Alguém aí já ouviu falar da síndrome do pânico, que alguns mais cruéis chamam de transtorno do pânico? É quando ocorre uma colisão frontal entre vários neurotransmissores, como dopamina, noradrenalina, serotonina e mais umas três ou quatro inas. O resultado é que o cabra fica sem rumo feito o Brasil na Copa 2014. Simplificando a coisa, para ficar nas inas mais importantes: por algum motivo o cérebro passa a produzir menos serotonina, que é um neurotransmissor no estilo Polyanna carnavalesca. Para não ficar o vácuo, onde falta serotonina vem uma tal noradrenalina, uma tia velha toda neurótica e com complexo de perseguição, e toma seu lugar. Pronto: a merda tá feita.
Como eu sei disso? Ora, eu encarei essa excomungada durante anos. Para provar que uma desgraça nunca vem só - vide duplas sertanejas -, a síndrome do pânico (chamemo-la simplesmente SD) costuma vir acompanhada de outras coisas, cujo nome termina com fobia: acrofobia, agorafobia, claustrofobia, sociofobia, uma beleza. Eu não recomendo esse coquetel; se o perrengue for inevitável e houver uma oportunidade de escolha, considere uma unha encravada ou uma gonorréia, vá por mim. Pânico é brabo.
A parte que me coube foi a agorafobia. Eu sei que todos estão cansado de saber o que é isso, mas vou explicar assim mesmo: agorafobia é, na prática, uma crise de angústia que o cabra sente quando está no meio de uma multidão, seja um supermercado, estádio, estação do metrô, teatro, cinema, assembléia de greve ou fila da sacolinha na igreja. Pra variar, a origem da palavra é grega: ágora significa multidão, assembléia e fobus (ou phobus, sei lá) simplesmente medo. Cansei de deixar o carrinho pela metade no supermercado e voltar pra casa, fiquei anos sem ir ao estádio, as crises no trabalho, que nunca tiveram a decência de me avisar com alguma antecedência, geralmente me deixavam incapacitado para o resto do dia.
Então, juntando a SD e a agorafobia, duas paralelas que sempre se encontravam em mim, eu sentia uma taquicardia violenta, suor frio, sensação de desmaio iminente e um troço assaz interessante que os médicos chamam de despersonalização: frequentemente, durante as crises, eu tinha a sensação de estar flutuando, saindo do corpo.
Foram quase dois anos para eu encontrar uma médica que me desse o diagnóstico correto de SD com agorafobia. Até então a moda era dizer que se tratava de estresse, que a vida de bancário leva a isso, muita pressão. Se eu tivesse procurado um pediatra, ele teria dito que era uma virose. Só então, com o veredito sacramentado, foi que iniciei um tratamento.
Parece - e é - estranho não conseguir atravessar a rua para ir até a padaria, mas essa é a realidade de quem sofre com esse distúrbio neuro-psiquiátrico, que ainda tem que enfrentar um bando de chatos que aparecem com pitacos do tipo 'você tem que ser mais forte do que isso', 'deixa de frescura', 'não acredito que você não consiga fazer isso'. No trabalho a coisa é mais complicada, porque quem está em crise não sangra, não incha, simplesmente empalidece e perde o rebolado. Aí a tendência dos babacas de plantão é tirar suas conclusões infalíveis.
Como não há mal que sempre dure - até o Sarney um dia deve acabar -, após diversas tentativas e erros com medicamentos, encontrei uma psiquiatra que conseguiu me botar de volta nos eixos. Com o tempo passei a enfrentar com cada vez mais tranquilidade as multidões do mundo, as grandes lojas de departamento, os shoppings, até que arrisquei o estádio que, imaginava, seria minha prova de fogo. Quem acompanha este cafofo há mais tempo, sabe que já voei de asa delta, adoro minha moto e tenho milhares de horas de voo, seja a trabalho ou lazer. Então, posso considerar que a tal SD com agorafobia é coisa do passado, não totalmente negativa porque acredito que toda experiência deixa de alguma forma um ensinamento e mesmo crescimento.
Quando preparava o checklist para minha encarnação atual, de propósito deixei de ticar o quesito juízo. Então, mesmo com alguma sequela da SD, que se manifesta na forma de algo parecido com labirintite, eu me aventuro de vez em quando numas doideiras por aí. A última delas foi uma montanha russa com meu filho e amiguim Lucas. Com looping!
Resolvi filmar, e desde já aviso que não pretendo concorrer a nenhum prêmio. Experimentem fazer um looping numa montanha russa, a perna direita fazendo apoio para o moleque não sair voando e a mão direita segurando uma câmera. Até que saiu mais ou menos horrível, principalmente porque só consegui gravar na vertical e tinha dois cabras na frente:
No início do ano passado um colega me sugeriu que procurasse uma agência da Previdência Social para registrar uma senha. Antes que eu perguntasse para que eu iria querer senha daquela zona, ele explicou que é muito útil entrar no site da Previdência e conferir os meus dados, já que é bastante comum haver erros e omissões, normalmente prejudiciais ao freguês.
Mas vocês estão achando que é só chegar lá e dizer que quer registrar senha? Nananina! O negócio lá é organizado: ou eu agendo por meio do portal da previdência (www.previdenciasocial.gov.br), ou ligo no 135 e faço o agendamento por telefone. Marquei para o dia tal, às 10 horas.
Às 09:50 do dia tal cheguei na agência, todo serelepe, dizendo que tinha um horário agendado. Recebi uma senha. E deu 10, 10 e meia, 11 horas, meio dia e o tal 'sistema' não voltava. Descobri depois que o problema não era de rede, mas de servidor, que não suportava todos os terminais logados ao mesmo tempo. Coisa projetada para pobre. Fiquei com vontade de pegar o encher o ministro de pancada.
Por fim, consegui registrar minha senha.
Cheguei de volta ao trabalho todo alegrinho, e na primeira oportunidade acessei o portal da Previdência Social. Então, seguindo instruções, cliquei em 'extratoprevidenciário', digitei meu número de PIS e a senha. Pasmei.
Nos meus 34 anos e alguns meses de contribuição tive apenas cinco empregos, e o INSS conseguiu errar os dados de três, dois com datas em branco e o terceiro com data errada de afastamento. O passo seguinte foi agendar a correção, apelidada de 'acerto de vínculos'.
Cheguei, apresentei toda a documentação exigida, e a servidora me informou que iria demorar um pouquinho para corrigirem meus dados. Como sei que em se tratando de INSS o tempo não é contado em dias, meses ou anos, arrisquei perguntar quantas eras ou luas seriam necessárias. A resposta foi um tanto lacônica, mas deixou claro que seria prudente esperar sentado. Se fosse história em quadrinhos eu teria saído de lá com uma nuvenzinha escura sobre a cabeça.
E assim passou abril, findou maio, junho e julho se arrastaram, chegou agosto até que, em setembro, recebi uma correspondência do INSS me chamando para tratar do meu processo. Eba!
Procurei a servidora Heloisa, conforme indicava a carta, e fui informado de que resolveram priorizar quem estava mais próximo de completar o tempo mínimo de contribuição. Como eu jogava nesse time, deixei mais alguns documentos e levei pra casa a promessa de que em 10 dias ou, no mais tardar até o fim do mês, meu cadastro já estaria tinindo.
Pois é. Setembro se foi, e nada. Entrou outubro e o site da previdência indicava que nenhuma alteração tinha sido feita no meu cadastro. Em novembro voltei lá, ocasião em que fiquei sabendo que dona Heloisa havia se licenciado por DORT/LER, e sua substituta se aposentara uma semana antes. Não havia quem tocasse meu processo, a coisa tava feia feito a frente dos carros novos da GM.
Por indicação - meio secreta - da vigilante, fui falar com um servidor chamado Cícero e contar meu dramalhão mexicano. Como a esta altura do campeonato eu já completara os 35 anos de contribuição, ele me sugeriu agendar o pedido de aposentadoria. Quando do novo atendimento, eu informaria sobre o processo de ajuste de vínculos, que seria anexado ao de aposentadoria e resolvidas as duas pendengas simultaneamente.
Assim foi feito: dia 17 de novembro liguei no 135 e agendei para 08 de dezembro meu pedido da carta de alforria. Chegado o grande dia, o servidor me disse que levaria de 30 a 45 dias para sair o resultado (perguntei sobre os 30 minutos do Lula, e ele riu).
Bão, pra não cair na monotonia se passaram os 30 e os 45 dias, e não tive nenhuma notícia. Novamente na agência da Previdência Social, onde fui informado que meu pedido foi indeferido. Sem maiores detalhes.
Dias depois recebi uma correspondência oficial do INSS, informando sobre o indeferimento e o motivo: eu ainda não tinha tempo de contribuição suficiente. Achei estranho e resolvi consultar meus dados - teoricamente corrigidos - no site da Previdência Social, e achei o problema: a correção precisava de correção. Eles conseguiram errar mais uma vez, e meus dados cadastrais não batiam com meus dados na carteira de trabalho.
A solução? Tive que agendar um recurso. Dia 27 às 09:00h estarei lá para mostrar que digitação não só é uma arte, como também é coisa séria. Já me disseram que um recurso tem 'vida' de seis meses a um ano, dependendo da complexidade. Isso é a realidade, não o que diz a lei. Os processos administrativos têm prazo de 30 dias para chegar a uma conclusão, levarei uma cópia da Lei para ser anexada. Se houver desrespeito (à lei, porque eu estou sendo desrespeitado há um bom tempo), vou soltar os cachorros.
Recebi o texto abaixo de meu amigo Gilson, lá de Recife, e achei o máximo. Uma caricatura infelizmente fiel ao que ocorre por aqui. Protógenes e De Sanctis que o digam.
================
Se o sinistro acidente italiano tivesse ocorrido em mares brasileiros, com certeza várias teses defensivas surgiriam, dada a impressionante criatividade de nossos advogados criminalistas e, com certeza, muitas delas poderiam ser utilizadas para livrar o capitão do navio da prisão e até para absolvê-lo:
1. o capitão não abandonou a embarcação pois, afinal, o bote é também uma embarcação;
2. como a rocha é uma ocorrência geográfica natural, o naufrágio foi simples evento natural sem repercussão para o direito penal;
3. como o cruzeiro estava no raso, não houve naufrágio;
4. não há prova que as mortes ocorreram em razão do acidente;
5. em um governo civil, não deve haver autoridade para o comandante da capitania dos portos sob pena de instalarmos o estado policial ditatorial militar (tese imediatamente acatada pelo STJ e STF);
6. o capitão é branco e de boa índole;
7. o naufragio foi um acidente de consumo e os turistas são consumidores, não há repercussão penal em razão da subsidiariedade do direito penal;
8. é inconstitucional a definição de mar territorial, pois o mar é feito de água;
9. a denúncia é inepta, como todas;
10. qualquer coisa que ocupe mais de uma página, seja chamada de habeas corpus e fale que o capitão é vítima de forças superiores e mancomunadas, basta. (Sumulada pelo STJ e STF);
11. fugir para o Brasil e alegar que a Itália vive num estado de exceção permanente (Bunga-Bunga State) e que, portanto, seria impossível obter um julgamento justo, sem perseguição política, nos tribunais italianos (em fase de unificação de entendimento, com participação especial do PT);
12. a prova de que o capitão abandonou o navio é ilícita: gravações interceptadas sem autorização judicial (Sumulada do STF);
13. ele foi interrogado por um Procurador da República, e o MP não pode investigar.
14. atipicidade material: os danos causados a embarcação são insignificantes, que inclusive pode vir a ser rebocada e reparada. A quantidade de vitimas fatais (cerca de 30) é insignificante no contexto de 4.000 pessoas. Deferida a aplicação do princípio da Insignificância.
15. o comandante tem profissão definida, endereço conhecido e bons antecedentes. A prisão é ilegal. A ofensa ao princípio da dignidade humana contamina toda a investigação e nulifica a ação penal.
16. o comandante foi ouvido sem a presença de advogado, nem mesmo da defensoria pública. Toda a prova colhida a partir daí está prejudicada pela teoria dos frutos da árvore envenenada (tb conhecida como princípio do Eden) e não permite oferecer denúncia. Melhor fazer de conta de que nada aconteceu.
17. não há gravação visual do capitão entrando no bote e abandonando o navio. Outrossim, como era noite e não havia visibilidade, poderia ter sido pessoa qualquer com o celular do capitão, se passando pelo capitão. In dubio pro reo.
