolvi escrever este post hoje porque - sei lá por que - lembrei-me da música e procurei no Youtube. Achei uma versão gravada pelo MPB-4, e ao ouví-la novamente percebi que não tinha esquecido um único verso daquela letra enorme. Trata-se de Pois É, Prá Que?, de autoria do músico, poeta e escritor carioca Sidney Miller (1945-1980):
Lak, como a letra é quilométrica, eu te mando por e-mail, tá?
Enquanto a galera estava dando sinais de desespero e sofrimento não apareceu nenhum senhor fardado para nos dar o necessário apoio espiritual. Mas os caras pareciam ser do tipo que mandavam cortar o rabo do cachorro por não suportar demonstrações de alegria, e a cantoria fez com que uma meia dúzia de caras feias logo aparecesse para dar lição de moral e civismo. Em um discurso improvisado, o que parecia ser o mais articulado nos lembrou que o ministro da justiça havia dito que estudante era para estudar, não para fazer baderna. Nenhum de nós retrucou, parecíamos um batalhão de veteranos. Após o sermão, o milico sem mais nem menos disse que poderíamos ir para casa, porque o objetivo da operação já tinha sido atingido, e eles só queriam mesmo nos dar um susto. Tanto trabalho e sofrimento pra nada. Se só queriam nos dar um susto, bastava mostrar uma foto da filha do presidente Geisel, a mais perfeita personificação da palavra mocréia.
Quando publiquei aqui o post Do Contra, em 12/03/2009, levei alguns catiripapos pessoalmente, por e-mail ou telefone. A negada não é muito de deixar comentário, mas sempre dá um jeitinho de tocar no assunto, principalmente quando não concorda. O motivo principal da contenda foi eu ter dito, dentre outras coisas, que nunca achei os Beatles essa maravilha toda. Continuo não achando. Ringo Starr era um baterista medíocre e sem carisma, George Harrison nunca conseguiu ir além do potencial que diziam ter, Paul McCartney era compositor de qualidade e cantor limitado, e quem realmente sobrava era Mr. Winston. John Lennon era o cara. Poeta, escritor, absolutamente cerebral, crítico e corajoso, fazia a diferença. Por isso mesmo caiu naquela vala comum de ser chamado de polêmico, simplesmente porque falava o que pensava, e o que pensava frequentemente incomodava os defensores do status quo sócio-político de sua época. Vociferou contra a guerra, o moralismo hipócrita vigente, o preconceito social e racial. Peitou Nixon, que resolveu procurar um motivo para deportá-lo e determinou ao FBI que devassasse sua vida. Não concordo com todas as suas bandeiras e opiniões, mas acho o conjunto de sua obra fascinante, principalmente em se tratando de um britânico, cujo povo culturalmente é conservador em essência. Num período em que a disseminação de idéias não tinha a velocidade e eficácia de hoje, ele conseguiu expor as suas ao mundo por meio de músicas como Imagine, Give Peace a Chance, Woman Is The Nigger Of The World, Happy Christmas (que tem o sugestivo subtítulo War Is Over). Abaixo um pequeno texto de Lennon:
"Fizeram a gente acreditar que amor mesmo, amor prá valer, só acontece uma vez, geralmente antes dos 30 anos. Não contaram para nós que amor não é acionado nem chega com hora marcada.
Fizeram a gente acreditar que cada um de nós é a metade de uma laranja, que a vida só ganha sentido quando encontramos a outra metade. Não contaram que já nascemos inteiros, que ninguém em nossa vida merece carregar nas costas a responsabilidade de completar o que nos falta. A gente cresce através da gente mesmo. Se estivermos em boa companhia, é só mais agradável.
Fizeram a gente acreditar numa fórmula chamada “dois em um”: duas pessoas pensando igual, agindo igual, que era isso que funcionava. Não nos contaram que isso tem nome: anulação. Que só sendo indivíduos com personalidade própria é que poderemos ter uma relação saudável.
Fizeram a gente acreditar que desejos fora de hora devem ser reprimidos.Fizeram a gente acreditar que os bonitos e magros são mais amados, que os que transam pouco são caretas, que os que transam muito não são confiáveis e que sempre haverá um chinelo velho para um pé torto. Só não disseram que existe muito mais cabeça torta do que pé torto.
Fizeram a gente acreditar que a fórmula para ser feliz é a mesma para todos, e os que escapam dela estão condenados à marginalidade. Não nos contaram que essas fórmulas dão errado, frustram as pessoas, são alienantes, e que podemos tentar outras alternativas. Ah, também não contaram que ninguém vai contar isso tudo prá gente.
Cada um vai ter que descobrir sozinho. E aí, quando você estiver muito apaixonado por si mesmo, vai poder ser muito feliz e se apaixonar por alguém."
Ele foi uma espécie de precursor da Lei Maria da Penha ao escrever a letra de Woman is The Nigger of the World, quando diz:
"We make her paint her face and dance/ If she won’t be slave, we say that she don’t love us/ If she’s real, we say she’s trying to be a man/ While putting her down we pretend that she is above us. Woman is the nigger of the world...yes she is/ If you don’t believe me take a look at the one you’re with/ Woman is the slaves to the slaves/ If you believe me, you better scream about it”.