18. não há comprovação de que o capitão abandonou o navio dolosamente. O navio adernou (fato público e notório), fazendo com que muitos tripulantes fossem jogados ao mar. Ele não abandonou o navio por vontade própria, foi jogado ao mar juntamente com o bote, vítima que fora da irrevogável Lei de Newton. Ausência de dolo.
19. se não foi caso de interceptação, mas de gravação, ainda assim a prova é ilícita, porque obra de agente provocador: o capitão não ligou para o comandante para dizer onde estava; foi o comandante que ligou para o celular do capitão para acusá-lo de estar fora do navio. Prova unilateral, crime induzido, flagrante provocado, crime impossível.
20. as equipes de salvamento não tomaram as devidas cautelas ao entrarem sem autorização judicial no navio à deriva, inclusive utilizando explosivos. Alteraram a cena do crime antes da chegada dos peritos em desacordo com o art. 6, a, do CPP. A produção de prova é imprestável ao impedir que o investigado possa contraditar as conclusões com o corpo de delito intacto, violando o devido processo legal, o contraditório e a ampla defesa. Provas contaminadas pela nulidade que impedem a persecução penal.
21. ao capitão Schettino é assegurado o direito de ajuizar contra De Falco ação penal privada por crime contra a honra, sem prejuízo da ação de indenização por danos morais, pelo constrangimento de constatar a reprodução midiática em larga escala das ordens que lhe foram enfáticamente dadas, o que fere o princípio da dignidade humana e a Declaração Universal de Direitos Humanos do Capitão.
22. o capitão Schettino não tinha o dever de permanecer no navio, o que equivaleria ao uso de algema. Costume naval não recepcionado pela Constituição Cidadã. Prática condenada pelo STF.
O tal Freud deve ter uma explicação para isso, depois vou procurar no Google. Faz exatamente dois meses e três dias que não publico nadica neste cafofo, coisa que não ocorreu nem nos velhos e inesquecíveis tempos de hepatite. A razão para isso é muito simples: eu não estava a fim, assim como abandonei a rotina diária de ler e deixar comentários sobre o que meus amigos escrevem em seus blogs. Ah, também nunca mais toquei o piano e o violino. O violão às vezes ganhava um afago, coisa de poucos minutos. Devo ter lido uns quatro ou cinco livros nesse período.
Nos últimos anos andei mexendo com droga pesada. Primeiro os antivirais da hepatite, que atacam uma doença e provocam dúzias de outras. Aí, para as outras, outros remédios. Até que terminou o tratamento, meu organismo se recuperou até voltar ao normal, mas continuei emagrecendo. Foi quando descobri que o mardito interferon me deixou de lembrança um hipertireoidismo básico. O medicamento, que atende pelo nome de Tapazol, tem a missão nobre de regular o funcionamento da glândula e a mania besta de provocar quadros depressivos em alguns usuários. Eu, por exemplo.
Estranhamente - e felizmente - minha vida familiar e profissional não sofreu nenhum abalo sísmico. Existe depressão seletiva? Percebo que me aproximo de volta à tona, e estar escrevendo agora é o maior sinal disso. Nesse período de ausência muita coisa aconteceu, Luquinha passou para o quarto ano, mudou de faixa no karatê, ganhou medalha de prata na natação, Eliana mudou de área na empresa, reduziu sua carga horária e agora tem mais tempo para nos aturar, fiz um curso intensivo de francês em janeiro, descobri que se pedir um petit gateau em Paris vou ganhar uma fatia bem fininha de bolo (petit gateau é invenção de brasileiro, como aquele vinho pseudo-alemão Liebfraumilch).
O INSS resolveu me sacanear e indeferiu meu processo de aposentadoria. Só hoje é que fui perceber que tudo decorre de um erro do próprio INSS, e lá vou eu brigar com os caras. Que seria de mim, não fossem esses perrengues?
Enfim, vortei! Vamos ver se amanhã já tem assunto.
Como alguns já sabem, sou auditor de uma grande empresa pública, com agências ou representações em todos os buracos deste imenso país. E por ser imenso, o País é dividido em auditorias regionais, já que não faz sentido um maluco do Rio Grande do Sul viajar a trabalho para o Amazonas. Ocorre que a minha regional, Goiânia, pega toda a costa do pacífico, englobando Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Tocantins, Rondônia, Acre, Amazonas e Amapá, o que significa que eu tenho mais horas de voo que um urubu na terceira idade.
Agora, por exemplo, estou em Paraiso do Tocantins, onde devo permanecer até dia 11. Depois, não sei. O fato é que ando meio de cojones llenos com essa vida de viajante, e a proximidade da aposentadoria é um alento. Já perdi a infância de minhas filhas por culpa dessas ausências crônicas, e decidi que não ocorrerá o mesmo com o Lucas, até porque a minha realidade no novo casamento (que já dura 13 anos) é um poderoso motivador para voltar para casa e, principalmente, um fator de desconforto quando tenho que sair para encarar um hotel mequetrefe. Mesmo que tenha cinco estrelas, é mequetrefe. Ponto.
Mas houve uma época em que eu enfrentava essa obrigação profissional de forma mais tranquila. Como estou na região das águas, nos finais de semana encarava cachoeiras, pescarias, visitava cidades históricas, e isto servia para me distrair da saudade de casa. Foi numa dessas que vivi uma aventura singular.
Era o início de 1990, logo após a posse de Fernando Zóididoido Collor de Mello. Meu destino era Rio Branco, no Acre. Conexão em Cuiabá e escala em Porto Velho. A viagem até Cuiabá transcorreu na boa, apesar do chá de cadeira de cerca de duas horas. Novo embarque - sem atraso, pode? -, eu já estava devidamente acomodado em minha poltrona quando adentraram no avião um padre e duas ou três freiras. Reza a lenda que padre em avião é sinal de mau agouro, mas deixei a superstição pra lá. Pousamos em Porto Velho, desceu uma turma, subiu outra, e bora pra Rio Branco.
Mais ou menos 15 minutos depois, eis que aterrissamos. Eu já estava todo alegrinho (pô, Rio Branco é pertinho de Porto Velho!), quando olhei na casinha que na época era a área de operações, embarque e desembarque do aeroporto e li em letras garrafais: PORTO VELHO. Caraca, voltamos!
O piloto, alegando problemas técnicos de fácil e rápida solução, pediu que todos desembarcássemos. No saguão pedi uma cerveja e fiquei olhando o avião, conversando com um colega de voo. De repente, vejo um negão mais preto do que eu enfiando uma espécie de vara na turbina do bicho, e de lá tirando o que, a princípio, me pareceu a bandeira do Flamengo. Na verdade, eram os restos mortais de um urubu avantajado, que mais parecia um jaburu.
Novo embarque, e o olhar que lancei ao padre era de murchar um galho inteiro de arruda. Por fim, cheguei em Rio Branco. Deixei minhas coisas no hotel e já iniciei o trabalho.
O primeiro fim de semana foi uma mistura de tédio com monotonia. Não encontrei um único restaurante para almoçar, porque só abriam após as 17 horas. Na época, restaurante fechava para o almoço. Eu me virei como pude, trabalhei a semana seguinte e resolvi visitar no sábado a cidade de Xapuri, a 175 km da Capital, terra de gente ilustre como Chico Mendes, Adib Jatene, Enéias, Armando Nogueira e Jarbas Passarinho. Só não imaginava que a viagem duraria seis horas, já que asfalto por ali era algo inexistente. Havia dois anos desde o assassinato de Chico Mendes.
Lá chegando, conheci a casa onde viveu Chico Mendes, o museu denominado Casa de Chico Mendes, além de outros lugares muito interessantes. Não demorou para que me convidassem a conhecer o Santo Daime, uma infusão de ervas e sei lá mais o que que deixava quaquer um maluco. De início relutei, mas a danada da curiosidade de botou na fila para receber a cuia. A fila era a mais eclética possível, com gente em andrajos e outros bem vestidos, mas todos com um discurso único: o daime leva ao paraíso. A segunda pessoa à minha frente era a atriz Lucélia Santos, uma gracinha que dava vontade de pegar no colo e levar pra casa.
Conforme a fila ia andando, passei a presenciar um monte de gente vomitando até o ectoplasma após beber aquela coisa, eu fui ficando cabreiro, e resolvi sair da fila quando vi um cara sentado no chão, completamente alucinado, que levantava os braços para o céu e repetia "não fui eu!"
Tive que pernoitar na cidade, porque só havia ônibus para Rio Branco no dia seguinte. Valeu a experiência mas, se alguém me convidar para algo do gênero, a resposta está na ponta da língua.
Droga por droga, ainda prefiro a Dilma e seus ministros.
Cheguei em cima da hora, porque o endereço constante do convite dizia "próximo ao Paço Municipal". Se um quilômetro é considerado próximo, a culpa é minha. Fui de moto, que é bem mais divertido, e encontrei um ambiente meio solene com um monte de engravatados assinando a lista de presença. Pedi ao engravatado mais próximo que segurasse meu capacete (depois fiquei sabendo que era um procurador do tribunal) e botei lá meu santo nome.
O Tribunal de Contas dos Municípios e o Ministério Público de Contas lançaram no dia 20 de outubro último a Campanha pela Acessibilidade Total, que consiste, segundo a procuradora-geral de Contas junto ao TCE GO, Maísa de Castro Sousa Barbosa (um doce de pessoa), em "possibilitar aos portadores de necessidades especiais (deficientes ou idosos) a concretização dos direitos preconizados na Constituição Federal (art. n° 227, parágrafo 2° e art. 244). A procuradora-geral citou também a Lei n° 10.098, de 19 de dezembro de 2000, que define no art. 1° que a promoção da acessibilidade das pessoas portadoras de deficiência ou com mobilidade reduzida será alcançada mediante a supressão de barreiras e de obstáculos nas vias e espaços públicos, no mobiliário urbano, na construção e reforma de edifícios e nos meios de transporte e comunicação”.
A solenidade foi precedida por uma apresentação do coral do TCE e da apresentação musical de um grupo de deficientes, que arrancaram aplausos da platéia. Deste último grupo, um garoto me chamou muito a atenção por sua musicalidade. Provavelmente tem paralisia cerebral e padece de um prejuízo enorme de movimentos, mas deu um show à parte na percussão. A expressão de prazer em seu rosto era notável.
Além das autoridades e otoridades - papagaios de pirata, que não estão nem aí pra paçoca mas não perdem uma oportunidades de sair na foto - presentes, havia um procurador do Tribunal de Contas da União (Sérgio Caribé, tetraplégico, um cara genial, feliz e divertido) e um ou dois prefeitos.
A proposta das entidades promotoras é a seguinte: nenhuma obra pública, incluindo-se prédios, praças e áreas de lazer, será aprovada se não observar os princípios legais da acessibilidade, com destaque para a Lei 10.098/2000. Igualmente, nenhuma compra de veículos de transporte público será aprovada se não incluir o acesso a cadeirantes mediante dispositivos eletromecânicos que garantam não só sua entrada como também uma viagem em segurança. Há outros procedimentos de ordem técnico-legal de igual natureza, o que faz do projeto uma coisa muito bonita.
Como se trata de uma ação conjunta dos tribunais estadual e municipal, as medidas valem para o estado e os municípios. Num primeiro momento, a inconformidades serão objeto de recomendações visando a regularização. Persistindo o problema, aí o bicho pega e os responsáveis serão apenados com base na Lei de Responsabilidade Fiscal e outros diplomas legais, e serão considerados inelegíveis pelo período previsto, entre quatro e oito anos, dentre outras sanções.
Estava prevista uma palestra da deputada federal Mara Gabrilli. Fiquei ensaiando quase uma semana técnicas de burla à segurança para tascar-lhe um beijo de fã, mas a greve do pessoal da Infraero não permitiu sua vinda. Negão azarado...
O movimento não se restringe ao Estado de Goiás, é um movimento nacional que deve sair do papel já em 2012. Meu cunhado Gustavo é procurador do tribunal e está envolvido até o pescoço no projeto. Até me perguntou quando será a Passeata da Superação em SP, porque quer participar.
Na pressa, me esqueci de levar minha câmera fotográfica e a filmadora. Então, deixo aqui o link da entrevista dada pela Maisa à TV Anhanguera, repetidora da Globo em Goiás, no dia do lançamento do programa: http://youtu.be/n4DNyi682ds
Então, alea jacta est, a teoria é linda. Cabe, agora, a cada cidadão de bem e do bem, acompanhar de perto as ações e cobrar, se necessário, o cumprimento do que se propõe.
Pela enésima oitava vez estou em greve. Meu sobrenome é Silva, o que já me credencia a isso, mas a razão é bem mais palpável. Sou bancário, e minha categoria vem sofrendo ataques e agressões de toda parte, a começar pelos patrões.
Na época do falecido FHC meu salário foi triturado, recebendo reposições baseadas na inflação oficial, que não é a mesma do supermercado nem das Casas Bahia. Ao chegar Luis Inácio, passou a receber a tal reposição inflacionária acrescida de um melzinho na chupeta a que chamam "ganho real". Na realidade esse ganho real já chegava podre, mas sempre prevaleceu. O que esperar, em período de ventos petistas, de uma negociação salarial em que as partes supostamente antagônicas, cada uma sentada numa beirada da mesa, se tratam por 'companheiros'? Alguns dos incendiários sindicalistas de outrora se tornaram patrões no setor público após o filho do Brasil tomar conta do boteco, o que faz das rodadas de negociação um teatrinho bufo. Seria comédia, não fosse tragédia.
O que pedimos este ano é o de sempre, e que sempre é frustrado: reajuste salarial com ganho real de 5%, para tentar tirar o atraso de duas décadas, o fim do assédio moral que grassa em todos os corredores, o fim das metas absurdamente abusivas de venda de cartões, seguros, planos de previdência. Bancário virou vendedor. O problema é que em todas as agências falta gente para trabalhar, o governo achou suficiente terceirizar e estamos bem próximos das unhas do capeta.
Não é que a situação esteja ruim, que não permite aos patrões conceder um reajuste decente sem comprometer a sobrevivência de seus bancos. Deixo aqui números do DIEESE: a lucratividade do sistema financeiro cresceu 550% nos últimos oito anos - de R$ 34 bilhões, nos dois reinados de FHC, para R$ 170 bilhões nos dois governos de Lula. No mesmo período, os bancários tiveram apenas 56% de reajuste salarial. No primeiro semestre deste ano, todos os bancos voltaram a bater recordes de lucratividade.
Estou falando de lucro líquido. Aquilo tudo que se faturou com intermediação financeira, juros e tarifas, tirando despesas operacionais, com funcionários, fornecedores, processamento. Os dez maiores anunciaram lucro líquido de R$ 27 bilhões no primeiro semestre de 2011, coisa próxima de 24% acima do mesmo período do ano passado. Enquanto isso, os bancários continuam com o mês maior que o salário e um ritmo de trabalho desumano. Ah, e quem não atingir as metas de venda vai para o olho da rua.
Mas os banqueiros dão sinais de que as despesas com pessoal incomodam. Na sua ambição por lucros, os bancos ainda abusam da rotatividade no emprego para rebaixar salários. Estudo do Dieese mostra que 65% das contratações no primeiro trimestre ficaram concentradas entre 2 e 3 salários mínimos; já 75,44% dos dispensados recebiam salários acima de quatro mínimos.
Os bancos demitiram 8.947 trabalhadores e contrataram 6.851 com salários mais baixos. A maioria dos novos contratados (70%) é de jovens entre 18 e 24 anos. E as mulheres são as maiores vítimas da gula dos banqueiros. Nos primeiros três meses do ano, a diferença de remuneração média entre homens e mulheres aumentou para 24%.
Após 18 dias de paralisação, foi agendada para hoje nova rodada de negociação. Como a Fenaban, braço sindical dos bancos, esteve silente nos últimos dez dias, esperava-se que fosse apresentada uma proposta decente para acabar com essa agonia, já que ninguém gosta de greve, nem banqueiro, nem bancário, muito menos nossa clientela. Ficamos do mesmo tamanho: os bancos se recusam a tratar de participação nos lucros, não querem nem ouvir falar em assédio moral ou estabelecimento racional de metas de vendas, contratar pessoal para melhorar o atendimento e acabar com as filas nem pensar e candidamente ofereceram 8,4% de reajuste total, lembrando que a inflação dos últimos 12 meses foi de 7,28%. Um aumento real de 1,12%. As conversações e falatórios, xurumelas e bolodórios ainda devem estar rolando esta tarde mas, pelo andar da carruagem, não deve rolar nenhuma melhoria nas propostas patronais e as assembléias estaduais vão votar pela continuidade da greve. É lamentável, mas estamos numa situação sem volta.
Dona Dilma mandou cortar meu ponto. Tem cheiro de pressão, a lei de greve parece não concordar muito com isso, mas já passei por perrengues piores. Aliás, ainda passo, se considerarmos que continuo bancando os salários da galera dela que não sofreu nenhuma consequência nos episódios DNIT e Ministério do Turismo, onde só os boiotas do PR dançaram (pero no mucho). Mas isso é outra história.
Além dos patrões, também sofremos com os clientes, devido à insuficiência de pessoal ou falta de providências pelos gestores. Quando a fila é grande, ou enorme, quem apanha é o caixa. Se não há acessibilidade, e não há mesmo, a mocinha do atendimento é quem leva a bronca. Caiu o sistema? A culpa é do coitado de crachá que estiver mais perto. E assim vamos vivendo.
Vai chegar o momento em que nosso dissídio será ajuizado na Justiça do Trabalho. Aí eu fico com a pulga atrás da orelha: sempre que há um simpósio, congresso ou rala-bucho envolvendo juizes e desembargadores, fecha-se um resort na Costa do Sauipe ou Ipojuca para a galera - que tem o direito de levar cônjuges, filhos, sogra, cachorro - com pensão completa e mais alguns mimos, e quem paga a conta? A Federação dos Bancos, é claro, eventualmente os bancos públicos. Os meritíssimos podem até fazer beicinho e ensaiar um mimimi, mas não acredito nessa história de que uma coisa nada tem a ver com outra. Acho que compromete, sim, a independência da justiça ou, no mínimo, lança um véu de suspeição. Daí se explica o fato de alguns membros do judiciário declinarem de convites da espécie. É bom enfatizar que os bancos são top 10 no ranking da justiça do trabalho. Já escrevi aqui sobre esse assunto, sob o título 'Então Tá", em 13/05/2009. Quem quiser ler, clica aqui.
Sei não mas, se na hora H o inferno estiver cheio, a banqueirada nem vai precisar pegar senha.
Corria 1977, eu engatinhava ao violão e morria de inveja dos amigos que levavam um Stairway to Heaven no original. Da galera, destacava-se o Simão, multi-instrumentista que já andava colado com os melhores nomes de Brasília na época. Por algum motivo, ele fazia o possível para que eu progredisse no instrumento, dava dicas, me convidava para participar de jam sessions com gente de alto quilate (eu errava quase tudo, mas a turma era generosa), e um dia me levou para conhecer a Escola de Música de Brasília, então uma referência.
Estudar na EMB era algo totalmente fora do meu alcance, porque o exame de admissão derrubava mais gente que a banca da OAB. Fui a passeio, e fiquei impressionado com a estrutura encontrada, a quantidade de alunos e principalmente de instrumentos que a escola disponibilizava. Quem não podia comprar usava o instrumento da escola, podendo levá-lo para casa quando o peso permitia, para os necessários estudos. O que mais me chamou a atenção foi a quantidade de pianos existentes por ali, alguns estacionados nos corredores.
Foi num desses pianos que Simão resolveu dar uma canja, e tocou um trecho de The long and winding road, dos Beatles. Um professor estacionou por ali, apreciando a execução. Perguntou quem era o autor daquela 'peça' e, ao receber como resposta Lennon e McCartney, torceu o nariz e seguiu seu caminho. Simão sorriu e comentou: "liga não, pequeno biriteiro*, professor aqui só gosta de música erudita".
Aquela incoerência ficou martelando na minha cabeça um bom tempo. O professor demonstrou ter apreciado a música mas, como o compositor não era um Mozart da vida, de repente desgostou. Aquilo para mim soou como preconceito.
O tempo correu, mudei-me para Goiânia em 1981, nunca mais tive notícias do Simão. Aqui conheci vários músicos, e vez por outra nos reuníamos para brincar de fazer barulho. Era gostoso alterar a estrutura de músicas conhecidas, mesclar letras, tocar baladas em ritmo de samba ou bolero. Façam o teste: peguem Another brick in the wall, do Pink Floyd e cantem com a letra de Atirei o pau no gato. Não fica uma obra prima, mas é divertido pra cacete. Um cara que mandou bem nessa brincadeira - na minha humilde opinião - foi Jorge Aragão, com a Ave Maria de Gounod cantada por um cavaco e tendo ao fundo violões, banjos e uma percussão de responsa.
Aí aconteceu algo parecido com o episódio da EMB: em 1998 ou 1999, minha época de entressafra do primeiro para o segundo casamento, resolvi gravar ao violão o acompanhamento dessa mesma Ave Maria, também em ritmo de samba. Quando botei o back pra rodar e fiz o canto com o violino, em um ou dois minutos meu interfone tocou. No que atendi fui esculachado por uma vizinha que até hoje não sei quem é, dizendo que eu queimaria no inferno, que aquilo que eu estava fazendo era um sacrilégio com uma música santa, que isso, que aquilo. Fiquei tão atônito que pedi desculpas.
Como sou birrento, criei birra com esse povo metido a purista. No dia seguinte botei o back de novo, desta vez com o dobro do volume, e deitei o cabelo no violino plugado. Até ouvi ao longe o interfone, mas não interrompi a música. Algum tempo depois, nova chamada de interfone e era a mesma mulher. No que começou a ladainha eu cortei: FODA-SE!
Essa embromação toda aí de cima foi só para falar de uma descoberta que fiz ontem no youtube: tem um maestro japa, doidaço de pedra, chamado Akira Miyagawa, que resolveu mesclar a Quinta Sinfonia de Beethoven com o Mambo No. 5, de Perez Prado. Para o bem da humanidade, o vídeo deve ter transformado em adubo algumas dúzias de puristas. Eu adorei a idéia, principalmente porque o maestro teve a preocupação de preservar tanto a métrica e a dinâmica da obra do mestre Ludwig, quanto a alegria dançante do mambo de Perez. Os músicos da orquestra são um espetáculo à parte, e o resultado da doideira do japa tá aí embaixo, ó:
Não sei vocês, mas vi na apresentação a junção da técnica com a jovialidade, uma mistura salutar em várias áreas do conhecimento, no trabalho, nos estudos e na vida. Pena que tem gente chata que adora dizer (e teve um mexicano que disse no youtube) que esse tipo de coisa é uma afronta ao compositor.
* Na época, o quarto do meu primo era a sede oficial do Clube dos Biriteiros, onde nos reuníamos nos fins de semana para detonar alguns tubos de 51. Como eu era o caçula da turma, acabei levando a alcunha de pequeno biriteiro.
Quando resolvi criar este cafofo, a intenção era escrever sobre assuntos do cotidiano, coisas pessoais, música, literatura, família e outros combustíveis que me empurram pra frente.
Mas o ser humano é, em essência, um animal político. A questão é que alguns políticos são mais animais do que seres humanos, então percebi que, ultimamente, vim dando ênfase aos ladravazes da nação, especialistas em crimes de lesa-pátria, que se protegem por meio de instrumentos como a malfadada imunidade parlamentar ou apadrinhamentos.
A onda do momento foi uma sucessão de queda de ministros. O último a cair foi um velhote devasso e sem vergonha na cara, que teve a pachorra de se ressarcir, quando era deputado federal, de uma despesa de cerca de $ 2 mil em um motel, numa farra de que participaram umas oito pessoas. Se isso não era motivo para a abertura de um processo de cassação por quebra de decoro, não sei o que vem a sê-lo, mas dindinho tava lá para garantir a segurança do viagraman.
A queda do ministro seria um fato positivo, não fosse um detalhe: ele é do PMDB maranhense e apadrinhado do Sarney bigode de arame. Seu sucessor é do PMDB maranhense e apadrinhado do Sarney bigode de arame. Sinistro...
Não sei ao certo quantos ministros tem o governo de dona Dilma, só sei que Ali Babá tinha 40. Então, não vou fazer as vezes de revista semanal para comentar as quedas que virão, conforme a conveniência política de jogar luz sobre falcatruas que sabemos ocorrer em todo canto. Vou voltar à minha proposta inicial de escrever sobre amenidades. É lógico que esta minha tomada de decisão não tem nada de séria ou definitiva, mas vou tentar.
Falemos, então, de coisas bem mais agradáveis: semana passada comecei com minhas sessões de fisioterapia. Meu médico parece que tem uma certa queda para o terrorismo, e me fez um milhão de recomendações. "Nunca ande descalço", "evite terrenos irregulares", "nas escadas, vá degrau por degrau", "três meses sem correr", "nada de bola ou bicicleta". Eu já estava convencido de que meu pé era de cristal, e cheguei a atravessar a rua para evitar uma saliência de raiz de árvore na calçada.