Para os menos versados nos ingrêis, é algo do tipo "Nós a fazemos pintar o rosto e dançar/Se ela não for nossa escrava, dizemos que ela não nos ama/ Se ela tenta ser autêntica, dizemos que está tentando ser um homem/ Enquanto a colocamos para baixo, fingimos que ela é uma de nós. A mulher é a escória do mundo (nigger, literal e pejorativamente, significa negro, mas no contexto leva a escória)... sim, ela é/se você não acredita em mim dê uma olhada naquela que está com você/a mulher é a escrava das escravas/se acredita em mim, é melhor gritar sobre isso (acredito que no sentido de denunciar)".
Longe de mim esculachar os Beatles, sei que suas músicas e atitudes questionaram e conseguiram mudar para melhor toda uma tradição cultural repressiva e baseada em culpa e pecado. Mas, não fosse Mr. Winston, sei não.
No centro de minha bela Goiânia existe uma rua denominada Rua do Lazer. Bem curta, apenas um quarteirão, ladeada por lojas e um outrora cinema que só passava filmes com Linda Lovelace e John Holmes, agora transformado numa dessas igrejas com nome esquisito (Igreja Redonda do Quadrado Retangular ou Refúgio do Altíssimo do Pretérito Perfeito, uma coisa assim), é exclusiva para pedestres. Uma espécie de réplica reduzidíssima e absolutamente esculachada da Calle Florida de Buenos Aires, se é que me permitem essa criminosa comparação. Ali é comum topar com artistas mambembes, malabaristas, performáticos, os insuportáveis paraguaios/peruanos/bolivianos com suas flautas de pan tocando El Condor Pasa e Cucurucucu, e em meados de abril de 1998 pude me deliciar com um violinista. Devo ter ficado uns 40 minutos ouvindo o som do cara, e dali fui direto a uma loja de instrumentos musicais. Comprei um violino. Eu tinha tanta intimidade com o instrumento que chamava o arco de vara, aliás estou convencido de que nunca antes na história deste negão havia sequer encostado a mão num violino. A compra decorreu de um impulso insano e ao sair da loja pensei: agora vou ter que aprender a tocar esse trem, não vou ficar no prejuízo. Após uma procura de meses finalmente encontrei a professora Jane Machado Teixeira, hoje grande amiga e parceira de muitas aventuras em shows e festivais que ainda vou contar aqui neste cafofo, que passou a me dar aulas do instrumento, inicialmente em minha casa e depois de algumas semanas em sua própria escola. Apaixonei-me pelo violino de uma maneira tão violenta que o aprendizado fluiu numa velocidade que espantou a própria professora. O fato de já conhecer música e ler partituras ajudou bastante, mas violino é violino, requer muito estudo e um ouvido bem treinado para não desafinar, porque ao contrário do violão, da guitarra e contrabaixos convencionais ele não contém os trastes, aquelas divisões metálicas que facilitam muito a vida da gente. Jane é uma professora exigente, não aceita nada que fique menos que ótimo, e a concepção de ótimo dela beira o sadismo. Como eu não me limitava às aulas, já que dispunha de tempo para estudar por estar recém-separado do primeiro casamento e morando só, judiei da vizinhança o quanto pude e isto serviu para de certa maneira corresponder ao grau de exigência da Jane. Com dois meses de estudos a doida me informou que estava pensando em me inscrever no recital da escola, que ocorreria dali a uns 20 dias. O doido topou. Então ela fez a partitura de When You Wish Upon a Star e ralamos juntos, ralei sozinho, até apresentar leves sintomas de tenossinovite. Enfim, chegou o grande dia, e ao chegar ao pequeno teatro da CEFET o baque foi enorme, pois estava apinhado de gente. Por sorte tive a intuição de levar minha toalhinha da academia. Minhas mãos, geladas, suavam tanto que o risco de desidratação não estava de todo descartado, e nada de chegar minha hora de subir ao palco e acabar com aquela agonia. Como não há mal que dure para sempre, eis que os alto-falantes gritam meu nome (fiquei todo pimpão com "O violinista Rogério Veloso vai apresentar..."). Ajeitei-me na banqueta, fiz cara de autoridade, posicionei a estante com a partitura que já tinha decorado mas não abri mão nem sob tortura, pedi à Jane que me regesse caso eu atravessasse o compasso e caí na besteira de olhar para a platéia. Prá que! Lembrei-me de imediato daqueles personagens do clip do Michael Jackson para a música Thriller, porque ao olhar para as pessoas só via monstros babando sangue que me diziam silenciosamente "vai errar, vai errar, vai dar branco, vai pagar o maior mico". Palco é qualquer coisa próxima do inferno, e minha filha me contou depois que ao me dirigir a ele meu andar lembrava a elegância de um pinguim. Se eu fosse dado a desespero teria saído correndo dali na hora, mas prevaleceu o racional e sabia que ali só havia parentes dos alunos que foram para aplaudir até quando o garçon derrubasse uma bandeja. Por fim as coisas correram conforme os ensaios e fui aplaudido de pé pela Carol e pela então namorada Eliana. Depois disso corremos até a churrascaria mais próxima e entrei no chopp, afinal de contas eu estava me sentindo um flagelado recém-saído de uma câmara de torturas.