Logo na primeira sessão, eu ali crente que a fisioterapeuta iria só me fazer um carinho no meu pobre e frágil pezinho, quando sem mais nem menos ela deu uma virada na ponta que me fez ver estrelas. "Ah, se ela não fosse bonita..." pensei, enquanto tentava me refazer do golpe. Ela deu um sorriso maroto e disse que minhas radiografias demonstravam que a calcificação estava perfeita e que precisávamos, agora, recuperar os movimentos laterais e a musculatura.
Falando em musculatura, minha estranha figura estava ainda mais estranha. A inatividade por mais de 60 dias, com o pé escondido naquela bota ridícula, provocou atrofia na minha já quase inexistente panturrilha. Então, eu estava com uma perna fina e a outra muuuuuito fina, o que fazia da visão por trás uma coisa de se lamentar. De quebra, ainda estávamos vivendo um período de seca horroroso, com a umidade do ar chegando a 8%, menos que o Saara, a pele completamente seca e esfarinhando. Minhas pernas pareciam dois churros.
Aos poucos fui me acostumando com os trancos e exercícios. Pensa num cara deliciado, após 1.400 metros numa esteira a 3,7 km/h, inclinação ora zero grau, ora 25 graus, com um peso de 2 kg abraçando o pé direito, justamente sobre o local da fratura. Não queria outra vida.
Percebi que estava sem equilíbrio do lado direito. A fisioterapeuta me explicou que meu cérebro meio que se esqueceu que tenho pé direito, devido ao período em que fiquei imobilizado. Vê lá se isso é coisa que se esqueça. Alguns exercícios, inclusive o peso da esteira, serviam para uma espécie de reprogramação e recuperação do senso de equilíbrio. Então tá, mas depois o pé, que não tinha nada a ver com aquele esquecimento idiota, doía pra cacete.
Ontem a moça pegou pesado. Eliana logo notou que eu cheguei mancando bem mais que o normal, e desta vez o problema é muscular. Nessas horas eu sempre me lembro de minha filha, que encarava qualquer coisa de frente quando dizíamos "é pra sarar".
Não concordo. Em matéria de salvar 171, a Câmara dos Deputados é imbatível:
Bocas de Matildes dão conta que a nada ilustre e criminosa deputada está recebendo regularmente seus 'subsídios' e verbas agregadas desde janeiro, quando tomou posse. Só que ainda não deu as caras para trabalhar, tendo limitado as visitas à Câmara para fazer sua defesa, mediante 'visitas de cortesia' aos colegas e utilização da tribuna para chorar lágrimas de crocodilo. Com a palavra, a Corregedoria.
Quando os fora da lei da Daslu foram flagrados fazendo caca (sonegação fiscal, evasão de divisas, formação de quadrilha, falsidade ideológica) e a PF fez o que tinha que fazer, de imediato o representante da OAB de São Paulo, que se chama Urso e deve ser meu parente(*), vociferou contra a divulgação de imagens da patota sendo presa, alegando que aquilo era um show pirotécnico, uma exposição desnecessária e abuso de autoridade, pelo uso desnecessário de algemas. Enviei um e-mail à OAB/SP dando total apoio à atitude de seu presidente, aproveitando para sugerir que passasse a agir de igual modo quando o Datena mostrasse na TV punguistas pobres de olho roxo e - absurdo! - algemados. Não me responderam, talvez por não terem recebido o e-mail ou por falta de tempo.
Mais recentemente, autoridades do governo federal se declararam estarrecidas com a 'violência policial', nos episódios envolvendo a prisão da bandidagem infiltrada em três ministérios de dona Dilma. O motivo do mimimi? Algemas!
Acho interessante isso. Para se eleger as pessoas fazem conchavos e associações com todos os capetas disponíveis, mesmo sabendo que, depois, virá a conta. Essa conta, geralmente, vem na forma de cargos públicos para os capetinhas amigos, que se tornam ministros ou assumem altos cargos com direito à chave do cofre. Aí, se roubam - e as circunstâncias das nomeações dão toda a pinta de que eles vão roubar - cria-se todo esse clima de beicinho quando os caras são encanados. Aliás, já encaram como afronta o simples fato de um ministro ser chamado a dar explicações.
Seria mais decente se as manifestações de "estarrecimento" tivessem origem nos milhões que foram subtraídos dos cofres públicos e, sabemos, jamais retornarão a eles. Dinheiro que foi roubado de nós, brasileiros, que somos tungados em mais cinco salários por ano na forma de impostos diretos e indiretos. É chover no molhado dizer que esse dinheiro faz falta nos investimentos em saúde, educação, segurança. Talvez tenha sido a falta desse dinheiro que matou meu irmão no Hospital Regional de Ceilândia, no DF, onde não havia um mísero rolinho de gaze no almoxarifado. As sondas utilizadas na alimentação dele foram compradas por mim, porque não havia verbas para sua aquisição. O Roriz já tinha roubado tudo.
Mas as energias carreadas para o estarrecimento ficaram restritas ao uso das algemas que, de tão incômodas em pulsos abastados, acabaram no Supremo Tribunal Federal. Aquela corte, então, fez seu pronunciamento a respeito, determinando, por meio da Súmula Vinculante 11, o uso das algemas apenas em casos de resistência, receio de fuga ou de perigo à integridade física do próprio preso ou de terceiros. Numa rápida análise, conclui-se que as algemas não estão proibidas e as três possibilidades são subjetivas. Logo, quem decide é o policial que está realizando a prisão. O resto, como diria FHC, é nhenhenhé.
A propósito, por coincidência duas notícias bombaram na data de hoje. A primeira foi a prisão, lá na terra de cumpadi Obama, da atriz Daryl Hannah, pela participação no protesto contra um certo oleoduto. Tem fotos:
Tá certo que lá é um lugar bem atrasadinho, cujos malas não têm a sofisticação dos nossos, mas parece que ela está algemada.
Ou ela está algemada, ou está com coceira na bunda.
A outra notícia é aqui do patropi mesmo, mais especificamente de Brasília. Jaqueline Roriz, filha daquele senhor, foi absolvida pela maioria de seus pares na Câmara dos Deputados. Mesmo ré confessa do recebimento de propina proveniente do mensalão do DEM, mesmo com um filme provando o crime de corrupção passiva cometido, a maioria do rabo preso achou por bem botar panos quentes, porque, sabe como é, amanhã pode ser comigo. Por que será que a votação foi secreta?
Tudo bem, esse povo confunde imunidade com falta de vergonha, mas temos que pensar em nossa parcela de culpa nisso tudo. Não somos nós que elegemos bandidos? Não somos nós que deixamos para amanhã a saída às ruas exigindo respeito e moralidade?
Por muito menos que isso houve um barulho enorme no Chile há pouquíssimo tempo. Será que nosso problema é não ser um país de língua espanhola?
(*) Ontem o Lucas veio correndo me mostrar sua mais nova descoberta: segundo o dicionário da Barsa, Veloso significa peludo ou felpudo. Daí a ter parentesco com urso é um pulo.
Minha amiga Raquel precisa de grana para comprar um carro. Eu poderia sugerir a ela assaltar um banco, especular na bolsa, arrumar um emprego num ministério desses aí e dar um jeito de facilitar a vida dos empreiteiros (parece que dá o maior pé), mas ela prefere ser criativa e dar asas à sensibilidade. Então, fez um vídeo e o inscreveu num concurso.
Ela é casada com o Rodolfo, carinha boa praça, bem falante, que trabalha com comunicação e publicidade, é palestrante e... cadeirante. Sacou o porquê do carro? Rodolfo já está até com bursite por ter que enfrentar as seguras e bem conservadas ruas e calçadas de São Paulo, onde percorre, em média, sete quilômetros por dia. Um carango adaptado daria uma hand para o Rodolfo trabalhar sem tanto perrengue. Não pedi autorização mas, como tá no youtube, reproduzo aí embaixo o cartão de visitas dele:
O vídeo que a Raquel fez está inscrito num concurso promovido pelo Oswaldo Montenegro, que prevê premiação em dinheiro. Haverá, lógico, um júri técnico, mas um dos quesitos considerados é a quantidade de acessos no iuiuitubiu. Então, tá todo mundo convocado a dar uma clicadinha no link aí embaixo. Além de conter uma música do Oswaldo Montenegro, que eu não conhecia e adorei a letra, vale pela beleza e sincronismo de imagens que a Quel inseriu, e que têm tudo a ver com o tema.
Mas só vale se assistir até o final. Se gostar, veja de novo para engordar o contador de visitas, e não se esqueça de passar para os amigos.
O nome do cidadão é João Beltrão, mora em Alagoas e, até prova em contrário, não é flor que se cheire. Contra ele pesam duas condenações transitadas em julgado em 2007 e 2009, com fulcro na Lei 64/1990, que torna inelegível por cinco anos para qualquer cargo eletivo 'os que tiverem suas contas relativas ao exercício de cargos ou funções públicas rejeitadas, por irregularidade insanável e por decisão irrecorrível do órgão competente'. Beltrão foi prefeito do município de Coruripe/AL, no curso de cujo mandato ocorreram as tais contas rejeitadas.
A questão é que, como o STF decidiu que a ficha limpa só vale para o próximo campeonato, Beltrão livrou-se do incômodo e poderá usufruir das benesses proporcionadas pela reeleição a deputado estadual, que os 33.400 votos recebidos lhe garantiram.
É uma questão legalista, que acho estranha e conveniente para os mal-intencionados, mas o STF decidiu. Ponto.
O curioso nisso tudo é que Beltrão é também acusado de pelo menos dois assassinatos, um dos quais lhe rendeu a decretação de prisão em fevereiro deste ano. Como, à época, estava sem mandato e por consequência sem im(p)unidade parlamentar, o jeito foi picar a mula e até alguns dias atrás era considerado foragido da justiça. Beltrão teria sido, em 1996, o executante ou mandante da morte de um policial que já havia sido seu capanga. Há, também, a acusação de que seria o autor intelectual do assassinato de um bancário, morto em abril de 1997.
Só que, no Brasil, a justiça é cega. Então, o Tribunal Regional Eleitoral de Alagoas decidiu por unanimidade, em sessão do dia oito deste mês, autorizar a posse do fujão na Assembléia Legislativa do Estado, porque, deduzo eu, a cegueira da justiça não permite que um tribunal eleitoral enxergue crimes outros que não os eleitorais. Como garantiu o STF, em tese o picador de mula está limpo, apesar de sujo.
Aí entra um detalhe que beira o cômico: se Beltrão aparecer para tomar posse, será devidamente encanado. Mas isso não foi problema, já que o próprio TRE/AL deu o caminho das pedras: informou aos advogados do figurão (que é rico pra dedéu), que a diplomação poderá ser feita por procuração.
Simples assim: arruma um Zé Ruela pra tomar posse por procuração e, a partir de então, o Sr. João Beltrão sairá do matinho onde estava escondido e ressurgirá com todo seu esplendor e bons propósitos, já na condição de deputado intocável, para cair nos braços do povo.
Em matéria de apologia ao crime, a justiça de Alagoas, TRE incluído, deu um banho no Rafinha Bastos. Pena que o Ministério Público - o mesmo que acusa, com justiça, o Rafinha Bastos - reiteradamente demonstra falta de talento ou coragem para lidar com espinhos grandes.
Desde que me envolvi naquele lamentável acidente futebolístico (não, não cobrei nenhum pênalti contra o Paraguai), o que me rendeu um plus nos meios de transporte com a introdução (ui!) das muletas e bota ortopédica em meu cotidiano, tenho sentido na pele o que já sabia em teoria, baseado em relatos de meus amigos com deficiência.
A primeira constatação é o fato de que se locomover de maneira diferente leva a duas situações em tese antagônicas: ou você se torna invisível, ou é o centro das atenções.
Quebrei a fíbula, antigamente apelidada de perônio, e para resumir digo para o povo que quebrei o pé. A região do pé é de tal maneira complexa, um emaranhado de ossos, ligamentos, veias e artérias, que tem até ortopedista especializado no pisante. É o caso de meu médico. Falta pouco para ter especialista na terceira falange do dedão do pé esquerdo, mas a coisa é realmente complicada. Meu médico é do tipo mandão e, na primeira consulta, determinou: 45 dias sem pisar no chão. Esses 45 dias viraram 32, porque meu processo de calcificação surpreendeu e fui liberado para tirar a bota para tomar banho e dormir. Ser negão só tem vantagens, não sei por que esses arianos idiotas se acham uma raça superior. Quebrem a fíbula, bobões, e façamos as apostas.
Eu me recusei a ficar recluso em casa mais do que era suportável, e fui ao cinema, ao shopping e desci para ver o Lucas jogar bola ou andar de skate. Aí é que entra o ponto central deste texto-crônica: no área de lazer do prédio eu era o centro das atenções, sempre da forma mais positiva. A molecada com quem costumo dividir a quadra e a piscina logo veio saber de mim, como eu estava, quando voltaria às peladas, essas coisas. Já o elevador era um caso à parte: várias vezes um vizinho ou vizinha estava à minha frente alguns metros no caminho para o elevador, e ali eu era absurdamente invisível. Não me esperavam chegar, simplesmente entravam e subiam. O besta que vos fala tinha que esperar o próximo elevador. Será que não me viam, ou a pressa tira a educação?
Fui algumas vezes ao shopping, e descobri que, se não brecasse nem desviasse do povo, levaria um capote. As pessoas não se davam ao trabalho de diminuir a marcha para que eu passasse, nem desviavam quando vinham em sentido contrário. Eu estava na boca do caixa da Saraiva para pagar um DVD histórico do Queen que comprei para a madame, quando a atendente gritou "próximo" e uma adolescente que estava atrás de mim praticamente me atropelou. Chegou a dar um chute na muleta e nem olhou para trás. Perdeu, negão; tá de muleta, não existe.
Aquilo foi me deixando assaz empedernido. Num sábado desses aí resolvi fazer uma graça para a sogra (em retribuição à costelinha de porco que só ela faz), e fomos a uma pizzaria. Chegamos por volta das oito da noite, já havia dificuldade de encontrar mesa mas conseguimos. Essa pizzaria ainda vai virar post, pelo inusitado do comportamento sempre cortez e divertido dos garçons e, principalmente, porque estão em curso obras de acessibilidade que vão permitir a qualquer deficiente chegar lá e não precisar ser carregado como se fosse um saco de batata. Os banheiros adaptados já estão prontos.
Saí para dar um giro e conferir os banheiros adaptados e, na volta à mesa, um grupo vinha do lado direito em direção à porta de saída. Imaginei que fossem respeitar meus ralos cabelos brancos e minhas muletas, mas mantiveram o passo. Resolvi que tinha perdido os freios e também segui na mesma velocidade. O choque, que já seria por si só inevitável, foi acentuado por um movimento que fiz, metendo a muleta na mulher que estava mais próxima. Devo ter produzido um ovo de avestruz na canela da baranga, e aí, candidamente, disse: pô, foi mal, achei que você fosse me dar a preferência.
Não entendo muito dessa coisa de céu e inferno, mas me lixei. Cheguei em casa e dormi gostoso.
Imaginemos, por absurdo, que um dia o Sarney venha a morrer. Seria possível, após tão improvável evento, olhar para a nação e dizer "seus problemas acabaram"? Nananina. Primeiro porque o verbete Sarney já não denomina uma pessoa, mas uma espécie de metástase, o que significa que a falta do Ribamar seria no máximo uma baixa na corriola da Kiola. Segundo porque, ao que indicam os fatos mais recentes, Sarney parece estar mudando de categoria, juntando-se aos que hoje podem ser considerados amadores. Já deu (ou tomou) o que tinha que dar (ou tomar) e passou o bastão para seus iguais.
Há cerca de um mês vêm pipocando notícias nada edificantes do submundo do Ministério dos Transportes, com destaque para o DNIT. Para quem não sabe, DNIT é o antigo DNER, aquele órgão responsável pela manutenção dos buracos nas estradas brasileiras. A exemplo do que ocorria durante a antiga denominação, o DNIT vem cumprindo com esmero sua tarefa de manter - e até alargar - as crateras que destroem nossos carros nas rodovias federais. Também responde pela instalação de radares ao longo de ditas rodovias, porque, como é de conhecimento geral, o que causa acidentes são velocidades superiores a 40, 60 ou 80 km/h (por que permitem a fabricação e comercialização de carros que prometem andar a 180?), não a falta de manutenção do asfalto ou a precariedade da sinalização, e olha que nem falei do matagal que costuma invadir a pista nos períodos de chuva.
Pois bom. Não é que agora resolveram prestar mais um serviço à Pátria, embolsando o dinheiro do contribuinte? Não que isso seja novidade, mas é um tipo diferente de novidade, que cai na imprensa e sai rasgando feito um buscapé. Os personagens são em quantidade que ninguém arrisca um palpite, mas a esmagadora maioria tem no DNA um certo PR. A princípio imaginei que PR, além da sigla do Estado do Paraná, seria uma abreviatura para propina. Depois, lendo um artigo aqui, outro ali, vi que era mais provável tratar-se de uma sigla, tipo Podemos Roubar, Próceres Ruminantes ou Partido da Rapinagem.
Eu ainda nem tinha retomado o fôlego quando explodiu a história da ANP, que a revista Época, na edição da semana passada, apelidou de Agência Nacional da Propina. Uma advogada pra lá de corajosa gravou conversas mais que comprometedoras que teve com agentes da ANP, revelando um festival de achaques e cobranças de propinas que iam direto para o bolso de altos figurões. As gravações foram feitas com o apoio técnico-logístico da Polícia Federal e autorização judicial a pedido do Ministério Público. A tática não era das mais originais, mas que sempre deu certo: criar dificuldades para vender facilidades. Desta feita, quem manda no pedaço é o PC do B, o que prova definitivamente que comunista brasileiro adora dinheiro.
Em ambos os casos as cifras são milionárias. No tocante ao Ministério dos Transportes/DNIT, os bois de piranha já estão sendo defenestrados, tendo alcançado até ontem o recorde de 22 demissões, que o governo tem chamado de ajustes. Eu adoro o neologismo oficial: pobre rouba, figurão desvia; pobre é demitido, figurão sofre ajuste. A questão é que a gente sabe que a quantidade de desajustados que foram alvo de ajuste nem chega perto da multidão que compõe a quadrilha. Sobre a ANP, ainda não li nada sobre punições, afastamentos ou qualquer sinônimo bonitinho que queiram dar. O presidente da ANER - Associação Nacional dos Servidores Efetivos das Agências Reguladoras Federais, Paulo Rodrigues Mendes, publicou declaração afirmando que nenhum dos envolvidos ou citados nas denúncias da ANP é ou foi servidor concursado daquela agência.
O buraco, ou o rombo, é mais embaixo. Entra governo, sai governo (e não falo aqui só da era PT, porque a história é antiga), os partidos políticos que apoiaram a campanha vencedora cobram seu quinhão. Ou dá ou desce. Se quer que a bancada vote favoravelmente aos projetos de interesse do governo, nomeia minha turma aí. É o toma lá-dá cá, também conhecido como aparelhameto do Estado. É um fenômeno político normal em várias nações, com a diferença que nos outros países o governo não padece da obesidade mórbida brasileira, além de levar mais a sério o controle interno e a decência no trato da coisa pública. Por aqui também não há o cuidado de nomear pessoas capacitadas para o cargo. Ainda segundo a reportagem de Época - e para ficar num único exemplo - o chefe da ANP em São Paulo é ex-cobrador de ônibus. Nada contra cobradores de ônibus, pelamordedeus, mas alguém com um mínimo de espírito cívico nomearia esse senhor, que só conhece petróleo porque diesel faz fumaça e, quando candidado (derrotado) a deputado pelo PCdoB, recebeu doações das empresas que fiscaliza?
Acompanho de perto esses episódios, infelizmente acho que não serão os únicos a ganharem as páginas dos jornais, e espero que, finalmente, a justiça brasileira tenha a decência de não refrescar para quem é rico. Aliás, se comprovado patrimônio adquirido por meios ilícitos, que se determine a expropriação pura e simples, em nome do interesse público, não esquecendo a tradicional figura dos laranjas.
Segundo os jornalistas Leonel Rosa e Murilo Ramos, desde novembro de 2006 existem denúncias sobre os desmandos no Ministério dos Transportes, mas as investigações teriam sido engavetadas pela não menos famosa Erenice Guerra, então secretária executiva da Casa Civil da Presidência da República, para não criar problemas com a base governista no Congresso Nacional.
Foi marcado para as 15:00h do dia 30 de julho próximo o sorteio das chaves para a copa do mundo no Brasil. Normal. Todo campeonato precisa ter definidos os grupos de times que jogarão entre si ou comporão as chaves para a disputa.
Como se trata de copa do mundo, é praxe que o tal sorteio seja um espetáculo, vez que será transmitido ao vivo para cerca de 200 países e, sacumé, não podemos fazer feio. Até aí, tudo bem. Normal.
O custo desse espetáculo foi definido em 30 milhões de reais, tendo sido contratada, com exclusividade pelo COL - Comitê Organizador Local da Copa 2014, a empresa Geo Eventos, a quem caberia sair à cata de patrocinadores para bancar o evento. Normal.
O problema é quando os atos e fatos vão se sucedendo, e a gente acaba desconfiando de que algo não está normal:
o mandatário-mor do tal COL chama-se Ricardo Teixeira, presidente da CBF. Aí o normal é a gente dar uma tremidinha.
A empresa Geo Eventos S/A pertence à Rede Globo, em parceria com a RBS (Rede Brasil Sul, repetidora gaucha).
A busca por patrocínio não demandou muita sola de sapato, porque os R$ 30 milhões foram bancados pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro e a Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, metade de cada um.
Em que pese esse trocadinho ter saído dos cofres públicos, não houve licitação, bastando a decisão de prefeito e governador e a publicação no Diário Oficial. A Geo Eventos foi imposta pelos (muito) interessados, e os recursos públicos foram liberados com muito mais rapidez do que foram, por exemplo, para atender à população vítima da tragédia de Angra dos Reis.
Antes que eu me esqueça: a FIFA, entidade que, em tese, seria a maior interessada nesse evento, não desembolsou um único centavo. A CBF entrou com o dobro.
Meu último texto publicado, reconheço, foi bem noir, e não poderia ser diferente. Eu falei da morte, de uma perda que me tirou do prumo há 17 anos e me levou a sair catando meus cacos, tarefa à qual me dedico até hoje.
Bora mudar de assunto e falar da vida. Esta semana, numa troca de figurinhas entre amigos via blog do meu amigo Jairo e galera do Facebook, veio à baila a questão da aposentadoria especial para pessoas com deficiência. Nem é o caso de dizer que as dúvidas eram muitas, porque eram todas, e resolvi fuçar nesse assunto para ver o que existia de concreto.
Acabei chegando ao Projeto de Lei Complementar 277/05, que juntou traça em gaveta esplêndida na Câmara dos Deputados por insignificantes cinco anos, tendo sido aprovada, por unanimidade e com poucas alterações em seu texto original, em 14 de abril do ano passado. O PL é de autoria do então deputado federal Leonardo Mattos, de Minas Gerais, ele próprio um cadeirante.
Aliás, o texto abaixo foi extraído do site http://leonardomattos.com.br/, mantido pelo antigo deputado e hoje vereador em Belo Horizonte. Cabe o registro de que, na prática, a diminuição do tempo de contribuição poderá chegar a 10 anos, para homens e mulheres.
“Os trabalhadores com deficiência no Brasil deram mais um passo para alcançar o direito da aposentadoria especial. Na noite de quarta-feira (14/04), às 22h15min, a Câmara dos Deputados aprovou por unanimidade (385 deputados presentes) o Projeto de Lei Complementar 277/05, que permite a redução do tempo de contribuição dessas pessoas à Previdência Social. “Este projeto é um dos mais importantes para a vida do segmento. Com sua aprovação vamos melhorar, consideravelmente, a qualidade de vida das pessoas com deficiência”, afirmou o autor da proposta ex-deputado federal, vereador Leonardo Mattos (PV).
De acordo com a proposta aprovada, os deficientes poderão contribuir segundo o grau de deficiência: • Deficiência moderada: - 27 anos para homens e 22 para mulheres (redução de 03 anos)
• Deficiência grave: - 25 anos para homens e 20 para mulheres (redução de 05 anos)
Aposentadoria por Idade • Também poderá ser requisitada com cinco anos a menos que a idade exigida atualmente, que é 65 anos para homens e 60 para mulher.
Ambos deverão ter contribuído por um mínimo de 15 anos.
Tipo de deficiência que se enquadra na lei • Um regulamento especificará o grau de limitação física, mental, auditiva, intelectual ou sensorial, visual ou múltipla que classificará do segurado como pessoa com deficiência.
• O regulamento também definirá em que grau (leve, moderada ou grave) cada deficiência será enquadrada.
Em todos os casos, o grau de deficiência será atestado por perícia médica do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) a cada cinco anos.