Recentemente disse alhures que, mesmo desenganado pelo Pitanguy, costumo olhar no espelho e gostar do que vejo. Deve ser um caso grave de auto-estima elevada, porque normalmente eu me vejo assim:
A foto foi tirada há algumas horas pelo Lucas, e é bem o retrato da gravidade do meu caso. Além do que é corriqueiro em casa, assumo responsabilidades assustadoras no trabalho e às vezes enfrento questões familiares com peso específico considerável. Então, deve ser para manter um certo equilíbrio que levo meus perrengues na conversa, faço piada até quando meto o joelho na quina da mesa e a palhaçada é quase uma filosofia de vida. Quando estou com o Brou, então, deixamos os irmãos cara de pau no chinelo. Eliana às vezes até sai de perto, porque não escolhemos lugar para imitar o Silvio Santos e ela morre de vergonha. Os últimos dias, porém, têm sido meio brabos. Após pouco mais de um mês em que completei o tratamento contra a - com o perdão da palavra - hepatite, venho sofrendo dores de cabeça horrorosas e algo parecido com vertigem, uma coisa de doido que minha médica explicou tratar-se de uma recidiva dos efeitos colaterais do coquetel molotov que tomei por seis meses. Queria muito ter ido a São Paulo dia 30 de maio para o encontro comemorativo do primeiro aniversário do blog do Jairo e conhecer pessoalmente alguns dos muitos amigos que fiz, e fui obrigado a cancelar a viagem. O episódio serviu para aumentar o respeito que tenho pelos meus amigos cadeirantes, pois me senti agredido no meu sagrado direito de ir e vir, e desta vez não levei na valsa, confesso que bateu uma certa deprê. Fiquei com raiva da tal hepatite, e percebi que nem sempre a gente consegue ser essa fortaleza toda, às vezes a guarda se abre e fraquejar é inevitável. Não cheguei a pensar em nada mais radical ou dramático (procurar emprego no Bradesco, por exemplo), mas reconheço que quase cedi à tentação do por que eu? e faltou pouco para a auto-piedade. Mas, como diria o eletricista aqui do condomínio, foi só uma fase. Passou.
Eu acredito em Deus. Mas não sei se o Deus em que eu acredito é o mesmo Deus em que acredita o balconista, a professora, o porteiro. O Deus em que acredito não foi globalizado.
O Deus com quem converso não é uma pessoa, não é pai de ninguém. É uma idéia, uma energia, uma eminência. Não tem rosto, portanto não tem barba. Não caminha, portanto não carrega um cajado. Não está cansado, portanto não tem trono.
O Deus que me acompanha não é bíblico. Jamais se deixaria resumir por dez mandamentos, algumas parábolas e um pensamento que não se renova. O meu Deus é tão superior quanto o Deus dos outros, mas sua superioridade está na compreensão das diferenças, na aceitação das fraquezas e no estímulo à felicidade.
O Deus em que acredito me ensina a guerrear conforme as armas que tenho e detecta em mim a honestidade dos atos. Não distribui culpas a granel: as minhas são umas, as do vizinho são outras, e nossa penitência é a reflexão. Ave Maria, Pai Nosso, isso qualquer um decora sem saber o que está dizendo. Para o Deus em que acredito, só vale o que se está sentindo.
O Deus em que acredito não condena o prazer. Se ele não tem controle sobre enchentes, guerrilhas e violência, se não tem controle sobre traficantes, corruptos e vigaristas, se não tem controle sobre a miséria, o câncer e as mágoas, então que Deus seria ele se ainda por cima condenasse o que nos resta: o lúdico, o sensorial, a libido que nasce com toda criança e se desenvolve livre, se assim o permitirem?
O Deus em que acredito não é tão bonzinho: me castiga e me deixa uns tempos sozinha. Não me abandona, mas me exige mais do que uma visita à igreja, uma flexão de joelhos e uma doação aos pobres: cobra caro pelos meus erros e não aceita promessas performáticas, como carregar uma cruz gigante nos ombros. A cruz pesa onde tem que pesar: dentro. É onde tudo acontece e tudo se resolve.
Este é o Deus que me acompanha. Um Deus simples. Deus que é Deus não precisa ser difícil e distante, sabe-tudo e vê-tudo. Meu Deus é discreto e otimista. Não se esconde, ao contrário, aparece principalmente nas horas boas para incentivar, para me fazer sentir o quanto vale um pequeno momento grandioso: um abraço numa amiga, uma música na hora certa, um silêncio. É onipresente, mas não onipotente. Meu Deus é humilde. Não posso imaginar um Deus repressor e um Deus que não sorri. Quem não te sorri não é cúmplice.
Martha Medeiros é jornalista e escritora (de mão cheia)