Renda mensal • A renda mensal das pessoas com deficiência aposentadas por tempo de contribuição será de 100% do salário de benefício.
• No caso da aposentadoria por idade, o salário a receber será de, no mínimo, 70% mais 1% a cada doze meses de contribuição
• O segurado que houver contribuído mais receberá mais.
O TEXTO SEGUE AGORA PARA APROVAÇÃO NO SENADO FEDERAL”
Não sei bem como essas coisas funcionam, mas parece que o Projeto de Lei Complementar, que tinha o número 277/05, uma vez aprovado virou o projeto de lei da Câmara PLC 040/10 – Complementar, mas o texto é o mesmo. Esse projeto trata da aposentadoria especial para quem é regido pela CLT, e existe a PLS 250/05 - Complementar, de autoria do senador Paulo Paim, voltada para os funcionários públicos. Ambas estão pendentes de aprovação pelo Senado Federal.
A aposentadoria especial para pessoas com deficiência está longe de ser uma espécie de ‘prêmio de consolação’. Além de dados estatísticos publicados pela Organização Mundial de Saúde, está provado que essas pessoas enfrentam dificuldades peculiares que não atingem os ditos normais, e estão sujeitas a doenças ocupacionais e desgastes laborativos que justificam a diminuição da idade mínima e do tempo de contribuição para adquirirem o direito à aposentadoria. Há trocentos anos Aristóteles definiu que isonomia é ‘tratar igualmente os iguais, e os desiguais na medida de sua desigualdade’.
Agora, me deixem soltar meu veneno aqui, porque já estou babando (e me contaram que engolir veneno pode fazer mal): a Câmara demonstrou desprezo pelo público-alvo, ao demorar cinco anos para aprovar um projeto de lei cujo texto já estava pronto e acabado, não deixava dúvidas quanto à justeza, constitucionalidade, aplicabilidade legal, viabilidade econômico-financeira e alcance social. O próprio Michel Temer, que não tem o menor cacoete para mocinho e presidia a Câmara na época, deixou escapar em entrevista a uma emissora de TV que a prioridade sempre foram as Medidas Provisórias encaminhadas pelo Executivo.
Pois bem: a proposta foi aprovada na Câmara e já comemorou seu primeiro aniversário no Senado, o que não é bom sinal. Enquanto o projeto de lei estava na Câmara e nós outros quietos do lado de cá, as coisas caminharam a passos de tartaruga. Essa história de independência dos poderes é balela, pois o que vemos é o legislativo fazendo as vezes de lacaio do executivo que, por meio de sua ‘base de sustentação’, impõe o que vai a votação.
Então, é necessário que a gente torre a paciência desse povo até que, nem que seja para se livrar de nossa presença incômoda, faça o que deve ser feito.
Para quem acha que só a Câmara dos Deputados está se lixando para os deficientes físicos (perdão, Mara, mas você e mais uma meia dúzia de três ou quatro são exceções e sabem de quem estou falando), essa foto aí embaixo pode simbolizar o apreço do Senado por esse povo que trabalha, produz, paga impostos e de vez em quando se junta para tomar umas pingas:
Deu pra ver a prosaica placa de vaga especial? Notaram, também, que havia opções? (Para os deficientes visuais: a foto mostra um carro oficial, com placa do Senado, estacionado numa vaga exclusiva para deficientes ou pessoas com dificuldades de locomoção)
Então, proponho entupirmos as caixas postais dos senadores com mensagens solicitando a colocação em pauta da PLC 040/10 e PLS 250/05, para votação em regime de urgência.
Para isso, pode ser utilizado um texto padrão, como o que bolei abaixo:
Senhor(a) Senador(a)
Encontram-se em tramitação nessa Casa a PLC 040/10 e a PLS 250/05, a primeira já aprovada pela Câmara dos Deputados e a segunda da lavra do ilustre Senador Paulo Paim, ambas versando sobre a instituição da aposentadoria especial para pessoas com deficiência.
Dados do IBGE apontam que cerca de 15% da população brasileira possui algum tipo de deficiência, o que significa um contingente estimado de 30 milhões de pessoas.
Assim, dada a relevância do assunto e o alcance social dos projetos de lei acima citados, é que solicito empenho pessoal de Vossa Excelência no sentido de que seja promovida, com a urgência necessária, sua colocação para votação e aprovação, com vistas à obtenção da sanção presidencial e entrada imediata em vigor.
Na certeza de que prevalecerá o espírito público que sempre norteou as ações de Vossa Excelência, subscrevo-me,
NOME COMPLETO CPF TÍTULO DE ELEITOR (esse dado é importante porque atinge o parlamentar na parte mais sensível de sua anatomia)
Tomei o cuidado de identificar e relacionar, a partir do sítio do Senado Federal, o endereço de e-mail de cada um dos senadores. Para acessar a lista, clique AQUI.
Agora, mãos à obra. Para encaminhar o e-mail, basta copiar e colar TODOS os endereços de e-mail e, em seguida, fazer o mesmo com o texto, identificar-se e clicar em ENVIAR.
Desnecessário dizer que este assunto não é de interesse exclusivo das pessoas com deficiência, amigos e familiares. Como bem disse minha amiga Lak, as deficiências físicas, mentais ou sensoriais às vezes são reversíveis. A não deficiência nunca teve essa 'garantia'.
Eu sei que dói no coração tratar um Renan Calheiros da vida de 'excelência', mas é a regra do jogo e vale o sacrifício. Uma colherada de leite de magnésia deve resolver o problema.
Assim que forem aprovados os projetos e a aposentadoria especial se tornar Lei, a gente combina o churrasco.
Eu sentia o corpo pesado, o espírito meio que vazio, mas me surpreendia o fato de estar lúcido, num momento em que a confusão mental seria quase que uma exigência.
Tinha plena consciência de que minha vida estava sofrendo uma ruptura sem volta, nunca mais teria a mesma mentalidade, minhas preocupações e prioridades seriam outras. Mesmo assim, serenidade.
O pensamento dava voltas, e me remetia à lembrança de tantos momentos dispersos que construíram minhas dores, minha estranha força e meu sorriso. Minha essência era resultado dos últimos anos, em que aprendi a agir, reagir, interagindo com uma realidade então nova e desafiadora.
Eu continuava sereno, conversava com as pessoas que me vinham abraçar, e me lembrava de como era gostoso o abraço dela. Meio torto, meio sem pressão, mas não havia abraço mais gostoso. Sincero. Lembrei-me de minha fúria instantânea sempre que a percebia de alguma forma discriminada, e ainda não me convenço de que exagerei, como diziam. Eu era um lobo protegendo a cria. As pessoas que só teorizam não sabem de nada.
-o-
Um cemitério é um lugar desconfortável em todos os aspectos. Acabei por me sentar num canto do lado de fora da sala de velório, recostado à parede e com o rosto enterrado entre as pernas. Alguns pensaram que eu chorava, mas nem isso o cansaço me permitia. Eu estava sofrendo os efeitos de dezenas de horas sem dormir, mas não tinha sono, o momento não toleraria isso. É provável que hoje, 17 anos depois, não me seria possível essa resistência.
Ao longo de horas infinitas eu me recusei a vê-la sem vida. Passei inúmeras vezes ao redor de seu esquife mas não olhei, preferi não ter tal imagem como lembrança. Bem melhor lembrar nossas brincadeiras, nossas músicas, nossas estripulias na piscina, os passeios noturnos em volta do quarteirão, nossa vida simples e feliz.
Após todo um ritual que não compreendi a que servia, retornei para casa e senti o espírito ainda mais sem energia. Por estranho que pareça, meu medo era abrir a porta. Um medo insano, eu já sabia que não mais a encontraria. Já era tarde, as pessoas se recolheram e eu fiquei na sala, pensativo. Com raiva.
Súbito, tomei o elevador. No deck da piscina deitei-me em uma espreguiçadeira e lá permaneci por horas, olhando o céu estrelado e imaginando onde estaria Deus naquele momento. Desconfiei que estava envergonhado e se escondia de mim, já que nunca chegamos a ter uma relação amistosa e o momento era de respostas.
Eu me sentia na mais profunda solidão, e me pareceu melhor assim. Na volta para casa fiquei debruçado na sacada olhando para um horizonte sem graça, escuro, que aos poucos foi tomando forma e me fez perceber que amanhecia, um amanhecer sem razão, sem sentido, o mundo acabara na véspera.
Demorei um bocado para assimilar o golpe. Ao longo dos dias que se seguiram tive meus momentos de demência, como aquela tarde em que acordei no percurso que fazíamos em nossos passeios. Não me lembrava de ter saído do apartamento, e me vi no térreo andando entre os carros estacionados, as mãos projetadas para a frente como a empurrar uma cadeira de rodas que já tinha sido doada.
No coração e na mente prevalecem lembranças boas, de um anjinho que optou por sofrer com um sorriso nos lábios e tinha o dom de transformar os bons momentos em eternidades inesquecíveis. Um anjinho que me foi tomado e, com isso, me tirou boa parte de uma já naturalmente minguada capacidade de acreditar em coisas invisíveis, que tudo podem e nada explicam.
É terrível sobreviver aos filhos. Minha filhinha completaria hoje 24 anos.
Depois que adicionei ao meu figurino uma peça que nem Imelda Marcos sonhou em possuir, um legítimo coturno que lembra os tênis da galera da NBA, o prazer de tomar um bom banho se tornou um exercício de paciência.
Além de estar com uma faixa no pé, de início apertada pra burro e que depois foi afrouxando, a bota é toda cheia de nove-horas, com um recheio parecido com um pequeno edredon que se molda ao pé. A conclusão é o óbvio ululante: não pode molhar.
Apelei para sacos de lixo de 30 litros, para proteger a traquitana. Calço um, envolvo toda a bota e vedo com fita adesiva do tipo usado em fechamento de caixas. Pra tirar depois é uma beleza, acho que sou o único cara no planeta com o joelho depilado. Como uma desgraça nunca vem só - estão aí as duplas sertanejas que não me deixam mentir -, permanece a proibição médica de apoiar o pé direito no chão, sob o risco de arregaçar o que sobrou e me render uma cirurgia para colocação de parafuso. Então é aquela cena ridícula: entro no box pulando e lavo o possível, com o pé direito no máximo descansando no chão, numa posição meio enviesada, que dá a impressão de que estou prestes a sair correndo.
Numa noite dessas eu estava nesse embate emocionante, quando senti água escorrendo pela panturrilha. Rapidinho me enxaguei e saí do box com a lepidez dada a um saci sobre terreno escorregadio. Percebi que não coloquei a fita direito e deixei uma brechinha na parte traseira da perna, suficiente para permitir uma invasão absurda de H2O. Momentos de grande tensão.
Eliana está envolvida com um encontro com antigos colegas de faculdade, tipo 15 anos de formatura, e naquele momento trocava e-mails com a rapaziada para combinar dia, hora e local. Resolvi que poderia resolver tudo sozinho mas, para isso, teria que protagonizar cenas grotescas. Imaginem um serumano saindo do banheiro, não completamente nu porque tinha a bota, pilotando um par de muletas. Parecia aquele vilão do Homem Aranha 2, que tinha vários tentáculos metálicos, mas eu fazia o estilo híbrido: duas 'pernas' metálicas, o pé esquerdo tocando o chão para dar um mínimo de estabilidade, a perna direita parecendo um trem de pouso recolhido e aquela outra chacoalhando para os lados sem ter a menor idéia do que estava acontecendo. Enquanto isso, a tal bota soltava água por todos os buracos, fazendo poças pelo quarto. Tive a exata noção do significado de visão do inferno.
Minha estranha movimentação fez Eliana desconfiar de que algo não estaria ocorrendo conforme o planejado. Ao chegar no quarto entrou em desespero (é, ela se desespera à toa). Meu pé ainda dói, então deu trabalho para tirar a bota. Enquanto eu usava papel toalha para enxugar a parte plástica, Eliana dava um trato no resto utilizando o secador de cabelos. Por fim, as coisas voltaram ao normal.
Teve seu lado bom: a faixa deu mais uma afrouxadinha.
Anteontem voltei ao hospital para fazer nova radiografia, e o resultado foi alvissareiro. A enfermeira queria trocar a faixa, mas eu disse que não era necessário porque a pressão estava exatamente igual (o que é uma mentirinha dessas perto da declaração de bens de um deputado?). Além do mais, o médico me disse para ficar só mais alguns dias com a faixa, substituindo-a por um meião. Também me liberou da bota para o banho assim que tirar a faixa, mas sem pisar no chão, hein?, não se esqueça!
O habeas-corpus não inclui dormir sem as botas, o que achei lamentável, é a pior parte. Ainda vou ter que conviver com aquela encrenca por quase um mês.
Sábado passado, quando virei o pé (ei, Amauri, eu disse O PÉ) naquele futebolzinho despretensioso, inicialmente pensei que se tratasse somente de uma torção de tornozelo. Do campo onde estávamos até o estacionamento do clube, tive que encarar algumas dúzias de degraus e seguir por um caminho de uns 100 metros em aclive. Manquitolando.
De repente o Lucas pegou meu braço e colocou sobre seu ombro (eu tenho 1,76m e ele deve estar beirando 1,35m). Não fosse a ajuda dele, eu teria sentido menos dor e chegado bem antes ao local onde o carro estava estacionado, mas quem sou eu para frustrar o espírito carinhoso e solidário do meu filho?
Dirigi os cerca de 50 km que separam Anápolis de Goiânia. Uma vez estacionado o carro, Eliana tratou de pegar o que havia no porta-malas e o moleque, mais uma vez, jogou meu braço sobre seu ombro e lá fomos nós até os elevadores.
Foi a mais cristalina demonstração de que posso contar com meu filho na hora do vamuvê.
Ultimamente não me tem sobrado muito tempo para uma relaxada no quesito saúde. Desde que iniciei o tratamento contra a hepatite C, em meados do segundo semestre de 2008, os problemas vêm sendo anexados antes que o anterior termine, o que tem feito de meu dia-a-dia uma aventura. Monotonia zero.
O tratamento da hepatite começou com o enfrentamento de uma doença crônica histórica, chamada saúde pública no Brasil. Depois de iniciado, vieram os efeitos colaterais que se manifestaram na forma de dores generalizadas, fadiga, anemia, imunodepressão, emagrecimento. E eu lá, firmão. Resolvi que perrengue existe pra ser sacaneado, combatido e derrotado, e a melhor forma de levar a vida é levando a vida, o que inclui passar ao largo de dificuldades que podem até causar um desconforto aqui, uma impossibilidade passageira ali, sem entregar os pontos jamais. Só sucumbi aos apelos médicos quando percebi que realmente não dava para tocar o trabalho com segurança, já que a memória e a concentração estavam profundamente prejudicadas, e saí de licença. Mas não vesti o pijama; calcei as chuteiras.
Terminado o tratamento, as coisas voltaram ao normal, menos o emagrecimento. Minha médica não entendia por que, até que descobrimos que o coquetel molotov que tomei durante 18 meses tinha me deixado de lembrança um quadro de hipertireoidismo. Mais uma pequena coleção de cápsulas goela abaixo, sem prazo para comemorar a última.
Vida que segue: trabalho, farra com o moleque, namoro com a madame, minha música, meus amigos, meus discos, meus livros e tudo o mais, além da expectativa de completar 35 anos de contribuição para aquela outra doença chamada INSS e, finalmente, receber minha carta de alforria.
E a vida seguindo significa bater uma bolinha de vez em quando, principalmente aos fins de semana em Anápolis, quando juntamos a molecada e vamos ao clube. Contabilizo 99% de bons momentos nessas jornadas esportivas, mas tem aquele 1% em que as bruxas e Murphy se revezam para tentar me pegar na reta. Há pouco tempo conseguiram (vide post 'Aquilo Roxo', um pouco mais abaixo), deixando meumindinho com cara de cancela de quartel após uma bolada caprichada: Não estica mais do que isso nem com reza brava
O primeiro - e, até agora, único - atendimento, apesar de focado no dedo, foi bem nas coxas. A 'imobilização' que fizeram me permitia até coçar o ouvido, e arranquei as faixas no dia seguinte. Eu ainda estava tentando agendar um ortopedista para tentar desempenar meu chucrute com unha, que ainda dói muito, quando rolou novo embate esportivo com a galera no mesmo bat-local. "É só não jogar no gol", pensei. Pois é.
No gramado, os renomados atletas de sempre: meu cunhado Gustavo, os sobrinhos Danilo e Diogo, Lucas e eu. Começamos com inofensivos tiros ao gol, até que alguém teve a idéia de uma contenda pai e filho contra pai e filho. Danilo no gol. Deve ter durado uns dez minutos.
Numa mirabolante jogada de efeito, após uma matada no peito magistral, eis que carrego a bola abrindo caminho para um passe para o Lucas. Foi muito rápido, mas acho que tentei frear, o pé de apoio deu uma escorregadinha e parou num buraco ou num morrinho artilheiro. De repente o peito do pé trocou de lugar com a sola, meu pé direito capotou. Juro por Nossa Senhora dos Cabeças de Bagre que escutei um 'creck', caí no chão e lá fiquei. Gustavo logo percebeu que eu não estava imitando o Neymar e veio em meu socorro. Fim de festa.
No domingo pela manhã o Lucas participou de um torneio num clube. No caminho, Eliana me deixou no hospital e seguiu com ele, depois eu iria ao encontro dos dois. Fiz a consulta médica, fui encaminhado para a radiografia e depois chamado de volta ao consultório. O médico olhou minhas radiografias e comentou: "caraca, quebrou!" Olha aí que coisa mimosa:
O perônio, também conhecido com fíbula, não aguentou o batidão e está na expectativa de uma superbonder. Daqui a algumas horas tenho consulta com um ortopedista especializado em pé, para ver a extensão do estrago e o que será feito a respeito.
Por enquanto tá doendo, não tem analgésico que dê jeito e ainda tenho que suportar os colegas me enchendo a paciência, com aquelas piadinhas de 'DNA', 'é problema de junta' e outras menos cotadas.
Mas tenho que considerar com seriedade os sinais que venho recebendo, no sentido de que, a esta altura do campeonato, a melhor posição que devo jogar é sentado na arquibancada. E xingando o juiz, o que, convenhamos, também é muito divertido.
Post Scriptum: cheguei agora há pouco do médico. Não é caso para cirurgia, mas tenho que ficar 45 dias sem botar o pé no chão. Bota e muletas, portanto. Até que ficou bonitinho.
Na entrada, o avião até pareceu simpático: poltronas largas, vinho nas mesinhas, controle remoto. Claro que eu sabia que aquilo não era para o meu bico, tratava-se da classe executiva (a primeira classe estava escondida logo atrás da cabine), mas imaginava que a área reservada à gentalha fosse um pouquinho melhor que a oferecida pela mesma TAM para os voos domésticos. Ledo Ivo engano.
O aperto era o mesmo, com o único diferencial de ter um pequeno monitor à frente, onde poderíamos escolher a programação (cinema, TV, shows, essas coisas). A poltrona reclinava meia polegada e o plug do fone de ouvido não encaixava direito, o que exigia que eu ficasse segurando o infeliz se quisesse um som decente. O único que se deu bem foi o Lucas, que dormiu a noite toda deitado, a cabeça no colo da mãe e os pés no meu. Foram quase 12 horas de voo.
Mas o avião era apenas o instrumento; o objetivo era Paris.
Eu já desconfiava que Paris seria uma experiência única, mas jamais poderia imaginar que seria assim tão única. É uma cidade que pulsa, respira, nesta época do ano começa a escurecer às nove e meia da noite e tudo é festa. Tínhamos apenas nove dias para explorar aquilo tudo, e o roteiro que traçamos indicava que havia uma maratona pela frente: Louvre, D'Orsay, Versailles, Notre Dame, Sena, Torre Eiffel, Arco do Triunfo, Champs Elisées, Bastilha, Galeria Lafaiete, as lojinhas e lanchonetes de Saint Germain, Jardim de Luxemburgo. No meio do caminho ainda tinha uma fugidinha de um dia a Londres.
Desta vez exageramos na quadrilha: éramos 16. Passeamos, fuçamos cada canto da cidade, andamos de metrô sei lá quantas vezes, e acabamos conseguindo cumprir boa parte do roteiro. Só ficou inexplorado o museu D'Orsay, para desespero de Eliana, que queria ver obras de seus ícones. Por um lado é até bom, temos motivos para voltar.
No Louvre:
Pela cidade afora:
Lá pelo quinto dia pegamos um trem metido a apressadinho e fomos baixar em Londres. Fomos direto ao Palácio de Buckingham para conferir se a Pippa tinha, de fato, uma bunda, mas demos um azar danado: era dia de visita oficial do camarada Obama, e a multidão ali só perdia para um Fla-Flu. Ninguém conseguiu sequer ver ou fotografar a troca de guarda. Batemos em retirada para um city tour, por um busão que, descobrimos, fazia todo o trajeto turístico da cidade, com direito a guia com microfone. O mais legal é que o bilhete valia para o dia inteiro; descíamos num ponto qualquer e, quando quiséssemos, poderíamos pegar digratis outro ônibus da empresa para continuar a explorar aquela terra fria.
Essas duas aí embaixo não são as irmãs Cajazeiras versão Alcorão; são Simone e Eliana se protegendo do frio no primeiro andar do busão (que não tem capota):
Conhecemos o que era obrigatório na cidade: o Big Ben, o Palácio, o Parlamento, o Tâmisa, mas a galera estava ouriçada mesmo era na maior roda gigante do mundo, conhecida como London Eye. Em lugar das tradicionais cadeiras, um bólido semelhante ao trenzinho do Pão de Açúcar, com capacidade para umas 20 pessoas. O ingresso dava direito a uma volta inteira no treco, que demorava de 15 a 20 minutos. Ninguém sofria de claustrofobia nem de acrofobia, então foi uma curtição.
Voltamos de Londres na mesma noite, porque o dia seguinte seria cheio: logo cedo as vans nos levariam a Versailles e Giverny, esta última para visitarmos a casa onde Monet viveu e criou parte considerável de suas obras.
Em Versailles:
Entrada do Palácio
O palácio tem um jardim até mais ou menos
Detalhe do interior do palácio.
A história dos brioches é meio controversa mas, a se considerar o luxo do palácio, Maria Antonieta era bem metidinha. Já a casa de Monet, com aquele jardim de cair o queixo, faz a alegria de quem admira o belo e as artes. É coisa de louco tanta beleza produzida pela natureza, com suas árvores, plantas, incontáveis espécies de flores e o lago, margeado por um estreito curso d'água e com algumas pontes.
O povo francês é meio sério demais, e deve ter ficado escandalizado com nossas chegadas abruptas, principalmente no metrô. Imaginem 16 pessoas esperando a porta do trem abrir, cientes de que ela se fechará em poucos segundos. Era sempre um verdadeiro arrastão. Numa dessas demonstrações de civilidade tupiniquim, acabamos por impedir a saída de um músico, que estava defendendo uns trocados tocando sua guitarra no vagão. Não sei se deduziu que éramos brasileiros ou alguém da turma contou, o fato é que de repente ele começou a tocar o brasileirinho, para delírio dos brazucas. Em seguida mandou um Garota de Ipanema e nós lá, em volta do cara, batucando com o que estivesse mais próximo: mochila, parede e teto do trem, qualquer coisa ali era frigideira, surdo e atabaque. Olhei para a francesada, que costuma viajar lendo ou conversando em voz baixa, e alguns estavam acompanhando a música com palmas ou batidas de pé. Acho que conseguimos detonar uma tradição centenária no metrô de Paris. Rolou uma foto:
A propósito, o cara é búlgaro. A foto ficou ruim, mas quem consegue tirar fotos sem tremer com o metrô em movimento?
Enfim, chegou o dia de voltar à realidade e ao aeroporto. Achei Londres meia boca, mas Paris me deixou um encantamento que convida a voltar. Vou começar a juntar meus trocadinhos para uma nova aventura já como veterano de guerra, que me permitirá explorar outros pontos, evitar os que se mostraram chatos e mesmo aqueles que até nem são ruins, mas que merecem uma única visita. Não me imagino, por exemplo, subindo novamente na Torre Eiffel ou voltando a Versailles. Quero, antes, tentar aprender a língua para pedir une bièrre pressión sem sotaque.
Daqui a exatas 47 horas e 34 minutos Eliana, Lucas, eu, meus cunhados, sobrinhada e mais uns seis ou sete malucos sairemos de Cumbica rumo àquela terra onde os cabras carregam pão no sovaco, com direito a uma esticadinha em Londres.
Nenhum de nós fala titica de francês, mas o problema é deles. Minha curiosidade maior é conhecer o local onde Maria Antonieta perdeu a memória.
Hoje acordei com um tempero de euforia. Consegui concluir o que considero o trabalho mais difícil e desgastante dos últimos 10 anos. E concluí com o espírito em paz pela certeza de ter atingido o equilíbrio entre a rigidez técnica exigida e o toque pessoal, humano e justo que deve sempre nortear meu trabalho. Pelo menos eu penso assim.
Acordar não é bem a palavra, porque isto ocorre somente uns 15 minutos depois que me levanto. É, após me levantar eu demoro um tempo para tomar consciência de que a Terra é redonda, ando trôpego e derrubo copos. Desde sempre sou assim: um zumbi honorário, cujas decisões logo após se levantar geralmente levam a algum desastre.
A euforia se alia à expectativa de voltar para casa, reencontrar meus amores e torcer para que nunca mais nos afastemos. É utópico, considerando minha profissão, mas é gostoso torcer.
Estou agora no aeroporto de Brasília, aguardando as duas horas que me separam do trecho final até meu porto seguro, onde amanhã comemoraremos o oitavo aniversário do Lucas, junto com os amiguinhos que ele convidou. Dentro em pouco estarei no melhor lugar da cidade, a sala de embarque.
Como em todos os anos, comemoro o 13 de maio com euforia incontida e a necessária desconfiança. E fiquei sabendo, pelo e-mail que meu amigo Amauri me mandou, que hoje é o Dia dos Lindos.
Agora que compadre Osama virou adubo, o assunto do momento é a suposta bunda da primeira-irmã do Reino Unido. Olha só que coisa mimosa:
Os ingleses ficaram doidos com aquela coisa protuberante, logo a elegeram a Miss Popozuda do casamento real, a maioria se apaixonou e teve absurdamente elevada sua taxa de testosterona. Sinceramente, a imagem da mocréia me lembrou uma tábua de passar roupa, mas meu complexo de viralata achou por bem concordar com os altivos ingleses, afinal qual é o peso da opinião de um terceiro-mundista que não tem educação nem finesse para apreciar o que de fato há de bom na vida?
Há mais de uma década Nelson Piquet disse que os ingleses eram um povo bem esquisito, que sustenta uma família absolutamente inútil e ainda se orgulha disso. Acho que esse povo não deve ter o hábito de viver perigosamente, e se deslumbra com porcaria.
Deve ser por isso que os ingleses são tristes, excessivamente formais e beberrões.
Já falei aqui que meu atual sonho de consumo é a aposentadoria. Eu vivo num país em que o ministro da previdência entende tanto de previdência quanto minha mãe é expert em física nuclear. Daí minha desconfiança quanto a uma eventual mudança de regra aos 45 do segundo tempo, como, aliás, já ocorreu um monte de vezes. E isto não decorre somente de desconhecimento técnico, mas de espírito sacana. É o caso, em se tratando do membro de uma daquelas famílias que historicamente mandam e desmandam no Rio Grande do Norte, que por obra e graça de conchavos políticos se tornou ministro.
Segundo os cálculos do matemático Oswald de Souza, me faltam seis meses e nove dias para o grande evento. Para não restar dúvidas, agendei uma visita ao posto da previdência para cadastrar uma senha, que me servirá para acompanhar pelo site do INSS a contagem regressiva.
Senha cadastrada, lá fui eu, todo alegrinho, acessar meus dados. Não digo que fiquei branco de susto porque seria uma mentira deslavada (ou, no máximo, uma licença poética), mas de fato tomei um susto digno de quem dá de cara com o Zé Dirceu: minhas informações estão todas incompletas, inclusive as do contrato de trabalho atual, que dia 13 de abril passado completou 30 anos.
Novo agendamento, desta vez para correção de cadastro. É engraçado que a gente agenda dia e hora, mas quando chega lá tem que pegar uma senha. Mas, vá lá, sou brasileiro e não desisto nunca, esperei minha vez e entreguei a documentação.
Todos os servidores que direta ou indiretamente me atenderam o fizeram com uma qualidade que me deixou boquiaberto. Percebi que chegavam a ser até carinhosos com as pessoas mais idosas. Fiquei ainda mais abestalhado quando soube que eles estavam comprando do próprio bolso canetas para trabalhar (ei, INSS, que história é essa?), chegando ao cúmulo de uma servidora ter comprado a própria cadeira para atender aquele mundão de gente.
Fui atendido por uma servidora, que conferiu a documentação, me disse que estava tudo correto, mas fez uma pequena observação: vai demorar um pouquinho. Perguntei se aquele pouquinho seria algo como a eternidade e ela na prática respondeu que sim. “Só eu analiso os processos; enquanto estou aqui lhe atendendo a análise está parada, e hoje estou analisando processos iniciados em abril do ano passado.”
Perguntei se em outra agência eu teria melhores chances, e ela respondeu que não, talvez fosse até pior. E deu a dica: se eu reclamasse na ouvidoria, eles mandariam me atender dentro do prazo ‘normal’.
Agradeci a dica e disse que iria mesmo esculhambar o INSS via ouvidoria. Uma senhora que estava logo atrás de mim disse que seria injusto com os outros e, por isso, já tinha entregado para Deus. Já que desconfio que Deus não deve ser um bom burocrata, decidi pela ouvidoria e o que tiver que entregar para Deus levarei pessoalmente.
Eu aprendi a não gostar do que é ‘normal’ no serviço público, pesquisei e encontrei o que é legal: a Lei nº 9.784/99, conhecida como a Lei do Processo Administrativo, diz que o prazo que é de 30 dias. Ponto.
Soltei Alter-ego, meu pitbull de estimação, no site da previdência. Falta pouco para completar os 30 dias e até agora nadica. Vencido o prazo, lá vou eu fazer representação no Ministério Público.
Essa galera ainda vai aprender a não mexer com preto.
Meu trabalho às vezes é um fardo. Principalmente quando tenho que me afastar de meus amores, que deixo em casa e tenho que aterrissar a milhares de quilômetros dali.Acho que saudade está longe de ser uma palavra abstrata, porque gera um emaranhado de dores, inseguranças e incômodos físicos.
Estou em Porto Velho, designado para o difícil trabalho de apurar os fatos e circunstâncias que culminaram com a prisão de um colega de empresa. Mais um inquérito administrativo, em que me foi dada a ‘honra’ de ser o presidente da comissão de apuração. Não entendo por que FHC e Lula adoravam ser presidentes.
O trabalho consiste em investigação, coleta de documentos, análise de relatórios e depoimentos, muitos depoimentos.
Como o colega está preso, tivemos que ir até o presídio para colher seu depoimento. Minha primeira preocupação foi quanto à possibilidade de sair dali depois. É só imaginar a cena: um neguinho raquítico, com cara de pobre, notebook pendurado no ombro e crachá de autoridade. E se cismassem que eu era um potencial fugitivo disfarçado?
Nunca tinha estado num presídio antes, e a impressão não foi das melhores. Para acentuar meu mal-estar, hoje era dia de visita. Entristeceu-me bastante ver aquelas pessoas, a maioria mulheres, com suas sacolas contendo alimentos para seus queridos, todos com certo ar de conformismo.
Foi-nos reservada uma sala, onde ouvimos o colega. Seu semblante tinha a serenidade possível, mas era perceptível sua revolta contra as acusações que lhe pesam, vez que clama por inocência.
Na saída, nova revista. Ao meu lado, uma garota de seus 15 anos. Chorava copiosamente ao fim da visita. Não tive coragem de lhe perguntar a quem tinha visitado, mas me vi dentro da poesia/missa Miserere Nobis, mais especificamente no trecho ...meum cor contrictum est.
Já é de lei passarmos o sábado em Anápolis. É lá que pego um rango legal na casa da sogra, brinco com a sobrinhada, converso abobrinha com a família e, quando dá, tiro uma soneca depois do almoço.
Também já virou tradição irmos ao clube lá pelas três ou quatro da tarde. Aí a turma é mais restrita: meu cunhado Gustavo, meus sobrinhos Diogo e Danilo, Lucas e eu. O objetivo lá é bater uma bolinha, depois a molecada come aqueles salgadinhos com cheiro de chulé de soldado (cheetos, doritos, cebolitos, baconzitos... terminou com itos fede), Gustavo e eu detonamos umas latinhas e voltamos ao escurecer.
Nossa tradição não foi rompida sábado passado. Chegamos no clube lá pelas quatro e meia e resolvemos jogar nos campos da parte alta. O clube merece um ISO meia dúzia no quesito administração, mas devo reconhecer que os campos de futebol, que são muitos, são verdadeiros tapetões, muito bem cuidados.
Eu nunca tive intimidade com a bola, por isso desde a infância era o goleiro oficial. Acabei tomando gosto pela coisa e cheguei a ser vice-campeão do centro-oeste de futebol de salão, hoje futsal, com direito a medalha de goleiro menos vazado. Acho que o tal DNA falou alto e o Lucas desde cedo cismou que é goleiro. Entrou em campo todo paramentado: calça com proteção lateral e nos joelhos, camisa de goleiro, luvas e é sempre o primeiro a ir para o gol. Depois vamos revezando.
Chegou minha vez. No primeiro chute que Gustavo deu, uma bola rasteira, me abaixei todo atrapalhado para defender e escutei o tradicional 'plof'. A sensação que eu tive era que o mindinho tinha ido fazer um passeio no cotovelo e já voltou contrariado. Logo percebi que era fim de festa para mim, corri até o bar do clube e envolvi o dedo em gelo. A dor não passava, e o jeito foi tomar um analgésico. Como não tinha brahma, foi skol mesmo.
Ao chegar na casa da sogra meu dedo estava gordinho, coisa linda de se ver. Eliana ficou preocupada, tentei convencê-la de que pelo menos num lugar eu já não estava raquítico, jantamos e pegamos estrada de volta para casa, onde tomei um analgésico de verdade.
Dormi mal e acordei cedo. Olhei para minha mão direita, que latejava, e vi quatro dedos e uma linguiça toscana. Conforme passava o tempo o dedo foi ganhando um tom de roxo, que começou na primeira falange e foi avançando até a ponta. Após o almoço meu mindinho já tinha se tornado um hematoma com unha, e dona Eliana, que é quem dá as ordens aqui em casa, determinou que eu procurasse um hospital. Eu queria ir de moto, mas ela não deixou. Mulheres...
O sacana do médico apertava meu dedo e perguntava: onde dói? "Eu já perdi noção da geografia desse dedo, doutor, dói tudo". Fiz o raio-x e não havia fratura nem luxação, então ele determinou que fosse feita a imobilização do local e me receitou um antiinflamatório.
Por orientação do próprio médico, o enfermeiro colocou a tala com meu dedo voltado para baixo. Ficou esquisito e desconfortável, mas quem sou eu para questionar o médico?
No dia seguinte, trabalho. Fiz algum sucesso com minha mão envolta em faixas, tive que ouvir as tradicionais piadinhas, mas o que de fato me tirou do sério foi a dificuldade para digitar. Eu tinha um relatório para fazer, e aquele dedinho curvado insistia em colocar um ç em qualquer palavra que eu escrevesse. Passei mais tempo corrigindo do que escrevendo.
Minha paciência de Jó durou até as três da tarde, quando arranquei tudo. Meu dedinho estava lá, com cara de mini chucrute, mas pelo menos já podia mexer um pouquinho e a dor tinha diminuido bastante.
O relatório não ficou pronto naquele dia, mas não foi por culpa do dedo. Foi preguiça, mesmo.
Não sei que nome se dá a isso, ou se isso tem de fato um nome, mas sempre imaginei como seria interessante entrar na cabeça de certas pessoas, entender o que lhes vai na alma e os motivos para o que fazem ou fizeram. Clarisse Lispector é a primeira da lista, seguida por figuras como Marx, Schopenhauer, Zeca Baleiro, Chopin, Hitler e alguns colegas e conhecidos, mas sei que esse meu delírio jamais vai se concretizar.
Hoje passei o dia nesse embate, tentando entender o porquê daquela chacina, estúpida como toda chacina, ocorrida numa escola do Rio de Janeiro. O sujeito entrou na escola e saiu atirando a esmo contra crianças e adolescentes que provavelmente nunca tinha visto antes, matando mais de uma dezena e ferindo muitos.
O que leva uma pessoa a interromper a vida de crianças, causando tristeza e estupefação a todos que valorizam o bem, além de graves traumas a outros tantos? A autópsia vai dizer se ele estava drogado mas, mesmo que estivesse, que 'voz' interna e maligna o estava guiando? Estaria agindo somente por um instinto assassino, que não é dado sequer aos animais irracionais? E depois, novamente por instinto, o da sobrevivência, teria tentado fugir?
Deixou uma carta confusa, ora cristã, ora com traços muçulmanos, que nada explica. E deixou instruções sobre seu próprio enterro.